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Preven��o Vascular

 

III - TABACO

 

Estou certo de que o leitor est� suficientemente informado para saber que o consumo de cigarros est�, indiscutivelmente, inclu�do entre os tr�s principais factores de risco da doen�a coron�ria. O eco de m�ltiplas e sucessivas campanhas contra os malef�cios do tabaco j� deve ter chegado at� si, de forma a permitir-lhe saber tamb�m que os riscos que mais t�m sido postos em destaque para os fumadores s�o a bronquite cr�nica e o cancro do pulm�o, n�o obstante mais de metade do excesso de mortes nos fumadores ser, contudo, devida a doen�as cardiovasculares.

Proibido FumarSe, ainda assim, me confessa que fuma muito e sobretudo se � jovem, fico mais preocupado. Chamo-lhe a aten��o para o facto de que os indiv�duos que fumam mais de 20 cigarros por dia e os que come�am a fumar antes dos 20 anos, t�m duas vezes mais probabilidades de morrer por doen�as do cora��o do que os n�o fumadores.

N�o vou ao ponto de dizer, como Fernando de P�dua, que fumar � um v�cio maricas, mas o que � certo � que, actualmente, as mulheres fumam mais do que os homens! Esquecem, contudo, que o grande consumo de cigarros aumenta o risco de morte s�bita e que, al�m disso, as mulheres que fumam e usam "p�lula" correm ainda um risco maior, que pode ser cinco vezes mais frequente.

Tem sido sugerido que seja coincidente e n�o causal a grande associa��o entre o fumo do cigarro e as doen�as das coron�rias. � que aqueles que t�m tend�ncia para sofrer de doen�a coron�ria s�o tamb�m o tipo de pessoa que constitucionalmente tem mais tend�ncia para fumar. Contudo a "hip�tese constitucional" n�o pode explicar facilmente o menor risco de doen�a coron�ria nos ex-fumadores. E indiscut�vel que os factores constitucionais e familiares afectam o risco de morte por doen�as do cora��o, mas n�o se provou ainda que qualquer desses factores explique a associa��o entre o tabagismo e a doen�a coron�ria.

Considero no entanto ser t�o perigoso o v�cio de fumar, que sou um grande fumador completamente regenerado, at� por saber que os perigos do tabaco podem surgir, ainda que fumando cigarros sem nicotina, talvez pelo efeito de outro constituinte do fumo do tabaco, o mon�xido de carbono.

Embora o risco de doen�a coron�ria nos fumadores de cachimbo e de charuto pare�a ser s� ligeiramente maior do que nos n�o fumadores, � poss�vel que a mudan�a do cigarro para o cachimbo, charuto ou cigarrilha n�o resulte na correspondente redu��o do risco.

Se o quadro que mostra a rela��o entre as doen�as card�acas e o tabagismo est� sobrecarregado de pinceladas de tons cinzentos, o painel que p�e em evid�ncia a estreita liga��o entre consumo de cigarros e trombose cerebral ou doen�a vascular perif�rica, est� totalmente pintado com tinta negra, como que representando o cart�o de visita de uma ag�ncia funer�ria. De facto temos que considerar que h� uma associa��o ainda mais estreita entre o fumo e o quadro de entorpecimento, debilidade e rigidez dolorosa das pernas, que surge depois de algum tempo de marcha, e que desaparece com o repouso, a que se d� o nome de claudica��o intermitente.

Ficamos ent�o com a ideia de que o perigo do tabagismo � maior para a doen�a vascular perif�rica, seguido de morte s�bita e enfarte do mioc�rdio, principalmente em homens jovens que fumam muito.

A um meu amigo, jovem m�dico, perfeitamente conhecedor destas verdades e que, inconscientemente, continuava durante o almo�o a conspurcar o meu bife com o fumo do seu cigarro, dediquei um dia esta quadra:

 

A n�o ser que Deus te valha                                                    

Se n�o deixares de fumar,

Tens no cigarro a mortalha,

Em que ir�s a enterrar.

 

Os principais constituintes do fumo do tabaco, que se pensa afectarem o cora��o, s�o o mon�xido de carbono e a nicotina; o primeiro leva a n�veis de carboxihemoglobina da ordem dos l0 a 15%, reduzindo o total de oxig�nio dispon�vel para o m�sculo card�aco (mioc�rdio), e a segunda estimula a secre��o de catecolaminas, que s�o hormonas da gl�ndula supra-renal, aumentando assim o trabalho do cora��o. Tanto um como outro aceleram a aterosclerose.

Ilustração de Jorge R. SilvaFumar 20 cigarros por dia duplica aproximadamente o risco de ter um ataque do cora��o, e quando o fumador temo colesterol ou a tens�o arterial elevados, o risco � consideravelmente aumentado.

A maioria dos adolescentes que come�am a fumar v�m a tornar-se adultos fumadores e a depend�ncia � t�o grande que apenas 15% dos fumadores param antes dos 60 anos de idade.

