Algumas considerações
sobre o estilo e o stalinismo
Emilio E. Dellasoppa
Professor Adjunto
Faculdade de Serviço Social – UERJ
Estas breves notas se
originam en um email da nossa colega Elaine Behring, no qual manifestava
que o Professor Netto teria se afastado do stalinismo. Na verdade,
considero que as concepções políticas e ideológicas que estou criticando
revelam a profunda continuidade com um pensamento que pouco ou nada
mudou, e que demonstra sua profunda esterilidade no fato de jamais ter
produzido aporte teórico algum, tendo, no final da sua vida útil, por
uma ironia do destino, que recorrer sistematicamente aos aportes do
trotskysmo!
Como a colega Elaine criticava também meu estilo, estou incluindo
alguns trechos tirados diretamente do Professor Netto, para mostrar
que fui, tal vez, apenas comedido nas minhas considerações.
“Na verdade,
portanto, o que então se realizou foi o estabelecimento da infra-estrutura
necessária para a transição socialista. Aí
reside o papel historicamente progressista da autocracia stalinista:
ela efetivou a criação das condições materiais
indispensáveis para a edificação de uma sociedade
de novo tipo....O que deve ser debitado ao grupo dirigente capitaneado
por Stalin, pois, não é esta violência historicamente
necessária. O que deve ser posto na sua conta é a transformação
dessas coações requeridas transitoriamente em normas
constantes de direção política....Ultrapassado
o atraso russo, a autocracia estabelecida em nome do socialismo tornou-se
progressivamente superada quando ela mesma criou as condições
indispensáveis para a transição socialista....
Ultrapassado o atraso russo, a autocracia stalinista converteu-se num
trambolho histórico. Vencida a barbárie russa, os métodos
bárbaros tornaram-se cada vez menos eficientes. Eis o que explica
o colapso da autocracia stalinista: uma Rússia moderna, industrializada,
com uma classe operária forte e instruída, já não
tolera métodos político-sociais de violência aberta
e grosseira” (José Paulo Netto, O que é Stalinismo.
Ed. Brasiliense. 3ª Ed. 1984 (1981) Pág. 85)
Que opinião
pode nos merecer isto?
Em primeiro lugar,
deveríamos dizer que o Professor José Paulo Netto não
faz honra aos seus indiscutíveis conhecimentos sobre o tema.
Seguramente seu objetivo didático divulgador e a certeza de estar
lidando com um público pouco afeito à reflexão
filosófica...levaram-no a pronunciar uma alocução
simplória. Este procedimento (que freqüentemente o especialista
adota em situações desse gênero, quando a intenção
básica é publicizar um determinado pensamento), porém,
adquire um viés gravemente deformador quando o professor tece
as suas considerações sobre “A natureza do fenômeno
stalinista”: aí, em formulações insustentáveis,
o que se oferece é uma caricatura do método dialético
na tradição marxista. Ainda poderíamos dizer que
se é triste ver Netto dizendo chãs banalidades sobre o
stalinismo, se é simplesmente cômica sua intervenção
que garante ter sido a tarefa do stalinismo instaurar as condições
para a transição ao socialismo, é no mínimo
preocupante ler, no email da colega, que o “ o Professor rompeu
há muito tempo com o stalinismo.”
Problemas com o
estilo? Bom, nesse caso vale a pena lembrar que o estilo do parágrafo
é uma transliteração que está literalmente
tomada – palavra por palavra, quase! - do livro “Ditadura
e Serviço Social”, págs. 199 e 200, onde o Professor
Netto fala da Professora Creusa Capalbo, do Leandro Konder (“o
velho contra-almirante”?) e do Martins de Souza...
Mas, uma vez avalizados
no estilo, vamos ao que interessa: as concepções que supostamente
“rompem com o stalinismo” do Professor Netto:
1. Não sabia
que existia alguém na terra em condições de julgar
quando estão estabelecidas as condições de infra-estrutura
necessárias para a transição socialista. Acredito
que esta audaciosa colocação deva-se ao desconhecimento
por parte do Professor Netto das condições reais da industrialização
soviética. Fosse esse o caso, muitos países capitalistas
já teriam as condições de infra-estrutura necessárias
para a transição. Mas, nem no ocidente nem no oriente
o problema da transição pode sequer ser pensado nesses
termos absolutamente unilaterais: a política e a história
sempre falam mais alto...como a história cansou de nos ensinar...(ou
Gramsci, tal vez?...)
