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Um fundamento epistemol�gico baseado numa fal�cia das mais banais

 

 Emilio E. Dellasoppa

Professor Adjunto, Faculdade de Servi�o Social � UERJ

Rio de Janeiro, Julho de 2001

 

Resumo

 Como coloquei  na reuni�o do Departamento de Pol�tica Social, estou dando prosseguimento �s minhas considera��es acad�mico-pol�ticas, na forma de algumas hip�teses que irei analisando sucessivamente, na esperan�a de estimular um pequeno debate com meus colegas. Nesta primeira ocasi�o, apresento � considera��o de Vs. algumas reflex�es sobre o que considero um ponto interessante de ser discutido: a sustenta��o num conjunto de fal�cias sustentadas pela �corrente hegem�nica� da chamada �dire��o social� da orienta��o acad�mico-pol�tica da FSS, o que pela sua vez se traduz no mais raso �positivismo ideol�gico�, t�pico das concep��es pequeno-burguesas do marxismo perif�rico.[1]

Para fundamentar estas coloca��es vou partir da an�lise em conjunto de dois textos, que  me parecem, a partir do meu conv�vio com o universo intelectual de meus colegas, bastante representativos deste tipo de pensamento.

 

 

 

�Agora, com uma seriedade e severidade inusitadas, a teoria � hist�ria; e, tamb�m, de uma forma tradicionalmente evitada antes, a hist�ria � teoria, com todas suas exig�ncias�. P. Anderson. Tras las huellas del Materialismo Hist�rico. Siglo XXI Editores. Madrid. 1986 (1983). P. 27. ( Tradu��o EED)

 

"It is almost as important to know what is not serious as to know what is."

John Kenneth Galbraith (1908 - )

 

 

 

Uma quest�o de estilo?

 

Inicialmente, um coment�rio sobre o estilo em que foi apresentada  a primeira vers�o, estilo que � basicamente mantido nesta, com a retirada de alguns coment�rios que davam um certo �color local� e nada substancial acrescentavam. Ainda, seriam incompreens�veis para muitos leitores. Diversas considera��es  foram tecidas sobre o que seria uma  apresenta��o demasiadamente dura, que colocaria  incongru�ncias metodol�gicas brutalmente expostas. Contrariamente ao que poderia ser pensado, apareceu nas discuss�es que este � um estilo firmemente enraizado nas tradi��es de debate pol�tico no campo do Servi�o Social, como a seguinte cita��o (agrade�o a GF sua sugest�o!) exemplifica cabalmente:

 

�� desnecess�rio dizer que um fio extremamente pol�mico atravessa estes dois ensaios. No primeiro, onde a gravita��o das dimens�es ideopol�ticas possui flagrante pondera��o, afirmo um �ngulo anal�tico alternativo � aprecia��o �esquerdista� (acad�mica ou n�o) e � avalia��o liberal da ditadura, bem como de suas pol�ticas educacional e cultural. No segundo, a pol�mica � direcionada para o debate profissional � e a minha falta de �diplomacia� seguramente desagradar� a gregos e troianos, inclusive a companheiros com quem, ao longo de tempos turbulentos e tempos �speros, travei lutas comuns e me vinculei solid�ria e afetuosamente. Neste ponto, s� cabe fazer notar que se critica apenas o que se respeita e que o confronto aberto de id�ias e posi��es � elemento constitutivo da rela��o intelectual fraterna, que n�o tem por alicerce omiss�es gentis. E ainda: n�o se faz pol�mica te�rico-cr�tica com salto alto e luvas de pelica � especialmente num territ�rio como o do Servi�o Social, onde predomina uma exasperante aus�ncia de n�tidas contraposi��es.� (Jos� Paulo Netto. Ditadura e Servi�o Social: Apresenta��o. P�g. 10. S�o Paulo, Cortez Editora, 1991.) (It�licas de J.P.Netto)

 

�Seres objetivos s�o simplesmente aqueles nos quais as pressuposi��es est�o mais profundamente enraizadas�

 

O que pretendo mostrar � que, com a simples aplica��o da l�gica aos textos que se indicam a seguir, se colocam em evid�ncia suas contradi��es internas � l�gicas, insan�veis � que finalmente mostram que eles mesmos se constituem em exemplos das deforma��es das ci�ncias burguesas que acreditam combater.  Ou seja, como veremos no final, o texto de M. L�wy  est� t�o atolado quanto os outros na lama que prende ao Bar�o de M�nchhausen, por mais que tente disfar�ar o problema! M. L�wy � mais uma v�tima das limita��es que ele  acredita enxergar bem...nos outros:

 

�Liberar-se por um �esfor�o de objetividade� das pressuposi��es �ticas, sociais ou pol�ticas fundamentais de seu pr�prio pensamento � uma fa�anha que faz pensar  irresistivelmente na c�lebre hist�ria do Bar�o de M�nchhausen, ou este her�i picaresco que consegue, atrav�s de um golpe genial, escapar ao p�ntano onde ele e seu cavalo estavam sendo tragados, ao puxar a si pr�prio pelos cabelos...Os que pretendem ser sinceramente seres objetivos s�o simplesmente aqueles nos quais as pressuposi��es est�o mais profundamente enraizadas. Para se liberar destes �preconceitos� � necess�rio, antes de tudo, reconhece-los como tais; ora, a sua principal carater�stica � que eles n�o s�o considerados como tais, mas como verdades evidentes, incontest�veis, indiscut�veis. Ou melhor, em geral eles n�o s�o sequer formulados, e permanecem impl�citos, subjacentes � investiga��o cient�fica, �s vezes ocultos ao pr�prio pesquisador. Eles constituem o que a sociologia do conhecimento designa como campo comprovado como evidente, um conjunto de convic��es, atitudes ou id�ias ( do pesquisador e de seu grupo de refer�ncia) que escapa � d�vida, � dist�ncia cr�tica ou ao questionamento� ( Michael L�wy: As aventuras de Karl Marx contra o Bar�o de M�nchhausen. Editora Busca Vida, S�o Paulo, 1987, 3a. Ed., pp. 31-32)