Parece ser muito mais f�cil n�o come�ar a fumar do que parar de o fazer. Aconselhe os seus filhos a n�o experimentar... Se n�o conseguir, fa�a com que deixem de fumar atempadamente, pois parece que se verifica uma redu��o do risco de ocorr�ncia de enfarte do mioc�rdio ou de morte por doen�a coron�ria, nos que param de fumar. Mesmo nos homens de meia-idade, que durante muitos anos foram grandes fumadores, parece reduzir-se o risco de um acidente coron�rio, quando deixam de fumar. Perante estas negras hip�teses, decida-se! Deite fora o �ltimo ma�o de cigarros que comprou... Assim fazendo, liberta-se da tosse e de infec��es pulmonares, e pode melhorar da sua angina de peito e, se tem claudica��o intermitente, ter� menos probabilidades de vir a precisar de uma amputa��o.

N�o resisto a introduzir uma jocosa forma de publicidade anti-tabaco que vi afixada na parede dum apagado Caf� algures para os lados de Lamego: "Fumador - A fuma�a do seu cigarro � o res�duo do seu prazer. Por�m, ela polui o ar, o meu cabelo, a minha roupa e os meus pulm�es. Tudo isto sem o meu consentimento. Acontece que eu tamb�m tenho um prazer: gosto de tomar umas cervejinhas. O res�duo do meu prazer � a urina. Voc� ficaria aborrecido se eu fizesse xixi na sua cabe�a?"

Como m�dico, aconselho-o. Como amigo, lamento que por vezes seja alvo duma certa marginaliza��o, tanto mais ac�rrima quanto liderada pelos fumadores regenerados. � que a estes � mais doloroso ser fumador passivo e nem o art.� 2� do Dec. Lei N.� 226/83, que n�o permite fumar em determinados locais, os protege!

 

Para si que � fumador, e continua a ler o jornal de cigarro na m�o, lembro-lhe uma vez mais:

 

- Os fumadores morrem duas vezes mais do que os n�o fumadores, antes dos 65 anos.

- O tabagismo � a causa conhecida mais importante de cancro das vias respirat�rias.

- � factor de risco "major" de doen�a coron�ria, acidente vascular cerebral, doen�a vascular perif�rica e aneurismas, particularmente em popula��o com valores m�dios de colesterol total elevados.

Pffff...!

- Se ficou "ligeiramente" assustado, reveja alguns conselhos:

- Chame a si toda a for�a de vontade de que � capaz e suspenda o consumo de cigarros.

- Se n�o � capaz de deixar totalmente de fumar, n�o inale o fumo e fume s� cigarros com filtro e menos de 5 por dia.

- Um tranquilizante pode ajud�-lo durante o per�odo de desabitua��o.

- Tente um medicamento anti-tabaco.

 

� evidente que n�o � f�cil erradicar um h�bito t�o aceite e arreigado na sociedade de hoje. No entanto algumas normas devem come�ar ou continuar a ser postas em pr�tica, porque delas poder�o depender a sa�de e a sobreviv�ncia dos incautos que arrastam, constantemente, uma nuvenzinha de fumo atr�s de si. Poder�o ser:

- Aumentos progressivos dos impostos sobre o tabaco.

- Supress�o da publicidade da ind�stria do tabaco.

- Apoio a programas p�blicos de educa��o para a sa�de.

- Proibi��o rigorosa de fumar em Hospitais, Escolas, Casas de Espect�culos, Restaurantes.

- Encorajar actividades alternativas para a ind�stria do tabaco.

- Retirar subs�dios para a produ��o do tabaco nos pa�ses produtores.

- Influenciar a cria��o de uma pol�tica activa contra o tabaco a n�vel nacional.

- Informar sistematicamente o p�blico, atrav�s dos meios de comunica��o social, dos perigos do tabagismo, para a sa�de, dando aos fumadores um plano bem definido para conseguir parar por completo e um apoio continuado durante o per�odo de desabitua��o.

- Avisar particularmente as crian�as filhas de pais que j� tiveram um acidente card�aco.

- Lembrar, antes de tudo, que n�o fumar � que deve ser encarado como um comportamento normal e n�o o contr�rio.

 

 

O que acabamos de referir n�o ser� suficiente para dizer n�o... ao tabagismo?

 

Se n�o �s n�o queiras ser,

Nem por exibicionismo,

Se n�o queres adoecer,

Diz que n�o, ao tabagismo!

 

Se ainda andas por c�,

E tens gosto de viver,

Se �s fumador, p�ra j�,

Se n�o �s, n�o queiras ser.

 

Protege o teu cora��o,

E deixa-te de lirismo,

N�o te armes em fum�o,

Nem por exibicionismo.

 

N�o vais dar parte de fraco,

Se n�o te agrada morrer;

Deixa o fumo do tabaco,

Se n�o queres adoecer.

 

Se os teus pulm�es se consomem,

Deixa l� o masoquismo;

Mostra que �s mulher ou homem,

Diz que n�o, ao tabagismo!

 

 

 

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