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V OBESIDADE Na hora de convidar os leitores a encarar este magno problema das sociedades ocidentais, ocorre-nos a frase de Freud: "Todos os prazeres da vida se iniciam atrav�s da boca".
O excesso cal�rico e os h�bitos sedent�rios modernos t�m levado
ao aumento da frequ�ncia da obesidade, bem como das suas consequ�ncias metab�licas,
fisiol�gicas ou fisiopatol�gicas que parecem aumentar progressivamente com o grau do
desvio acima do peso m�dio.
Poderemos ent�o definir a obesidade como excesso de tecido
adiposo - gordura, que pode ser ligeiro, a que se chama excesso de peso (grau 1), a
obesidade propriamente dita (grau II) e o grau extremo, a superobesidade ou obesidade
m�rbida (grau III).
� f�cil verificar, com uma olhadela ao espelho, que estamos a
engordar mas � bastante dif�cil saber quanto devemos pesar. Advogamos a tese de que se
deve manter, ao longo da vida, o peso correcto dos vinte ou vinte cinco anos, n�o
aceitando que, sem preju�zo para a sa�de, se possa pesar mais, � medida que sobre n�s
cai o peso dos anos. O peso ideal ser� o que d� vida aos anos e anos � vida, isto �, o
que d� uma vida mais longa com mais sa�de, muito embora sem necessidade de criar a
"psicose do peso ideal". Portanto, na pr�tica, o peso aconselh�vel ser� o do
final da puberdade, n�o sendo o mais importante atingir o peso ideal, que uma tabela nos
indique, mas sim conseguir um peso equilibrado que n�o obrigue a uma dieta cr�nica.
Claro est� que o excesso de peso por acumula��o de gordura
encurta a vida, aumenta a incapacidade, e eleva o risco de muitas doen�as, afirma��o
j� feita por Hip�crates h� 2400 anos: "as pessoas cheias morrem mais cedo do
que as magras porque expostas a mais doen�as". De facto os obesos t�m uma
esperan�a de vida inferior � dos n�o obesos. Se � verdade que uma massa adiposa
adequada assegura o carburante necess�rio ao m�sculo durante a juventude e permite uma
reserva de glicog�nio e portanto de glicose exigida pelo volumoso c�rebro do homem, o
excesso de massa gorda tem consequ�ncias patol�gicas de duas ordens: mec�nicas e
metab�licas. Estas �ltimas est�o relacionadas com os metabolismos da glicose, l�pidos
e purinas e com as diferentes vias que conduzem � hipertens�o arterial e �
aterosclerose. De facto a obesidade parece ser um factor de risco muito importante de
doen�a coron�ria; contudo, certos dados epidemiol�gicos mostram que tal risco �
relativamente modesto quando comparado com o risco de outros factores, a que j� nos
referimos, como o colesterol, hipertens�o arterial e tabagismo. Mas o certo � que o peso
ideal �, presumivelmente, o que se associa � menor taxa de mortalidade; por outro lado
as pessoas que t�m 20% ou mais de excesso de peso, em compara��o com o peso desej�vel,
s�o consideradas obesas; julga-se tamb�m que h� um excesso de mortalidade por doen�a
coron�ria, de 35%, para os homens com 20% ou mais acima do peso m�dio. Parece ser mais
evidente a rela��o da obesidade com a angina de peito e morte s�bita, do que como
enfarte n�o fatal. Se � verdade que a rela��o entre a obesidade e a doen�a coron�ria
parece ser inconsistente, o facto � que a obesidade est� habitualmente associada a indiscut�veis
factores de risco, como a hipertens�o arterial, intoler�ncia � glicose ou diabetes,
inactividade f�sica e aumento do colesterol, triglicer�deos e �cido �rico. Isto
leva-nos a crer que, se a obesidade aumenta a doen�a coron�ria, actuar� atrav�s destes
factores associados, o que implica que a obesidade deva ser tomada devidamente em
considera��o. A obesidade com distribui��o de tipo andr�ide, t�pica do homem, que
predomina na parte superior do corpo, acima do umbigo, � o subgrupo de maior risco
diabet�geno e aterog�nico, que pode ser multiplicado por 6 ou 20. Este tipo de obesidade
� constitu�do por adip�citos particularmente sens�veis a est�mulos lipol�ticos que,
em situa��es de stress, podem levar ao aparecimento de n�veis elevados de �cidos
gordos livres que poder�o, em �ltima an�lise, levar ao aparecimento de v�rios factores
de risco para a doen�a coron�ria. Em rela��o � popula��o em geral, nos obesos a
preval�ncia da hiperlipidemia � 5 a 8 vezes mais elevada e o risco de mortalidade
associado com a hiperlipidemia � 1,5 vezes maior. A obesidade gin�ide, t�pica da
mulher, com distribui��o da gordura nos segmentos inferiores - anca e coxas - n�o
apresenta estes inconvenientes.