 

Mas M. L�wy est� firmemente sustentado nas suas posi��es por Jos� Paulo Netto. Certamente analisar os dois textos em conjunto � uma experi�ncia muito interessante. Exige-se apenas uma pr�-condi��o: conhecer um pouco de hist�ria e a hist�ria pol�tica do marxismo ocidental. Uma longa milit�ncia � um plus.  Vamos ao trabalho: comecemos analisando uma muito conhecida passagem de um dos textos mais freq�entemente citados nas refer�ncias bibliogr�ficas: 

 

�Uma teoria social que extraia do movimento do ser social na sociedade burguesa as suas determina��es concretas (isto �, que re-produza e re-construa sua ontologia) e que, portanto, n�o tenha um valor puramente instrumental, �, nestas condi��es, fun��o de dois vetores � precisamente os que propiciam a ultrapassagem da positividade e a apreens�o da racionalidade do processo social efetivo, da sua  legalidade. Em primeiro lugar, uma perspectiva de classe para a qual a dissolu��o da positividade se constitua como uma exig�ncia imanente; em segundo lugar, um projeto te�rico-metodol�gico fundado num arsenal heur�stico capaz de dar conta da processualidade espec�fica do ser social pr�prio � sociedade burguesa. Somente a conjuga��o destes vetores permite a resolu��o da positividade na an�lise concreta da sua concreta processualidade. E, nos marcos da sociedade burguesa, essa conjun��o � garantida apenas pelo ponto de vista de classe do proletariado e pelo projeto te�rico-metodol�gico cr�tico-dial�tico.� ( Aqui entra a nota de rodap� No. 145) (Jos� Paulo Netto: Capitalismo Monopolista e Servi�o Social. Cortez Editora, S�o Paulo, 1992, p. 138).

 

Vejamos o que diz a nota de rodap� 145. Textualmente:  �145. Cf. especialmente Luk�cs (1974) e Kofler (1968). A fecunda argumenta��o de L�wy (1987) desenvolve com extremo cuidado esta problem�tica, assinalando que, em determinadas condi��es, raras por�m ocorrentes, outras perspectivas de classe que n�o burguesas podem oferecer uma rica angula��o cr�tica (ele aponta, especificamente, o caso de Sismondi.� [2]

 

A funda��o cir�rgica dos passos[3]

 

Primeira quest�o. O que Netto coloca na sua nota de rodap�  N�O � o que afirma M. L�wy. A cita��o est� cir�rgicamente amputada. O que M.L�wy diz exatamente na p�gina 203 da edi��o citada por Netto � o seguinte: � No interior dos limites impostos por sua ideologia de classe,( it�lico meu, EED) Ricardo, A. Smith  ou Sismondi s�o perfeitamente capazes de produzir conhecimentos cient�ficos do maior valor� . E, j� que estamos, uma canja: M. L�wy continua imediatamente depois: �De outro lado, a proposi��o segundo a qual o ponto de vista do proletariado � o que oferece a melhor possibilidade objetiva (it�lico meu, EED) de um conhecimento da verdade n�o significa absolutamente que � suficiente se situar deste ponto de vista para obter resultados cient�ficos mais verdadeiros ou mais objetivos�.

 

Retornemos � cita��o amputada. (Esta amputa��o me lembra aquelas velhas fotografias da �poca estalinista, em que as personagens que apareciam em torno a Lenin iam sumindo na medida em que o tempo passava na ex-Uni�o Sovi�tica e o controle estalinista sobre o aparato burocr�tico se fazia mais e mais completo...) Por que ser� que o Prof. Netto ter� modificado sem avisar-nos a cita��o do M. L�wy? Tal vez um erro tipogr�fico? N�o parece uma explica��o convincente, j� que na 2a. edi��o do livro (1996) ela continua exatamente igual...

 

Acho que Netto �corrigiu� propositadamente a passagem do M. L�wy ao perceber uma fraqueza insan�vel no racioc�nio deste. Vejamos. Quando Netto admite que �outras perspectivas de classe que n�o burguesas podem oferecer uma rica angula��o cr�tica (ele aponta, especificamente, o caso de Sismondi.� ( que � um economista pequeno-burgu�s!) e �esquece� sem avisar-nos dos burgueses David Ricardo e Adam Smith o que est� fazendo � tentar fechar a porta a uma relativiza��o e indetermina��o total no racioc�nio ( que M. L�wy explicita logo a seguir, na passagem reproduzida acima).

Admitir a possibilidade de que os economistas burgueses tamb�m possam ser capazes de produzir �conhecimentos cient�ficos do maior valor�, implica que n�o apenas Ricardo e Smith est�o nessa condi��o, mas tamb�m Cournot, Quesnay, Pareto, Marshall, Schumpeter, Keynes, Robbins, Leontieff, Von Mises, Sraffa, Sen, Etzioni, Thurow, Kuttner, Ormerod, Gailbraith (que al�m  de economista parece ser uma autoridade na metodologia e �tica do trabalho intelectual) Gini, Frank, Passinetti, ....! E portanto nossos �mirantes� se multiplicam ao assustadoramente! Duas vezes, porque ainda temos o problema de que �estar no mirante do proletariado� n�o garante em absoluto que nossos produtos ser�o cient�ficos e n�o banalidades...! Portanto, ser� necess�rio um crit�rio para decidir qual o �ponto de vista do proletariado correto�, de julgar os produtos cient�ficos uns contra os outros, etc. etc. Quem ser� o juiz? Uma resposta poss�vel: a vanguarda (iluminada). Mas, como identificar a vanguarda iluminada em cada momento hist�rico? Pode-se ver que aceitar essa possibilidade nos coloca na pr�tica perante uma regress�o quase ao infinito....� mais ou menos como ficar na situa��o do final do filme Indiana Jones e a arca Perdida: tire-se a tampa da arca e os fantasmas dos economistas burgueses e seus conhecimentos cient�ficos do mais alto valor v�o nos devorar. Apenas a vanguarda esclarecida poder� sobreviver, porque sabe que 1) jamais deveria tirar-se a tampa da arca; e que 2) caso uma vez tirada por um descuido metodol�gico, o crit�rio de sobreviv�ncia � fechar os olhos para n�o ver os fantasmas.

