Na realidade, e
em rela��o � afirma��o do vespertino, continuamos a acreditar cada vez mais que a
aterosclerose �, de facto, uma doen�a da civiliza��o, na medida em que os m�ltiplos factores que a condicionam s�o os dividendos
colhidos duma presum�vel melhoria de vida, o p�o nosso de cada dia da civiliza��o
industrial do Ocidente.
Para dizermos se �
envelhecimento ou doen�a teremos que ter em conta o nome com que a baptizamos: se lhe
chamamos arterio ou aterosclerose, que diferem quanto � dureza do vaso doente ou da sua
infiltra��o em gorduras, estamos em presen�a de doen�a indiscut�vel, mas se a
apelidamos de fisiosclerose, ent�o podemos dizer tratar-se de envelhecimento natural dos
vasos, como que o tributo que, mais tarde ou mais cedo, teremos que pagar � idade.
Ficamos, portanto, com a
ideia de que arterio ou aterosclerose n�o s�o a velhice. Acrescentamos que n�o s�o
doen�as da velhice, mas doen�as que se adquirem antes da velhice; exactamente
doen�as que n�o deixam chegar a velho.
A aterosclerose,
que se desenvolve gradualmente por fases, na parte interior dos vasos, provocando o seu
engrossamento, depende do organismo considerado na sua totalidade, e � uma das afec��es
que maior �ndice de mortalidade causa.
Constituindo, ainda, no
momento actual, a raz�o mais frequente de morte repentina, parece existir, contudo, desde
os mais remotos tempos, a ajuizar pelos resultados do exame da m�mia de Amenhotep II e
dos estudos em m�mias eg�pcias e c�pticas de 1576 a.C..
A primeira descri��o
conhecida da aterosclerose foi, provavelmente, feita por Edward Jenner, por volta de 1772.
Referida, tamb�m, no s�c. XVIII, por Morgagni e, depois, por Virchow (1826) encontra
mais tarde, em Lobstein (1833), aquele que lhe chama pela primeira vez arteriosclerose,
para exprimir o endurecimento e espessamento da parede vascular, percept�vel ao tacto e
� vista, qualidade f�sica ainda hoje reconhecida como caracter�stica da doen�a. Mais
tarde Marchand (1904), para real�ar um determinado aspecto macrosc�pico da
arteriosclerose, o ateroma-neologismo que quer dizer tumor (orna) mole (atero) -,
introduz o termo aterosclerose (do grego "athere", que significa papa ou
coisa mole).
N�o h� d�vida de que,
podendo ser apelidada de doen�a c�rebro-reno-cardio-vascular, dados os m�ltiplos
�rg�os nobres que pode mutilar, �, indiscutivelmente, sobre o cora��o, que a
aterosclerose mais frequentemente actua, levando � doen�a coron�ria.
Sobre as coron�rias,
art�rias que fornecem sangue �s paredes musculares do cora��o, a aterosclerose provoca
gradual obstru��o, que arrasta a um menor fornecimento de sangue ao m�sculo card�aco,
que fica em situa��o de car�ncia de oxig�nio, levando � doen�a isqu�mica do
cora��o, em qualquer dos seus aspectos cl�nicos: angina de peito, enfarte do mioc�rdio
e, em situa��es lentamente estabelecidas, insufici�ncia card�aca congestiva.
E � exactamente esta
gradual obstru��o dos vasos que confere � aterosclerose a sua maior gravidade, o lugar
de flagelo universal. Doen�a do "iceberg", exibindo rid�culas manifesta��es
cl�nicas quando comparadas com a extens�o das les�es j� existentes na obscuridade, a
aterosclerose vai, insidiosa e inexoravelmente, minando e obstruindo os vasos, durante
d�cadas e sem qualquer sintomatologia, merc� da ac��o dos in�meros factores de risco,
para depois, repentinamente, quando menos se espera, mostrar, em toda a sua plenitude, o
horizonte cl�nico do acidente vascular cerebral, enfarte do mioc�rdio ou renal,
aneurisma, gangrena ou claudica��o das extremidades, levando a curto ou m�dio prazo �
morte ou incapacidade precoces, que tanto pesam na taxa obitu�ria e econ�mica dos povos.
Dada a grande incid�ncia
da doen�a coron�ria, de base ateroscler�tica, nos pa�ses industrializados e a
gravidade das suas repercuss�es, esta torna-se um magno problema de Sa�de P�blica, com
cientistas e governantes interessados em identificar e tratar situa��es predisponentes
ou facilitantes da doen�a isqu�mica do cora��o - diabetes, obesidade, stress,
sedentarismo, alcoolismo, hereditariedade, menopausa, tabagismo, hipertens�o ou aumento
do colesterol - numa tentativa de fazer a preven��o vascular. E nisto da
aterosclerose, vale mais prevenir...
Como de poeta e louco todos temos um
pouco, vejamos o que sobre o assunto o m�dico tamb�m pode dizer sob a forma de mensagem
po�tica:

Flagelo Universal
Mortal
Doen�a do "iceberg"
Que � frente de todos ergue
Uma barreira de luto
Em cada minuto
Hora a hora, dia a dia
Mina, insidiosamente
E inexoravelmente
Sem sintomatologia
Os vasos de toda a gente
Para depois, de repente
Da noite para o dia
Mostrar o seu horizonte
Ponte
Entre a vida e a morte
Onde a pessoa sem norte
Num minuto, dia ou ano
Se torna um farrapo humano.
Uma tal complica��o
(Est� escrito em qualquer arquivo)
Vem da prolifera��o
Do tecido conectivo
Que � rico em colag�nio.
N�o � preciso ser g�nio
Para saber que o m�sculo liso
� preciso
Para tal prolifera��o.
Se a estria gorda � culpada
Desta emaranhada
� ainda uma nebulosa
Pois, segundo teoria
Que poderia ser correcta,
A progenitora directa
E a gota gelatinosa.
Mas na base do processo
Est� um trio travesso:
O endot�lio vascular
O macr�fago e a lipoprote�na
Que acabam por nos matar
Ou nos levar � ru�na.
E qual a atitude gravosa
Da placa fibrosa
Com a c�lula espumosa
E os linf�citos T
Levando ao ateroma
Que nos pode p�r em coma?
Mas para qu�
Valorizar tudo isto
Quando entram em cena
Com pujan�a plena
Os factores de risco?
Se o colesterol � um pap�o
E tamb�m a hipertens�o
Se o tabaco � tem�vel
A diabetes terr�vel
Bem como a obesidade
E a hereditariedade...
Se o �lcool � um cataclismo
Tal como o sedentarismo
E tamb�m a menopausa...
Se todos podem ser causa
Vamos fazer uma pausa
Se n�o a gente estremece
E padece
Por se agravar o stress!
Mas qual deles � afinal
O flagelo universal
Que � a todo o momento
M�e de luto e sofrimento?
Respons�vel pela trombose
Que t�o trai�oeiramente
Espera por toda a gente
S� a Aterosclerose!