Poderemos, portanto, concluir: 1. A obesidade est� associada a um aumento de mortalidade geral. 2. Quando associada � hipertens�o, diabetes e n�veis elevados de colesterol e triglicer�deos, a que habitualmente est� ligada, a obesidade torna-se um factor de risco de doen�a coron�ria. 3. A correc��o da obesidade afecta beneficamente os factores referidos, particularmente os triglicer�deos, o que nos leva a crer que, mesmo na falta de evid�ncia directa, a redu��o do peso, por si s�, reduz o risco de doen�a coron�ria. De tais conclus�es decorrem naturalmente as seguintes recomenda��es: 1. Nas pessoas obesas devem ser procurados outros factores de risco. 2. A necessidade de redu��o do peso do obeso depende consideravelmente da presen�a ou aus�ncia de outros factores de risco de doen�a coron�ria. 3. Na pr�tica n�o se deve exceder o peso desej�vel. 4. O exerc�cio f�sico di�rio, regular, � fundamental para uma redu��o satisfat�ria do peso. 5. As dietas para a redu��o do peso devem promover redu��o de todos os componentes da dieta, privilegiando a redu��o do a��car, �lcool e gorduras. O tratamento da obesidade vai desde as dietas at� ao bal�o intrag�strico e sutura dos maxilares, passando pelo exerc�cio f�sico, terapia comportamental e medicamentos - anorex�genos e sedativos. As dietas de emagrecimento devem ter um valor
cal�rico-proteico equilibrado, em vitaminas, sais minerais e fibra diet�tica - parte dos
legumes, cereais, frutos e outros vegetais que n�o � diger�vel pelo est�mago nem pelas
enzimas digestivas intestinais, podendo algumas delas serem digeridas pelas bact�rias.
Com as fibras diet�ticas a absor��o de a��car no intestino � menos eficaz e reduz-se
a propor��o de enteroglucagon, hormona do intestino que "avisa" o p�ncreas
que se est� a ingerir a��car para que o p�ncreas responda segregando insulina; assim o
a��car entra mais lentamente no sangue e os n�veis de insulina n�o aumentam tanto como
sem a presen�a da fibra. A absor��o mais lenta do a��car, juntamente com respostas
menores de insulina provoca uma convers�o menor de a��car em gordura, um n�vel mais
baixo de gordura sangu�nea e um menor armazenamento de gordura. Naturalmente que se torna
dif�cil, se n�o imposs�vel, no pouco espa�o de que dispomos, enumerar todos os tipos
de dieta que ter�o que ser adaptados a cada indiv�duo e de acordo com o tempo
dispon�vel de cada um, o n�mero de refei��es que costuma fazer diariamente, os seus
gostos e local onde toma as refei��es e ainda os seus h�bitos alimentares, sociais e
culturais. S� o m�dico est� autorizado a estabelecer a dieta especifica de cada doente.
N�o obstante essa dificuldade sempre referimos que, qualquer que seja a dieta de
emagrecimento, � importante saber:
1. Que n�o � restritivo o consumo de hortali�as, legumes, saladas e sopas sem farin�ceos nem gorduras. 2. Que o n�mero de refei��es di�rias varia de 5 a 7. 3. Que S�o aconselhados os grelhados, estufados, assados e cozidos. 4. Que na confec��o dos alimentos se deve utilizar o m�nimo de sal. 5. Que a gordura � proporcional ao valor cal�rico da dieta. 6. Que s�o poss�veis saborosas confec��es em tacho, sem necessidade de juntar gordura, escolhendo carnes e peixes magros expurgados da pele. 7. Que qualquer destes alimentos se pode cozinhar em vinho, numa marinada. 8. Que se podem usar especiarias e ervas arom�ticas como condimento. 9. Que para temperar saladas e cozidos se podem preparar molhos com valor cal�rico aceit�vel � base de iogurte batido, vinagre, pimenta, tomate, alho e cebola. O valor cal�rico das diversas dietas hipocal�ricas varia habitualmente de 850 a 1800 Kcal. Da dieta com 1200 Kcal, talvez a mais indicada pelos especialistas e aquela com que � obtido mais sucesso, damos uma Ementa-Tipo:
Pequeno Almo�o
- 1,5 dl de leite magro - meio papo-seco com manteiga (uma colher de caf� rasa) - ou queijo magro ou fresco
Meio da manh�:
- uma pe�a de fruta mais uma bolacha Maria 1 �gua e sal/torrada
Almo�o / jantar: - Sopa sem gordura e sem farin�ceos - Carne / peixe (100 gr) com uma batata pequena - ou 3 colheres de sopa de arroz ou massa - Hortali�as, legumes, saladas
Uma hora depois: - Uma pe�a de fruta
Merenda:
- Um iogurte natural mais tr�s tostas com manteiga (uma colher de caf�)
Ceia:
- 1,5 dl de leite magro mais duas bolachas Maria / �gua e sal / torrada.
