Entrevista exclusiva de Karl Marx para Limite XXI
Emilio Dellasoppa
Professor Adjunto FSS/UERJ
Rio
de Janeiro, Novembro 2002
(Este texto foi entregue – com recibo – para a Comissão de
Reformulação Curricular da FSS/UERJ em
21 de Novembro de 2002 e jamais foi discutido até hoje nem sequer
citado como uma das contribuições lidas durante a elaboração do
projeto)
Limite
XXI conseguiu com absoluta exclusividade, através de um colega
especialista em I Ching, a informação de
que Karl Marx tinha reencarnado como dono de uma livraria no bairro
carioca de Bonsucesso. Com alguma dificuldade, chegamos lá, e fomos
muito afortunados porque esse dia o tráfico não tinha mandado fechar o
comércio. Para nosso espanto, o Mestre não teve o menor problema em
conceder-nos esta entrevista. O único pedido dele foi para dispensar
as fotos.
Limite
XXI: Caro Mestre, a emoção é tanta que realmente não sei por onde
começar...
KM:
Começa pelo início, e vá até o fim. Aí você para!
Limite
XXI: O senhor não perde o humor, isso é o Chapeleiro Maluco de Lewis
Carroll....
KM: Pois
é, nesta época de vocês se a gente perder o humor, tudo estará
perdido....
Limite
XXI: Bom, conversando longamente com uma assistente social muito
próxima a mi, fui despertado para toda uma série de questões para as
quais até esse momento não tinha dado a mínima....mas como os temas
são infinitos, vamos começar com um qualquer. Sua concepção do
processo de trabalho, e a possibilidade de aplicá-la no caso dos
assistentes sociais.
KM:
Humm,...processo de trabalho....vamos lá.
Limite
XXI: Vejamos primeiro se entendemos corretamente sua concepção do
processo de trabalho. Sua análise fundamental está
n´O Capital, volume I, parte III: (A
produção da mais-valía absoluta), capítulo
VII (O processo de trabalho e o processo de produção da
mais-valía), Seção 1.: O processo de
trabalho ou a produção de valores de uso. Correto?
KM:
Correto. Ainda me lembro quando escrevi isso... Mas você está
utilizando a edição inglesa que Freidrich
organizou, tudo bem, mas eu me entendo melhor na minha velha original
de 1867. Há algumas sutilezas que se perdem, como você sabe, em
qualquer tradução....traduttore,
tradittore!
Limite
XXI: Certo, até em pequenos detalhes isso é importante...é curioso que
Gegenstand (objeto) seja traduzido
em inglês como subject...Mas vamos
lá. Entendo que o senhor concebe o trabalho como um processo que
implica uma relação peculiar entre o homem e a Natureza, quando
afirma: “O trabalho é, antes de mais nada,
um processo no qual participam o homem e a Natureza, e no qual o homem
pela sua própria determinação inicia, regula, e controla as re-ações
materiais entre ele e a Natureza. Ele se opõe à Natureza como uma de
suas próprias forças, colocando em movimento braços e pernas, cabeça e
mãos, as forças naturais de seu corpo, de forma de apropriar-se dos
produtos da Natureza em uma forma adaptada a suas próprias
necessidades. Assim, atuando sobre o mundo exterior e transformando-o,
ele ao mesmo tempo transforma sua própria natureza.”
KM: Isso mesmo. Eu disse: “Die Arbeit ist zunächst ein
Prozeß zwischen Mensch und Natur, ein Prozeß, worin der Mensch seinen
Stoffwechsel mit der Natur durch seine eigne Tat vermittelt, regelt
und kontrolliert. Er tritt dem Naturstoff selbst als eine Naturmacht
gegenüber. Die seiner Leiblichkeit angehörigen Naturkräfte, Arme und
Beine, Kopf und Hand, setzt er in Bewegung, um sich den Naturstoff in
einer für sein eignes Leben brauchbaren Form anzueignen. Indem er
durch diese Bewegung auf die Natur außer ihm wirkt und sie verändert,
verändert er zugleich seine eigne Natur.” Bonito,
hein?
Limite
XXI: Muito bonito. Mas há nisso alguma sutileza?
KM: Há.
Repare na palavra Stoffwechsel.
Isso em alemão quer dizer “assimilação”, “processo
assimilatório” ou ainda, “metabolismo”!
Você vai encontrar esse problema tratado na literatura séria sobre o
tema, como aquele trabalho do Claus
Offe “Trabalho como categoria sociológica
fundamental”, ou em Hannah
Arendt. A vulgarização pequeno-burguesa do
meu pensamento não enxerga sutilezas...Não é muito interessante?
