Na nossa primeira abordagem, de
forma abrangente, à prevenção vascular, introduzimos, à guisa de conclusão, um
discurso, despretensiosamente poético, numa linguagem que pretendeu ser mais acessível
ao grande público.
É a essa população anónima
mas interessada que hoje novamente nos dirigimos, numa insistente tentativa duma maior
consciencialização quanto à necessidade de nos juntarmos na divulgação de alguns
princípios de prevenção vascular.
Mesmo todos, unidos, seremos
poucos...
Hoje é sobejamente conhecido
que os padrões culturais e, portanto, o modo de vida de cada sociedade, se encontram
relacionados com a frequência e intensidade das afecções cardiovasculares, determinadas
pela agregação das várias características de risco individuais, algumas identificando
o indivíduo em estado de alto risco, mas não modificáveis como a idade, sexo, história
familiar ou, duvidosamente modificáveis, como a personalidade, mas outras susceptíveis
de correcção, como o consumo de tabaco e o sedentarismo.
Felizmente que, principalmente
nos grandes centros urbanos, a população portuguesa começa a sentir-se motivada para os
problemas cardiovasculares, aprendendo mudanças de hábitos pessoais e sociais e
conhecendo relativamente bem a importância da nutrição e da actividade física e a
nocividade do stress profissional e do tabagismo.
Um dos principais indicadores do
risco de cardiopatia isquémica é, indiscutivelmente, a tensão arterial elevada. Sinal
componente do quadro clínico de várias doenças, a hipertensão arterial, em alguns dos
seus aspectos, tem uma origem ainda mal definida, onde as circunstâncias ambienciais
parecem alimentar os seus vários factores desencadeantes e predisponentes.
De evolução silenciosa,
sorrateira até à cronicidade, é por essa razão subestimada pelo doente que,
inconscientemente, vive de braço dado com uma hipertensão não tratada ou mal
compensada. Se logo à partida se manifestasse por dor ou outro qualquer sofrimento,
naturalmente que haveria a preocupação de a combater. Assim, comodamente, pensa o
doente: - pode esperar o mal que não se sente!. E assim, sem a procurar, o enfermo só se
apercebe da sua tensão elevada quando catastrófica e tardiamente padece das suas
consequências, causa de enorme morbilidade e morte em todo o mundo, onde Portugal não
foge à regra, como fruto da muita ignorância, descuido, debilidade económica e uma
certa inoperância dos cuidados de saúde.
É costume considerar hipertenso
"todo o indivíduo cujas tensões arteriais medidas pelo menos em três ocasiões
diferentes, e obedecendo aos critérios definidos como a metodologia correcta, excedem o
valor arbitrário de 160/95 mm Hg..."
Vemos, portanto, que para rotular um
indivíduo de hipertenso é necessário encontrar mais do que uma medição elevada da
tensão arterial; contudo, uma só medição alta é razão suficiente para que o enfermo,
alertado, se submeta a frequente vigilância.
Se pensarmos que as doenças
cerebrovascular e isquémica do coração são a principal causa de morte, que estão
intimamente relacionadas com a hipertensão arterial, e que esta pode ter um tratamento
eficaz, estamos perante um problema merecedor da nossa maior atenção, na medida em que,
no nosso País, há muitos hipertensos que não sabem que o são e, de entre os que o
sabem, muitos não fazem tratamento ou, se o fazem, na sua grande maioria não estão
controlados.
Sofrendo a influência de
factores genéticos e de múltiplos outros factores predisponentes, a hipertensão
arterial pode ser secundária a uma situação clínica geral, ou então ser o principal
sinal da doença. Pode também estar relacionada coma raça, sexo e idade.
Uma vez que, como já dissemos,
a hipertensão arterial é, na maioria dos casos, uma situação silenciosa, sem campainha
de alarme, o atraso do diagnóstico leva muitas vezes à demora do inicio do tratamento,
permitindo que, frequentemente, o primeiro sinal da sua presença seja já uma grave
lesão dum órgão nobre.