 

Certamente, a arte de apagar os problemas antes que se apresentem � uma virtude do estalinismo, j� o utopismo messi�nico recheado de idealismo de M. L�wy  come�a a deix�-lo em maus len��is. ...Mas ainda estamos no in�cio dos problemas originados nesta pequena confronta��o das escrituras...

 

�Uma dimens�o inevit�vel de subjetividade�

 

Voltemos agora ao nosso segundo autor, Michael L�wy, j� devidamente purificado e avalizado pela ortodoxia. Acompanhemos sua argumenta��o:

 

�Que significa mais precisamente �ponto de vista do proletariado�? N�o se trata necessariamente do estado de esp�rito empiricamente verific�vel no seio da massa de trabalhadores em um momento determinado. Como, portanto, identific�-lo? Entre as diferentes correntes pol�ticas, te�ricas e cient�ficas que o reivindicam, qual seria a express�o mais aut�ntica do ponto de vista da classe? Evidentemente, a resposta a estas quest�es cont�m uma dimens�o inevit�vel de subjetividade.�  (Michael L�wy: As aventuras de Karl Marx contra o Bar�o de M�nchhausen. Editora Busca Vida, S�o Paulo, 1987, 3a. Ed., pp. 201-202) (It�licas EED)

 

E a continua��o enumera cinco tipos diferentes de problemas que est�o na origem das diverg�ncias entre �pensadores ou for�as que reivindicam o proletariado e seu ponto de vista�...etc. Como distinguir �o ponto de vista CERTO??? Novamente estamos no problema da �regress�o ao infinito�....ainda, com uma �dimens�o inevit�vel de subjetividade�...! ou ser� que o truque do Bar�o n�o � t�o simples de afastar como parecia??? Mas continuemos com a argumenta��o  do L�wy:

 

Para M. L�wy, nenhum grupo ou indiv�duo  poder� atribuir-se o ponto de vista do proletariado em um momento hist�rico t, porque:

 

�Em outras palavras: o ponto de vista do proletariado n�o � monop�lio exclusivo de um �nico grupo o corrente, mas representa, em cada momento hist�rico, o horizonte comum a um conjunto de for�as pol�ticas e intelectuais, sociais e culturais que reivindicam a vis�o prolet�ria � isto �, de sua utopia revolucion�ria. Seria tanto mais �aut�ntico� na medida em que soubesse escapar � influ�ncia mistificadora das ideologias conservadoras (burguesas, patriarcais ou burocr�ticas) e unificar dialeticamente (sob o ponto de vista da totalidade), em seu n�vel superior, a multiplicidade das experi�ncias da classe.�  ( Michael L�wy: As aventuras de Karl Marx contra o Bar�o de M�nchhausen. Editora Busca Vida, S�o Paulo, 1987, 3a. Ed., p. 202)

 

Depois de mais de duzentas p�ginas de cr�tica impiedosa ao positivismo, oferecer esta resposta n�o apenas � de uma pobreza desapontadora, como que cai num c�rculo vicioso l�gico e factual-hist�rico que o deixa n�o apenas demarcado pelas limita��es ideol�gicas como que multiplica at� limites � desconhecidos � essa fundamenta��o ideol�gica.


 

[4]

 

Um �horizonte comum�

 

Em primeiro lugar, pela carateriza��o do ponto de vista do proletariado utilizando-se a met�fora do  �horizonte comum�. M. L�wy, erudito de forma��o cl�ssica e marxista sofisticado, sabe perfeitamente que �...como seu nome grego sugere, um horizonte � ao mesmo tempo a apertura e o limite que define um infinito progresso ou um per�odo de espera�. [5] No m�nimo, podemos dizer que a defini��o do ponto de vista do proletariado como um horizonte � amb�gua e voluntarista.

 

Mas, em segundo lugar, muito mais s�ria � a seguinte quest�o:  o que nos garante que esse horizonte existe? Na argumenta��o do M. L�wy absolutamente nada, essa exist�ncia � colocada como uma hip�tese sem demonstra��o alguma, livrada ao suposto que o leitor de boa vontade  a aceitar� como artigo de f�. Certamente, n�o � suficiente. Para que uma coisa exista, n�o basta que seja logicamente poss�vel. A exist�ncia n�o � produzida pela mente, (nem pela nossa vontade). [6] Bom, isto pelo menos para os que acreditamos no materialismo, ou no realismo. Uma m�nima atitude cr�tica colocar� esta afirma��o de L�wy junto com outros horizontes, como o imperativo categ�rico Kantiano ou a vinda de algum Messias. Desafortunadamente, as palavras n�o bastam para tornar desejos em realidade...

