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XX + I  teses sobre a auto-denominada “corrente hegemônica” no Serviço Social

 

Emilio E. Dellasoppa

Professor Adjunto, Faculdade de Serviço Social, UERJ.

Rio de Janeiro, Junho 2002

 

 

1.      O “fundamento epistemológico” da corrente está baseado numa falácia banal.

 

“Que significa mais precisamente ‘ponto de vista do proletariado’? Não se trata necessariamente do estado de espírito empiricamente verificável no seio da massa de trabalhadores em um momento determinado. Como, portanto, identificá-lo? Entre as diferentes correntes políticas, teóricas e científicas que o reivindicam, qual seria a expressão mais autêntica do ponto de vista da classe? Evidentemente, a resposta a estas questões contém uma dimensão inevitável de subjetividade.”  (Michael Löwy: As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. Editora Busca Vida, São Paulo, 1987, 3a. Ed., pp. 201-202) (Itálicas EED)

 

“Estes dois conjuntos de proposições são demonstráveis cientificamente? Advém de análise empírica de fatos? Sim e não. Sim, na medida em que se pode, até certo ponto, deduzi-los da condição objetiva do proletariado na sociedade capitalista e da experiência histórica de suas lutas revolucionárias. Não, na medida em que eles são aceitáveis apenas para os que já optaram, para os que tomaram posição em favor do proletariado e de seu ponto de vista. Em outros termos, eles contêm um núcleo irredutível de , ou, mais precisamente, de aposta histórica sobre o papel emancipador do proletariado, sobre sua vocação universal e redentora(id., id.) ( Itálica do autor, EED)

 

Faça um pequeno exercício. Tente acompanhar o raciocínio no texto. Observe a subjetividade da proposta. Observe a “aposta”. Pense: de que proletariado estão falando? Quem vai escolher o ponto de vista “certo” de algum proletariado?

 

2.      A escolha do “ponto de vista do proletariado” é uma escolha subjetiva. Depende tanto do “proletariado” que seja escolhido como da “vanguarda iluminada” que faça a escolha. É uma “aposta especulativa” e sua metodologia e seu valor são equivalentes ao de uma compra de ações na bolsa de valores.

 

3.      Não há, portanto, qualquer possibilidade de construção de uma “verdade objetiva”. A posição subjetiva da corrente não tem qualquer “prioridade ou superioridade epistemologica”. É mais uma entre muitas. E pior ainda, acaba sendo declarada “uma questão de fé”.

 

4.      Uma posição teórica vale pelos seus fundamentos e pela coerência da sua lógica. A proposta da corrente fracassa totalmente nos dois casos.

 

5.      A versão da “teoria social de Marx” proposta pela corrente descamba num funcionalismo elementar, próprio da leitura da pequena burguesia acadêmica.

 

6.      A corrente omite qualquer auto-reflexão em termos de classe. Se o proletariado em Marx constitui sua identidade exclusivamente a partir da esfera econômica, como se constitui a identidade dos integrantes da corrente? Além de constituir-se a partir do sempre difícil de definir conceito de pequena burguesia acadêmica, como aparecem outras possibilidades de constituição da identidade, como gênero, geração, etnia, escolha sexual, etc.? Quem são estes “representantes do ponto de vista do proletariado” e que representação de que proletariado eles podem apresentar?

7.      Apenas a pequena burguesia pode se colocar como tarefa a “integração teórica” entre dois representantes de uma das inúmeras formas de trotskismo (Michel Löwy e Ernest Mandel) com um conciliador com o stalinismo (György Lukács). Elas poderão ser conciliadas no “limbo” de uma teoria que já não tem mais nada a ver com a prática...

8.      Esse tipo de “síntese teórica” está baseado em uma outra  aposta especulativa: o desconhecimento histórico-político dos alunos e profissionais aos que está destinada a “síntese”. Muitos dos alunos aos que se destina esta “produção teórica” carecem da formação histórica e política necessária como para avaliar o “curriculum vitae” dos fundadores da corrente e seus epígonos. Também não faz muito sentido para eles uma discussão dentro de um marxismo que eles quase não experimentaram como realidade concreta. Passaram-se treze anos da queda do muro. Parece um século....

9.      A proposta da corrente não consegue sair do século XIX. Desconhece os resultados que levam às ciências a desistir das construções teóricas totalizadoras e à filosofia da possibilidade do sistema. Estes resultados aconteceram no início do século passado (XX), mas a corrente ainda não chegou lá. A insistência da corrente na necessidade de “focalizar as questões a partir da totalidade do ser social” é uma típica proposta do século XIX

10.  O conceito de “capitalismo tardio” utilizado por alguns representantes da corrente carece de qualquer fundamento. Poderia apenas figurar num tratado de Astrologia Esotérica. Novamente voltamos ao século XIX. No século XX, e muito menos no XXI, não existe a possibilidade da “conhecer cientificamente” a evolução futura de um sistema da complexidade do capitalismo. Ninguém pode afirmar, sequer aproximadamente, quanto mais o capitalismo vai durar. Trata-se apenas de mais uma expressão do voluntarismo político do trotskismo, agora misturado com uma pitada de vanguardismo herdado do stalinismo.

