Emilio Enrique Dellasoppa /UERJ
Disciplina,
práticas classificatórias e normalização
|
Produz-se verdade, mas essa produção
de verdade não poderá ser dissociada do poder
e dos mecanismos de poder, porque este a induz e/ou produz.
Poder e saber estão conectados por relações
contextuais e específicas. “...esses elementos
pertencem a um sistema de poder, no qual o discurso não
é senão um componente religado a outros componentes.
Elementos de um conjunto. A análise consiste em descrever
relações recíprocas entre todos esses
elementos. Fica mais claro assim?” (Foucault, 2003:254).
No Anexo I, apresentamos o quadro “Dispositivo
estratégico de relações de poder”,
onde podem ser observados os diferentes lugares de produção
dos discursos que espalham os pressupostos hegemônicos
pelo conjunto de dispositivos estratégicos locais.
Cada desenvolvimento do saber potencia novas formas do poder
e viceversa. O mais interessante é que, em um primeiro
momento, como aconteceu no caso da Adchss, o novo sistema
“saber/verdade” poderá existir e afirmar-se
a revelia de qualquer referente empírico para seus
conceitos.
O poder para Foucault não está localizado em
macro-estruturas, mas difuso no sistema social, oculto perante
meios discretos e sutis, e manifestando-se nos níveis
micro, em inúmeras formas locais. Existe apenas como
relação, como relação de poder.
O poder foucaltiano é produtivo: conforma subjetividades
particulares, e regula e conforma campos do possível
pela ação e o saber. O poder é assim
diferente da força, que é puramente repressiva
e sufoca até a morte as autonomias individuais. Na
“indicação do movimento”, temos
uma complexa mistura de poder e força. Enquanto força,
é uma situação de absoluta naturalidade
na aceitação dos destinatários da indicação.
Eles serão sufocados “até a morte”.
Enquanto poder, implica a possibilidade da resistência.
O poder foucaultiano, esse poder que “vem de baixo”
lembra a coação weberiana no seu momento de
legitimação: o consenso dos dominados.
Ocidente conta uma fábula para mascarar seu apetite
gigantesco de poder através do saber. (Foucault, 2003:58).
O “projeto ético-político” (PEPO)
da Adchss seria uma versão local disto. Mas, contrariamente
ao apresentado pela Adchss, não devemos considerar
o PEPO como ponto de partida: ele é o ponto de chegada,
resultado da articulação dos discursos hegemônicos
nos dispositivos estratégicos. Ele é a justificativa
para que as subjetividades que constrói localmente
cheguem até o ponto de não se dar ao trabalho
de criar o saber: o inventam. E quando não podem inventá-lo,
o declaram inválido por conservador ou funcionalista
ou fenomenologista ou feminista, ou inexistente simplesmente
porque ignoram sua existência (acreditam que podem “declarar”
inexistente até um saber que pertence ao seu próprio
campo mas que não conhecem - a criminologia crítica
de orientação marxista, por exemplo -, e que
isto será parte do esquema de normalização,
e ainda, aceito com naturalidade). Isto mostra outro momento
em que o poder se sente absoluto ao falar para a plebe e pela
plebe, no contexto muitas vezes de uma socialização
antecipatória.
|