Mais alguma argumenta��o de M. L�wy? Nenhuma. Para o autor apenas � Resta definir o sentido e o valor do conceito de superioridade epistemol�gica do ponto de vista prolet�rio...�. Bom, poder� restar apenas para ele e para aqueles que acreditem em contos de fadas...Uma atitude epistemol�gica s�ria tentaria demonstrar  a exist�ncia do horizonte, pelo menos seguindo as indica��es de P. Anderson ( � a teoria � hist�ria, a hist�ria � teoria...etc.). Para ser comedidos, digamos apenas que a argumenta��o de M L�wy continua na lama...

 

Mas retomemos a quest�o do M. L�wy (p. 201) sobre o que significa mais precisamente �o ponto de vista do proletariado�. Por�m, desta vez n�o como ele o faz, do lado do �ponto de vista� mas do lado �do proletariado�. A� M. L�wy se pergunta: �Como, portanto, identific�-lo?. �tima pergunta! Como identificar ao proletariado? Nos perguntamos. E ainda: quem � o respons�vel encarregado da identifica��o do proletariado? E ainda: quem � o respons�vel da defini��o do conceito de proletariado correto??  O Bar�o de M�nchhausen ataca novamente!

 

Ser� o conceito definido no �mbito da teoria ou no �mbito da hist�ria? S� vejo problemas pela frente, tanto no �mbito da teoria marxista, que tem se mostrado incapaz de desenvolver uma teoria das classes minimamente satisfat�ria para o capitalismo [7], como do lado da hist�ria, que nos mostra a crescente fragmenta��o e decr�scimo da import�ncia relativa a classe oper�ria em termos demogr�ficos....Todos conhecemos a exist�ncia do problema, acredito que n�o preciso me estender aqui.

 

E, ainda, temos um problema pol�tico em torno � defini��o da classe e sua qualifica��o como tal, que tem acompanhado o desenvolvimento hist�rico do Movimento Socialista. Fica nos assombrando a conceitua��o leninista ( lembrar de �O que fazer�, V.I. Lenin, Moscou, 1903, etc.) de que um movimento oper�rio, se deixado apenas livrado a sua pr�pria iniciativa, jamais ir� al�m de uma consci�ncia sindical, limitada ao economicismo, sem atingir nunca uma consci�ncia socialista....Precisa-se da vanguarda para levar a consci�ncia marxista e socialista aos melhores quadros do movimento oper�rio. No marxismo ocidental � o ponto de vista do proletariado� foi e continua sendo um problema (lembrar das pol�micas entre Lenin, Plej�nov, Kautsky, Rosa Luxemburg, Bernstein, ....e Luk�cs, Gramsci, Togliatti, Althusser, Poulantzas, al�m das in�meras variantes nacionais destes marxismos...pol�micas muitas vezes denominadas �luta pelo marxismo aut�ntico�) Qual o crit�rio para decidir quem fica e quem sai? Resposta: em cada situa��o espec�fica existem uma ou mais vanguardas iluminadas encarregadas de proporcionar o conceito �certo� de proletariado...

 

Finalmente, temos o problema dos movimentos sociais contempor�neos, um campo que tem se caraterizado pela sua opacidade ao pensamento marxista, limitado na sua capacidade de conceber uma estrutura complexa de classes e fragmentos de classes atravessada por clivagens transversais que n�o admitem uma determina��o de identidades limitada � esfera econ�mica...(de fato, um problema grave apenas indicado e n�o analisado por M.L�wy).

Da elegante met�fora do ponto de vista da classe prolet�ria como um �mirante privilegiado� s� restam as ru�nas de sua dupla ambiguidade interna: a do ponto de vista e a do proletariado, que precisam de algum grupo auto-definido como �vanguarda� para �fechar� a discuss�o. O Bar�o de M�nchhausen est� mais vivo do que nunca, s� que agora, para sair do atoleiro, ele � puxado pela �vanguarda�.

 

Resumindo, a proposta do ponto de vista de classe do proletariado como alternativa superadora do positivismo, revela-se ela mesma presa a um conjunto de conven��es, atitudes, id�ias ou pol�ticas de grupos que, teimosamente, �...escapa � d�vida, � dist�ncia  cr�tica ou ao questionamento..(M. L�wy, op. cit. p. 32)

 

 

A hora e a vez do irracionalismo messi�nico

 

Mas os problemas, desafortunadamente, n�o acabam por aqui. Chegou a hora e a vez do irracionalismo messi�nico, ou a vers�o adaptada por M. L�wy da t�cnica do Bar�o...

Nas p�ginas 199-200 o autor define em dois conjuntos de proposi��es os elementos que segundo ele caracterizam a �...especificidade do ponto de vista prolet�rio com rela��o ao das classes revolucion�rias do passado...� . Depois, na p�gina 201 pergunta-se:

 

�Estes dois conjuntos de proposi��es s�o demonstr�veis cientificamente? Adv�m de an�lise emp�rica de fatos? Sim e n�o. Sim, na medida em que se pode, at� certo ponto, deduzi-los da condi��o objetiva do proletariado na sociedade capitalista e da experi�ncia hist�rica de suas lutas revolucion�rias. N�o, na medida em que eles s�o aceit�veis apenas para os que j� optaram, para os que tomaram posi��o em favor do proletariado e de seu ponto de vista. Em outros termos, eles cont�m um n�cleo irredut�vel de f�, ou, mais precisamente, de aposta hist�rica sobre o papel emancipador do proletariado, sobre sua voca��o universal e redentora� ( It�lica do autor, EED)

(Como afirma na sua nota 15, o autor est� re-elaborando uma proposta de Lucien Goldmann. )

 