As dores de cabeça matinais, a
irritabilidade, o desequilíbrio e as perturbações da vista e do ouvido, que
frequentemente lhe estão associadas, traduzem muitas vezes já complicações vasculares
da elevação da tensão arterial, a nível da retina, rim, coração e sistema nervoso;
assim, e consoante o órgão atingido, pode chegar-se à diminuição da acuidade visual,
cegueira nocturna ou mesmo cegueira, dor no peito, cansaço fácil, falta de ar com o
esforço ou durante a noite, dores de cabeça intensas, confusão, agitação, convulsões
ou letargia acompanhadas por náuseas, vómitos e perturbações visuais.
A existência de antecedentes
familiares de doença cardiovascular ou de hipertensão arterial, o seu início e
duração, um eventual passado de infecções urinárias de repetição ou de traumatismo
renal, a existência de variações do peso, a presença de factores de risco, o uso da
"pílula", têm muito interesse quanto ao seu prognóstico, isto é, quanto à
previsão da evolução futura da tensão arterial.
A história da hipertensão
arterial não tratada pode ser encarada sob dois aspectos distintos: a evolução da
tensão arterial e a das suas consequências. Assim, na maior parte dos hipertensos, a
evolução dos valores tensionais é lenta e insidiosa e normalmente sem sintomas,
enquanto que, um pequeno número, entra em fase maligna que, não tratada, leva à morte.
As "consequências hipertensivas" (hemorragia cerebral, insuficiência
cardíaca, esclerose renal, dissecção aórtica) bem como as "consequências
ateroscleróticas" (doença coronária, morte súbita, arritmias, acidente cerebral
trombótico, doença vascular periférica), causam uma acentuada diminuição da vida
média dos doentes.
Como aspectos particulares da
história natural da hipertensão arterial podemos referir que os homens de raça negra
são doentes de alto risco, que o risco absoluto para todos os níveis de tensão arterial
é mais baixo nas mulheres, que os hipertensos da terceira idade apresentam uma história
mais grave do que indivíduos de outros grupos etários com os mesmos valores tensionais e
que a coexistência de factores de risco para a aterosclerose é um poderoso factor de
agravamento.
Naturalmente que quanto mais
elevados são os valores tensionais maior será a gravidade da hipertensão enquanto que
uma evolução lenta ou estacionária terá um melhor prognóstico.
Uma vez que a esperança de vida
diminui na relação directa da subida dos valores da tensão mínima, e os hipertensos
são particularmente vulneráveis a acidentes cérebro e cardiovasculares, impõe-se o
tratamento das hipertensões graves e moderadas, sendo discutível a terapêutica da
hipertensão arterial ligeira ou da máxima isolada.
Donde a necessidade de saber,
atempadamente, o valor da nossa tensão arterial!
Procure que a sua desça, mas
duma maneira lenta e gradual, para valores compreendidos entre os 16 e os l4 (160 - l4O mm
Hg.).
A terminar, dez "mandamentos"
que o hipertenso deve ter sempre presentes:
1. A determinação
genética influi na manifestação da doença hipertensiva.
2. É habitual uma
certa elevação da tensão arterial como envelhecimento.
3. Como norma geral
deve restringir-se o conteúdo em sal na dieta.
4. O obeso deve
perder peso.
5. É saudável a
prática regular do exercício físico.
6. As bebidas
alcoólicas devem ser restringidas.
7. O tabaco deve ser
evitado (apesar de não ter influência positiva na tensão arterial) pela sua evidente
associação a doenças cardiovasculares.
8. É permitida a
ingestão regular diária de 2 a 3 chávenas de café.
9. Há necessidade
de um ambiente profissional, social e familiar, de tranquilidade e segurança.
10. O repouso e os
momentos de ócio são fundamentais à saúde, particularmente, à saúde cardiovascular.

Vamos dizer não...
à hipertensão!
Mesmo sendo muito forte
Pensa na alta tensão.
Pode ser perigo de morte...
Diz não, à hipertensão!
Se tiveres dores de cabeça
Não acredites na sorte.
Vai ao médico, depressa
Mesmo sendo muito forte.
Se tens sangue no nariz,
Ou, nas pernas, inchação
Ouve o que o médico diz,
Pensa na alta tensão.
Olha que a falta de ar,
Ou, no peito, uma dor forte
E, à noite, muito urinar
Pode ser perigo de morte.
Corta o fumo do tabaco,
Corta o sal à refeição,
Corta os excessos do prato,
Diz não, à hipertensão!