O tipo de exerc�cio f�sico est� muito condicionado pelo estilo de vida do doente; a marcha r�pida, a nata��o, a gin�stica de manuten��o e o saltar� corda S�o os exerc�cios mais indicados que dever�o ser efectuados regularmente e de forma progressiva. Os desportos de fim de semana ou os esfor�os mais violentos n�o t�m qualquer vantagem, podendo mesmo ser perigosos. A administra��o de anorex�genos (medicamentos que reduzem o apetite) ter� que ser efectuada sempre sob vigil�ncia e orienta��o m�dicas, s� num n�mero limitado de doentes e nunca durante mais de tr�s meses. Os sedativos, em pequenas doses poder�o, em alguns casos, diminuir a ansiedade e a tens�o emocional, permitindo uma melhor ades�o �s dietas. A finalidade da terapia comportamental � a correc��o dos erros alimentares, a realiza��o de testes alimentares e psicol�gicos para individualiza��o terap�utica e a psicoterapia de apoio. O bal�o intrag�strico e a sutura dos maxilares
poder�o estar indicados nos obesos de grau II grave, depois da fal�ncia de todas as
outras alternativas terap�uticas. Para prevenir a obesidade h� que efectuar um regime alimentar saud�vel e um estilo de vida com maior actividade f�sica o que n�o s� reduz a preval�ncia da obesidade como de todas as doen�as metab�licas e degenerativas dela dependentes que se tornaram um flagelo universal. Entendemos por alimenta��o saud�vel a que privilegia os produtos hort�colas e frutos, bem como cereais e leguminosas, a que restringe os �leos e gorduras, sendo ainda mais exigente na restri��o do �lcool e a��car e a que aconselha o consumo modesto de carne e peixe (m�ximo:150 gr 1 dia). Por estilo de vida com maior actividade f�sica entendemos andar mais a p�, subir e descer escadas, movimentar e usar os m�sculos, na impossibilidade de praticar gin�stica ou desporto. � decerto muito dif�cil prevenir a obesidade numa sociedade de consumo onde s�o muito eficazes os apelos para usar certos produtos alimentares e certas bebidas, nutricionalmente inadequadas, e onde o autom�vel e a televis�o convidam ao sedentarismo. Dif�cil, mas talvez n�o imposs�vel, a preven��o da obesidade � sobretudo mandat�ria em determinados indiv�duos: os filhos de diab�ticos n�o-insulino-dependentes e os seus parentes em primeiro grau, os filhos de um e, principalmente, de dois progenitores obesos, os familiares de doentes com hipertrigliceridemia, beb�s com peso excessivo nos primeiros seis meses, adolescentes com demasiado peso e os que recuperam o peso normal por dieta de emagrecimento. Como nota final queremos refor�ar:
A obesidade precisa de ser evitada na inf�ncia. O progn�stico da obesidade � reservado, na medida em que � dif�cil obter-se o emagrecimento bem sucedido e duradouro. A pessoa obesa, que j� teve muitos fracassos no emagrecimento, necessita mais de simpatia do que de condena��o.
Comer n�o custa... custa � saber comer.
Vamos dizer n�o...
A barriga a arredondar, E regueifas na cintura, � altura de pensar, Em dizer n�o, � gordura!
N�o deves mais permitir, O prato a abarrotar, Se come�as a sentir, A barriga a arredondar.
Co' as do�uras tem cautela, Come bastante verdura, Se te aparece a barbeIa, E regueifas na cintura.
Se pesas mais que em solteiro, E j� n�o podes saltar, Em cortar com o saleiro, � altura de pensar.
Como magreza � beleza, Gordura n�o formosura, Pensa, quando est�s � mesa, Em dizer n�o, � gordura!
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