O irracionalismo messi�nico como op��o ao beco sem sa�da positivista? Acredito que Marx e Engels jogariam estas concep��es no saco das cr�ticas pequeno-burguesas e rom�nticas ao capitalismo...Mas vejamos um ponto interessante: quando � que o livro de M. L�wy foi escrito? Bom, na edi��o brasileira, que � uma tradu��o, indicam-se os anos de 1987 na ficha catalogr�fica e 1988 na indica��o de impress�o. N�o est� indicado o ano de publica��o do original em l�ngua estrangeira. Ou seja, o livro foi escrito alguns anos antes de 1989, ou seja, da queda do �Muro de Berlim� e do desabamento do �socialismo real�. Imagino que o leitor se perguntar� comigo se o �n�cleo irredut�vel de f� e a �aposta hist�rica� n�o foram dramaticamente esmagados � sem desaparecer, claro-  pela queda do mundo socialista na sua quase totalidade. Acredito que podem ter sido esmagados quantitativamente, mas ao mesmo tempo penso que foram refor�ados na sua radicalidade como op��o pol�tica da pequena-burguesia intelectual. Quer dizer, tomada na sua total unilateralidade a solu��o proposta por L�wy: deixa-se totalmente de lado a an�lise emp�rica dos fatos para se enfatizar a f� e a aposta. A vers�o mais banal de esta vers�o pequeno-burguesa dir�: �Se � marxista ou n�o se �, that is the question�. Lembram do Marx da Mis�ria da Filosofia? J� disse isso na minha contribui��o anterior: aquele �por-um-lado� e �por-outro-lado� que Marx sinalizava em Proudhom como a caracter�stica m�xima do pensamento pequeno-burgu�s, aparece agora  apresentado numa dicotomia baseada...NA F�!. A pequena burguesia se supera constantemente...Como afirmava acima M.L�wy, �Evidentemente, a resposta a estas quest�es cont�m uma dimens�o inevit�vel de subjetividade.�  ( Michael L�wy: As aventuras de Karl Marx contra o Bar�o de M�nchhausen. Editora Busca Vida, S�o Paulo, 1987, 3a. Ed., pp. 201-202). De repente viramos durkheimianos! Vamos admitir a psicologiza��o da possibilidade do conhecimento e de suas ferramentas metodol�gicas????

 

 

 

 

A �f� como aposta hist�rica�

 

Mas deixando por um momento o contexto hist�rico vamos analisar a solu��o proposta por M. L�wy. Como ele diz, se trata, mais precisamente, de uma �aposta hist�rica�. Vamos, ent�o, pensar com mais cuidado na �f� como aposta hist�rica�.

Como n�o poderia ser de outra forma, estas afirma��es colocam ao irracionalismo numa �sinuca de bico�, como costuma-se dizer. Vejamos. Em primeiro lugar, porque manda para o espa�o aquela afirma��o de Marx no pref�cio ao primeiro volume da primeira edi��o alem� de O Capital, onde carateriza �o desenvolvimento da sociedade como um processo hist�rico-natural�. Marx, que era um cientista influenciado pelos logros e as limita��es da ci�ncia da sua �poca, jamais fez nem poderia fazer qualquer refer�ncia a proje��es e muito menos a �apostas�: Na sua famosa carta a Weydemayer, esclarece que n�o foi ele que descobriu as classes sociais, mas que sua �nica contribui��o foi explicar o processo de luta de classes e seu desfecho, com a supera��o da sociedade capitalista pela ditadura do proletariado. Ponto. N�o h� espa�o para aposta nenhuma. Trabalhadores e capitalistas n�o est�o autorizados a mudar o roteiro hist�rico-natural desvendado pelo materialismo hist�rico.

Em segundo lugar. O que � uma aposta? Qualquer um que tenha jogado alguma vez na Loto sabe que aposta implica incerteza, risco e probabilidades. Seria �timo apostar na Mega-sena tendo a certeza de ganhar! Isso, pensando com a mentalidade do s�culo XIX. Conceber a demonstra��o dos dois conjuntos de proposi��es apresentados por M. L�wy  condicionada pelo desfecho positivo da aposta hist�rica s� pode ser entendido como uma met�fora, porque de acordo a concep��o de Marx sabemos qual ser� o desfecho: n�o h� d�vida nisso. A certeza � total.

Por�m, esta era a vis�o da ci�ncia do s�culo XIX, que foi reduzida a frangalhos no s�culo XX...N�o apenas na �rea das ci�ncias duras, mas tamb�m na economia burguesa, (levando de rold�o ao conjunto das ci�ncias humanas e o optimismo positivista ) como uma simples leitura do Tratado sobre a Probabilidade, de Keynes poder� mostrar para quem quiser ver...E aqui temos de novo aquele tema do �mirante burgu�s� admitido por L�wy e sabiamente �esquecido� ou propositadamente apagado por Netto  produzindo resultados cient�ficos que n�o podem ser ignorados! Obviamente Marx estava, dentro das limita��es que o conhecimento cient�fico da �poca lhe impunha, muito al�m do irracionalismo messi�nico ou das limita��es impostas pela �tica da pequena burguesia intelectual! Vejamos

 

�� claro que seria muito f�cil fazer a hist�ria universal se se pudesse empreender a luta somente em condi��es de vit�ria infal�vel. Al�m disso, a hist�ria passaria a ter um car�ter muito m�stico se os �acasos� n�o desempenhassem nenhum papel. Como � natural, os acasos formam parte do curso geral do desenvolvimento e s�o compensados por outros acasos. Mas a acelera��o ou o retardamento do desenvolvimento dependem, em grau consider�vel, desses acasos, entre os quais figura o �acaso� relativo ao car�ter dos homens que dirigem o movimento em sua fase inicial�. (K.Marx, Carta a L. Kuguelmann. Londres, 17 de abril de 1871. In: Obras escolhidas de Karl Marx e Friedrich Engels, Ed. Alfa-Omega, S�o Paulo, s/d,  Vol. III, pp. 263-4)