2. A afirmação explicita claramente o conceito de formação
social do Professor Netto. Deveriamos lembrar aqui que em toda formação
social coexistem formas de diferentes modos de produção,
pasados, presentes e futuros...mas é na formação
social onde acontecem as lutas de classes e ....a história! Conclusão:
as afirmações do Professor são um acabado exemplo
do reducionismo economicista. Repetindo suas próprias palavras:
“... o que se oferece é uma caricatura do método
dialético na tradição marxista.”
3. Insistindo para que fique bem claro: produto do seu sistemático
descolamento entre teoria e história, o Professor Netto esquece
que a tarefa histórica da transição ao socialismo
é uma tarefa social, e fundamentalmente, política, que
está condicionada obviamente pela situação concreta
de uma sociedade como uma totalidade, é não é o
desenvolvimento de uma infra-estrutura que resolverá o problema
político para uma sociedade sobre a transição ao
socialismo. Este ponto parece tão evidente que qualquer abordagem
elementar do marxismo poderá perceber que se trata de um reducionismo
sistemático produto da concepção teórico-metodológica
que estamos criticando.
4. Acredito ser um tanto apressada, em função dos ensinamentos
da história, creditar como se faz acima tamanho papel progressista
ao stalinismo. A destruição social que o stalinismo levou
a cabo deixou contas que ainda hoje a sociedade russa está pagando...
5. “....uma Rússia moderna, industrializada, com uma classe
operária forte e instruída, já não tolera
métodos político-sociais de violência aberta e grosseira...”
Quando lemos estas colocações, apenas podemos pensar que
trata-se de mais uma evidente negação da realidade, típica
do neo-stalinismo do Professor. Já nos anos 60 sabia-se que a
Rússia estava industrializada, mas sua industrialização
sempre foi limitada e fortemente condicionada pelos desenvolvimentos
militares, caracterizada por uma marcante irracionalidade global. Baste
lembrar de Chernobyl, dos projetos de irrigação na agricultura
que conseguiram secar 60% do Mar Aral (!) e transformar a região
num deserto contaminado por agrotóxicos o dos artigos de consumo
produzidos na ex União Soviética. Todo isto fala de um
regime e de uma concepção política que se prolonga
muito além da morte do Stalin, e certamente não de uma
pretensa “construção de bases materiais para a transição
socialista”.
6. A classe operária “forte e instruída” sabemos
que não teve nenhuma participação nem nos intentos
de reforma nem no desabamento do regime soviético: todos estes
processos foram produtos de uma ação política “de
cima para baixo”. Em todo caso, o que poderia ser creditado à
classe operária soviética é a sua indiferença
e seu papel de espectadora (aliás, como quase a totalidade da
sociedade soviética...) o que não deveria ser uma surpresa,
já que, também desde o anos 70, conhecemos a piada russa:
“eles fingem que nos pagam e nós fingimos que trabalhamos”.
Origem da piada: militantes do PC argentino que visitaram a Rússia.
Quando colocavam para a direção stalinista do PC argentino
as contradições e deformações que existiam
na ex-União Soviética a resposta padrão que obtinham
era: “Sabemos disso, mas na política às vezes é
necessário mentir.” Sabemos que na vida e na política
às vezes é necessário mentir, mas sabemos também
que devemos estar preparados para enfrentar as conseqüências,
porque, geralmente, a história não perdoa....
7. A eliminação física dos kulaks e o Gulag. “O
que deve ser debitado ao grupo dirigente capitaneado por Stalin, pois,
não é esta violência historicamente necessária.”
Afirma o Professor Netto. Espantoso, não é? O que está
aqui afirmado está na linha do Merleau-Ponty de Humanismo e Terror.
O do Partido Comunista Argentino, que seguindo “os interesses
históricos do campo socialista conduzido pela URSS” negociou
abafar as críticas à ditadura militar assassina de Videla
e Cia. em troca das vendas de cereais a ex-URSS, descobrindo que “existiam
contradições dentro do campo militar”. Sabemos muito
bem hoje quais eram essas contradições: enterrar depois
de queimados os desaparecidos como fazia o Exército de Videla
ou os “vôos da morte” da Marinha. Mas a história
não perdoa, e hoje os “stalinistas de direita” argentinos
não apenas não existem mais politicamente como não
podem nem aparecer em público. Lembro aqui de uma colocação
do Chico de Oliveira num seminário no mestrado: algo assim como
“...até que a esquerda não consiga incorporar estes
temas ( o Gulag) na sua autocrítica não será possível
avançar...”. Concordo. Não é a ignorância
dos eventos históricos que paralisa a abordagem: é a própria
concepção política, que continua negando a realidade,
manifestando-se autoritária e refugiando-se em supostas verdades
obtidas pela auto-proclamada vanguarda desde um fantástico “mirante
privilegiado”....que carece de qualquer base epistemológica
séria.