11.  As raízes políticas dos fundadores da corrente e seus epígonos estão firmemente fincadas nos conceitos stalinistas. Esta discussão será apagada de qualquer forum público. A concepção do papel da violência stalinista é paradigmática. Pergunta: se essa violência foi assim revolucionária, como sustentam alguns textos da corrente: como é possível que não tenha sobrado NADA em termos teóricos dessa experiência que a justifique? Onde está a literatura “teórica” que os representantes da corrente e seus epígonos sustentavam trinta anos atrás???

12.  A “teoria do limbo”, segundo a qual o acontecido na história com o desabamento dos “socialismos realmente existentes” não influencia em nada a validade teórica dos pressupostos contidos na “teoria social de Marx, e seus melhores intérpretes” (Lukács, Mandel, etc.) apenas pode ser interpretada como uma proposta da pequena burguesia acadêmica, mais uma vez fugindo da realidade e do debate.

13.  As práticas políticas da corrente incorporam o patrimonialismo secular da política brasileira como elemento necessário de uma política “da vanguarda iluminada”. Trata-se de um “patrimonialismo pobre”, numa releitura da pequena burguesia acadêmica.

14.  A “democracia” da corrente se reduz aos espaços que pode controlar. Qualquer discussão veiculada num “espaço aberto” como a internet será considerada perigosa pela corrente por estar aberta aos “desavisados”. Os representantes da corrente fogem como o diabo da cruz de qualquer debate que não possam controlar !

15.  A endogamia da corrente é um elemento fundamental na sua “construção social da verdade” pelo controle dos espaços acadêmicos e corporativos. Implementa-se uma inter-penetração e uma aliança entre duas pequenas burguesias: a corporativa, atuando no espaço do controle da profissão, e a acadêmica, atuando no controle dos espaços acadêmicos.

16.  A “verdade objetiva” socialmente construída pela corrente utilizando-se  do controle dos espaços corporativos e acadêmicos vai durar tanto quanto dure esse controle. Da mesma forma que aconteceu com a queda das burocracias dos países do bloco socialista, a “verdade objetiva” da corrente vai se desmanchar no ar no dia seguinte que percam o controle. Uma “auditoria externa” da validade dessa “produção teórica” será arrasadora, portanto, é uma questão de vida ou morte para a corrente manter-se no controle das estruturas corporativas e acadêmicas. O “esquema” apenas funciona com os “cartolas” no poder.

17.  Além da auto complacência e do auto elogio nas produções acadêmicas, se instaura uma “ética do silêncio”. O custo que têm que enfrentar os que discordam é muito alto, tanto para os professores como – muito mais alto – para os alunos. Se estabelece uma típica situação de voz/saída/lealdade  (Albert Hirschman) absolutamente perversa que perpetua o silêncio.

18.  A “produção teórica” é avaliada endogamicamente, caso típico das estruturas de “construção social da verdade” + controle político excludente. Qualquer questionamento será fortemente desalentado, forzado a ser apresentado “internamente” ao “coletivo” e finalmente julgado “pouco ético” caso seja tornado público. E quem o realizar enfrentará altos custos .

19.  Se a “produção teórica” de muitos representantes da corrente for avaliada desde uma perspectiva externa, será verificada sua fundamentação em conceitos do século XIX assim como erros teóricos que decorrem naturalmente desta posição subjetiva e voluntarista.

20.  A “crise de materialidade” do serviço social, ou seja, a perda crescente de espaços de emprego para outras profissões fundamentalmente no âmbito da empresa privada, também está relacionada com o descompasso de um curriculum da carreira que teima em permanecer no século XIX, desconhecendo as mudanças experimentadas pelo capitalismo.

21.  ???? Tese aposta: tente adivinhar!

 

A corrente hegemônica parece pensar que silenciar um debate basta para que o debate termine ( simplesmente apagá-lo, como os velhos stalinistas faziam com os dissidentes nas fotografias, é uma pratica que afortunadamente para todos nós não está mais disponível). Mais uma vez, trata-se de uma prática típica do corporativismo da pequena burguesia acadêmica, copiado pobremente das práticas políticas habituais no Brasil.  O debate continua, apesar do esperado silêncio absoluto da corrente.

 


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