 

Acaso Marx est� se contradizendo em rela��o � sua formula��o do �processo hist�rico-natural�. N�O. Primeiro, porque ele afirma que �...os acasos formam parte do curso geral do desenvolvimento e s�o compensados por outros acasos.� Segundo, porque o desfecho final continua o mesmo. O problema � que, como apenas no s�culo XX vir�amos saber, os acasos em processos complexos n�o necessariamente s�o compensados por outros acasos...na verdade, provavelmente aconte�a que pequenas perturba��es sejam amplificadas no curso do desenvolvimento do processo...A meteorologia, que estuda processos (uma forma de hist�ria dos processos naturais, a natureza est� cheia destes exemplos) tem dado uma contribui��o importante: a forma como vemos a ci�ncia hoje n�o � mais a mesma que a do s�culo XIX...Portanto, podemos inferir que: a) as lutas parciais poder�o ter um desfecho imprevis�vel, mesmo estando o estado final determinado, e b) colocar a justeza do ponto de vista do proletariado em termos de aposta hist�rica � colocar um elemento m�stico, messi�nico, como crit�rio de verdade, j� que qualquer aposta ter� chances finitas de vir a se concretizar com sucesso! (Mais uma contribui��o da ci�ncia burguesa...)

 

Resumindo, caso se trate de apostar, melhor confiar no jogo do bicho do que nos soci�logos messi�nicos...Pelo menos no primeiro caso, temos a �certeza� de que �vale o que est� escrito�.

 

De qual Luk�cs estamos falando?

 

De novo,  os problemas n�o acabam por aqui! Vejamos o caso de: Gy�rgy Luk�cs.

 

Podemos entender que um soci�logo n�o se de muito bem com apostas, probabilidades, risco, etc. Podemos admitir, ainda, que a met�fora n�o foi feliz e o resultado desastroso. Mas a quest�o fica mais complicada quando se trata de utilizar a autoridade de G.Luk�cs para fundamentar alguma coisa em termos de sociologia do conhecimento ou consci�ncia de classe do proletariado. O problema �: de qual Luk�cs estamos falando?? Aqui resulta imprescind�vel ler o Posf�cio que Luk�cs escreveu em 1967 para a edi��o alem� de Hist�ria e consci�ncia de classe (daqui em diante, HeCC). [8]

 

Como todos sabemos, Luk�cs � uma figura complicada, que tem sido objeto de diferentes avalia��es hist�ricas. � ...ele � visto como um proto-estalinista pelos te�ricos cr�ticos na Alemanha e nos Estados Unidos, e como um irracionalista rom�ntico por muitos marxistas na Fran�a e na It�lia.� [9] Para alguns esp�ritos mais agressivos, ele sempre foi um �comiss�rio sovi�tico�, mas n�o precisamos nos deixar levar pelas paix�es. Vamos tentar estabelecer a posi��o em que fica G. Luk�cs em rela��o ao �mirante privilegiado�.

 

Depois que escreveu HeCC, em 1922, Luk�cs foi duramente criticado pela IIIa Internacional no seu V Congresso (1924) , pelas vozes de Bujarin e Zinoviev, que qualificaram o livro como �revisionista, reformista, e idealista� [10], o que levou ao autor a realizar uma autocr�tica e retirar o livro de circula��o. Segundo o tradutor, �Luk�cs �esse Galileu socialista e socioc�ntrico - se transforma em um especialista da autocr�tica, pela sua rejei��o t�tica do sacrif�cio.� ( Pref�cio da tradu��o francesa., p�g. 5). Como resultado da sua �rejei��o t�tica do sacrif�cio, Luk�cs sempre depois de suas autocr�ticas terminou alinhado seja com o estalinismo, como em 1924 e 1929, depois da discuss�o sobre a plataforma do PC h�ngaro, seja com o neo-estalinismo hegem�nico que se estabelece na URSS depois da queda de Stalin e a �autocr�tica� de N. Jruschov.  Note-se que o Posf�cio a HeCC foi escrito em 1967, meses antes da invas�o da Tchecoeslov�quia pelo Pacto de Vars�via....Quando certamente as vis�es hegem�nicas do �mirante privilegiado� na sua vers�o sovi�tica estavam sendo duramente questionadas na Tchecoeslov�quia: ou seja, novamente estava-se numa luta �pelo marxismo aut�ntico�, encarregado de definir o mirante privilegiado. Com o Posf�cio, ele est� dando sua contribui��o ao debate.

 

�...eu considerava ent�o e considero hoje, sincera e efetivamente, as id�ias desenvolvidas em Hist�ria e Consci�ncia de Classe como erradas.� (G.Luk�cs)

 

 

Mas vejamos o que o Luk�cs afirma no seu posf�cio sobre HeCC: (todas as p�ginas correspondem � edi��o francesa; tradu��o de EED)

 

�...publicando em um mesmo volume meus trabalhos mais importantes de essa �poca (1918-1930), eu quero precisamente salientar seu car�ter de ensaios e n�o pretendo em absoluto conferir-lhes um valor de atualidade no combate que se desenvolve hoje em dia pelo marxismo aut�ntico.� (p�g. 383)

 

� O dualismo que regia minha evolu��o n�o apenas atinge o apogeu nestas circunst�ncias, cristaliza-se ao mesmo tempo numa estranha  forma, te�rico-pr�tica. Membro do coletivo interno de Kommunismus, eu participava ativamente na elabora��o de uma linha te�rica e pol�tica de �esquerda�.� (p�g. 388)

 

�Nossa revista queria servir ao sectarismo messi�nico elaborando sobre todas as quest�es os m�todos mais radicais, proclamando em todos os dom�nios uma ruptura total com todas as institui��es, formas de vida, etc. originadas no mundo burgu�s.� (p�g. 389)

 

E ainda encontramos as seguintes caracteriza��es:

 

�...HeCC  representa objetivamente...uma tend�ncia...que, volunt�ria ou involuntariamente, est� dirigida contra os fundamentos da ontologia do marxismo. Eu falarei da tend�ncia a conceber o marxismo exclusivamente como uma doutrina social, uma filosofia social, ignorando ou rejeitando a tomada de posi��o que ele cont�m em rela��o � natureza� (p�g. 392)

 

(Esta posi��o em rela��o � natureza � ou reposicionamento � cont�m outros problemas, que ficariam evidentes a partir dos anos 70 no que foi denominado �o debate italiano�, mas podemos deixar este ponto para depois, porque seguramente vai voltar a aparecer no debate.) Continuando com Luk�cs:

 

�H� certamente um esfor�o para explicar todos os fen�menos ideol�gicos a partir de sua base econ�mica, mas a economia est� empobrecida, porque a sua categoria marxista fundamental, o trabalho como mediador no interc�mbio org�nico entre a sociedade e a natureza, tem sido eliminado. Esta � a consequ�ncia natural da minha atitude metodol�gica fundamental�( it�lico meu. EED) (p�g. 393)

 

Este � um ponto realmente s�rio e Luk�cs se estende bastante nas suas considera��es. Vale a pena reler, pelas suas consequ�ncias para a concep��o da praxis e da consci�ncia �atribu�da�. Finalmente, conclui, � Esta invers�o de uma inten��o, correta em si, no seu contr�rio est� originada na concep��o idealista abstrata da praxis que j� temos indicado.� (p�g. 395). Mas essa concep��o idealista n�o atinge apenas segundo Luk�cs sua concep��o da praxis, ela aparece  tamb�m na oposi��o errada que faz entre a totalidade e a prioridade do econ�mico �...h� em mi um exagero �hegeliano- no qual eu oponho o lugar metodologicamente central da totalidade � prioridade do econ�mico...este paradoxo metodol�gico se encontra ainda acentuado pelo fato de que a totalidade � considerada como o portador conceptual do princ�pio revolucion�rio na ci�ncia: �O �mbito da categoria da totalidade � o deposit�rio (porteur) do princ�pio revolucion�rio na ci�ncia (p�g. 48)�. (P�g. 397). Certamente este erro de Luk�cs se encontra no fundamento de todos os outros que vieram depois, muitos deles n�o originados no acordo do pretenso ep�gono com a concep��o idealista-hegeliana  de Luk�cs, mas, na minha opini�o, no puro e simples desconhecimento do problema e de seus desdobramentos. Ou seja, muita gente cita Luk�cs sem  jamais ter lido Luk�cs....

 

Bom, realmente a quantidade de pontos relevantes � muito grande para exauri-los aqui.  Mas tem mais um que a paci�ncia dos leitores ter� que admitir:  aquele que faz refer�ncia ao �grosseiro erro fundamental� que segundo Luk�cs  fundamentou o sucesso do livro: a identifica��o da aliena��o com a objetiva��o:

 

�...HeCC segue Hegel na medida em que a aliena��o � identificada  com a objetiva��o (para retomar a terminologia dos Manuscritos Econ�mico-filos�ficos de Marx). Este grosseiro erro fundamental tem certamente contribu�do ao sucesso de HeCC.� (P�g. 400).

 

Certamente, a autocr�tica � severa. Para fechar, Luk�cs ainda declara:

 

�...eu considerava ent�o e considero hoje, sincera e efetivamente, as id�ias desenvolvidas em HeCC como erradas.� (p�g. 417).

 

Luk�cs deixa, finalmente, a possibilidade de que �...certas tend�ncias, adequadamente orientadas, de HeCC tenham produzido qualquer coisa de correto, abertas ao futuro...� (id.). Ponto. Luk�cs se colocava mais uma vez na trilha do �marxismo autentico�. Alguns meses depois os tanques do pacto de Vars�via terminavam com a �Primavera de Praga�.

 

Agora podemos voltar ao nosso problema. O do �mirante privilegiado�. Primeira quest�o: quando citamos Luk�cs, nos estamos referindo ao Luk�cs1 ou ao Luk�cs2?; Segunda quest�o: Em quais dos casos Luk�cs estava falando do �mirante privilegiado�?; Terceira quest�o: para decidir a Segunda Quest�o, N�S devemos estar necessariamente no �mirante privilegiado�!; Quarta quest�o: algu�m poder� dizer qual �, em definitiva, num determinado momento hist�rico, o �mirante privilegiado�?? Quinta quest�o: a �sa�da� pela f� n�o � uma  sa�da marxista, apenas � produto do irracionalismo messi�nico e na minha opini�o revela uma claudica��o te�rica perante um problema fundamental.

 

Marco te�rico idealista-hegeliano ou representante do �marxismo aut�ntico�?

 

Uma conclus�o que aparece evidente agora, relacionada com meu primeiro email: todo e qualquer trabalho que fa�a refer�ncia a Luk�cs fazendo  abstra��o da hist�ria e seus desenvolvimentos na teoria, sem tomar posi��o, est� cometendo um erro grav�ssimo: citar sem conhecer o autor que est� sendo citado. O marco te�rico ser� idealista-hegeliano ou representante do �marxismo aut�ntico�? As considera��es ontol�gico metodol�gicas de Luk�cs em rela��o ao marxismo estavam o n�o corretas? Qual o mirante que vamos definir como privilegiado? E por a� vai. Muitas perguntas caberiam aqui. E explica��es, certamente.

 

�Vimos que para Marx o ponto de vista de classe e a vis�o social do mundo correspondente determinam um horizonte intelectual, os limites estruturais intranspon�veis do campo de visibilidade cognitiva, o m�ximo de conhecimento poss�vel a partir desta perspectiva.� (Michael L�wy: As aventuras de Karl Marx contra o Bar�o de M�nchhausen. Editora Busca Vida, S�o Paulo, 1987, 3a. Ed., p. 202)

 

De acordo. Finalmente, uma ultima provoca��o. De acordo em tanto se aplique para todas as classes. Inclu�do o proletariado, e muito mais naqueles que se consideram com direito a �atribuir�  ao proletariado sua consci�ncia, fundamentalmente os intelectuais burgueses e pequeno-burgueses que perseveram na concep��o leninista-estalinista e s�o decididos partid�rios da �democracia por imposi��o�.

 

�Uma exasperante aus�ncia de n�tidas contraposi��es�: o �Back to the Future� da FSS?

 

Como foi colocado na reuni�o do DPS, trata-se de um debate que poder� ser enriquecedor, caso conte com a participa��o de todos. Ainda, poder� fornecer subs�dios importantes para a discuss�o, j� h� muito tempo protelada, sobre a reformula��o curricular.

As quest�es colocadas acredito que extrapolam o marco da Faculdade. No �ltimo semin�rio Clacso-Instituto Gino Germani (UBA) foi afirmado que � ...1989 colocava para o marxismo um problema epistemol�gico� (Edgardo Lander). A quest�o foi amplamente debatida, assim como a afirma��o do Comandante Marcos de que � ...o Movimento Zapatista n�o era marxista porque os marxistas s�o companheiros voltados para o passado, obcecados com o passado.� N�o � pouco dizer. As quest�es est�o a�.

(Rio, Julho de 2001)

 

Notas


 

[1] Quando digo �marxismo perif�rico�, n�o estou fazendo um julgamento de valor nem menosprezando, (tal vez hoje seja uma grande vantagem!!) simplesmente lembrando, no melhor estilo de Francisco de Oliveira , que n�s somos uma periferia,  o que tem implica��es tanto econ�micas como pol�ticas e culturais, e n�o deve nunca deixar de ser levado em conta, j� que o �ser social determina a consci�ncia�, etc.

 

[2] Os textos citados por Netto s�o: G. Luk�cs: Hist�ria e consci�ncia de classe. Porto, Escorpi�o, 1974.;  K. Korsch: Marxisme et philosophie. Paris, Minuit, 1964; e M. L�wy: As aventuras de Karl Marx contra o Bar�o de M�nchhausen. S�o Paulo, Busca Vida, 1987.

 

[3] Na sua Apresenta��o a  Ditadura e Servi�o Social, Jos� Paulo Netto na sua nota de rodap� n�mero 3 ( p�g. 10) afirma: �Meu empenho em fundar minimamente certos passos levou-me reiteradas vezes a muitas cita��es e refer�ncias. Para quem as julgar excessivas, recordo conhecido economista: `Nos �ltimos tempos, numerosos autores e editores convenceram-se de que os leitores podem se sentir ofendidos pelo uso de notas de rodap� (...) Estou persuadido de que essa convic��o carece de fundamento. Nenhuma pessoa culta pode sentir-se perturbada com a exist�ncia de uma nota em tipo mi�do ao fundo de uma p�gina, e todas as pessoas, sejam elas profissionais ou leigas, precisam conhecer as credenciais de um fato quando este � mencionado. As notas de rodap� s�o tamb�m um �ndice expressivo do cuidado posto no estudo de um determinado assunto.� (Gailbraith, s.d. : 29�. 

Ora, precis�vamos da autoridade de um economista burgu�s para nos convencer que � necess�rio apresentar fielmente as credenciais de um fato, enfrentando honestamente todas suas consequ�ncias mesmo quando estas nos s�o desfavor�veis? Segundo ponto: rela��o de uma determinada pr�tica intelectual com sua concep��o pol�tica . Disto falamos acima.

 

[4] De fato, a �nica alternativa que ficar� aberta para fechar essa explos�o de indetermina��o ideol�gica ser� a da vanguarda esclarecida, �nica autorizada a �puxar-se pelos pr�prios cabelos� e colocar um ponto de refer�ncia firme!!

 

[5] J.Derrida: Force of Law: the Mystical Foundation of  Authority. In: Cornell, D. et al.Deconstruction and the Possibility of Justice.Routledge, New York, 1992. Pp. 3-67.

 

[6] O. Tambosi: O Decl�nio do Marxismo e a Heran�a Hegeliana�. Editora da UFSC. Florian�polis. 1999. P. 219.

 

[7] Veja-se, para uma breve introdu��o hist�rico-te�rica ao problema no �mbito da teoria marxista: A. Przeworski: O Processo de forma��o das classes. In: Dados, No. 16, IUPERJ, Rio de Janeiro, 1977. Pp. 3-32.

[8] Estou utilizando a tradu��o francesa: (Eds. De Minuit, Paris, 1960). Uma vers�o em ingl�s est� dispon�vel no endere�o http://www.marxists.org/archive/lukacs/works/history/lukacs67.htm

 

[9] Andrew Feenberg: The question of organization in the early Marxist work of Luk�cs. Technique or praxis?  Trabalho apresentado no semin�rio: �Reification et utopie: Ernst Bloch et Gy�rgy Luk�cs �a l�occassion du centenaire de leur naissance� Goethe-Institut. Paris. Mar�o 26-29, 1985. Este trabalho foi apresentado a convite dos organizadores do semin�rio, entre eles M.L�wy. (Note-se a data). P�g. 1.

 

[10] Kostas Axelos, Pref�cio da tradu��o francesa. P�g. 4.

 

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