Limite
XXI: Muito, não é certamente qualquer relação a que o senhor está
assumindo entre o homem e a Natureza....Este ponto vai ser importante
nas questões que pretendo formular ao senhor.
Mas
continuando, o senhor também disse que “Os fatores elementares do
processo de trabalho são 1. A atividade pessoal do homem, e.g., o
próprio trabalho, 2, o objeto desse trabalho, e 3, seus instrumentos.”
KM: Certo. “Die einfachen Momente des Arbeitsprozesses
sind die zweckmäßige Tätigkeit oder die Arbeit selbst, ihr Gegenstand
und ihr Mittel.” Os ingleses não conseguiram resistir e
colocaram 1,2,3...Há, há, há...!
Limite
XXI: E em relação ao objeto do trabalho....o Senhor enfatiza ainda a
relação com a Natureza, quando afirma “O solo, ....existe
independentemente do homem, é o objeto universal do trabalho
humano...se, de outra forma, o objeto do trabalho tem sido, digamos,
filtrado através de um trabalho prévio, o chamamos de matéria prima;
como por exemplo o mineral já extraído e pronto para a lavagem. Toda
matéria prima é objeto de trabalho, mas nem todo objeto de trabalho é
matéria prima: apenas poderá vir a sê-la se tem experimentado alguma
alteração por meio do trabalho”
KM: Certamente. “Die Erde (worunter ökonomisch auch
das Wasser einbefriffen), wie sie den Menschen ursprünglich mit
Proviant, fertigen Lebensmitteln ausrüstet, findet sich ohne sein
Zutun als der allgemeine Gegenstand der menschlichen Arbeit vor. Alle
Dinge, welche die Arbeit nur von ihrem unmittelbaren Zusammenhang mit
dem Erdganzen loslöst, sind von Natur vorgefundne Arbeitsgegenstände.
”
Limite
XXI: E o que seriam os instrumentos de trabalho?
KM: “Um
instrumento de trabalho é uma coisa, ou um complexo de coisas, que o
trabalhador interpõe entre ele e o objeto de seu trabalho, e que serve
como condutor de sua atividade. Ele faz uso das propriedades
mecânicas, físicas e químicas de algumas substâncias para fazer outras
substâncias sub-serventes aos seus objetivos...assim, a Natureza será
um dos órgãos de sua atividade, um que ele anexa aos seus próprios
órgãos corporais, aumentando sua estatura apesar da Bíblia...
” Em alemão, no original, eu disse: “Das
Arbeitsmittel ist ein Ding oder ein Komplex von Dingen, die der
Arbeiter zwischen sich und den Arbeitsgegenstand schiebt und die ihm
als Leiter sener Tätigkeit auf diesen Gegenstand dienen. Er benutzt
die mechanischen, physikalischen, chemischen Eigenschaften der Dinge,
um sie als Machtmittel auf andre Dinge, seinem Zweck gemäß, wirken zu
lassen. Der Gegenstand, dessen sich der Arbeiter unmittelbar
bemächtigt - abgesehn von der Ergreifung fertiger Lebensmittel, der
Früchte z.B., wobei sene eignen Leibesorgane allein als Arbeitsmittel
dienen - ist nicht der Arbeitsgegenstand, sondern das Arbeitsmittel.
So wird das Natürliche selbst zum Organ sener Tätigkeit, ein Organ,
das er seinen eignen Leibesorganen hinzufügt, sene natürliche Gestalt
verlängernd, trotz der Bibel. ”
Limite
XXI: E qual o resultado do processo de trabalho como atividade humana?
KM: Veja,
“No processo de trabalho, portanto, a atividade humana, com a ajuda
dos instrumentos de trabalho, provoca uma alteração, prevista desde o
começo sobre o material sobre o qual tem se trabalhado. (Lembre-se:
esta concepção prévia é a que diferencia o pior arquiteto da aranha!)
O processo desaparece no produto, e este é material da Natureza
adaptado por uma mudança de forma às necessidades do homem. O trabalho
tem se incorporado a si mesmo no seu objeto: o primeiro
materializa-se, o último é transformado. O que no trabalhador aparece
como movimento, agora aparece no produto como uma qualidade fixa sem
movimento. O ferreiro forja e o produto é o forjado.”
De novo: “Im Arbeitsprozeß bewirkt also die Tätigkeit des Menschen
durch das Arbeitsmittel eine von vornherein bezweckte Veränderung des
Arbeitsgegenstandes. Der Prozeß erlischt im Produkt. Sein Produkt ist
ein Gebrauchswert, ein durch Formveränderung menschlichen Bedürfnissen
angeeigneter Naturstoff. Die Arbeit hat sich mit ihrem Gegenstand
verbunden. Sie ist vergegenständlicht, und der Gegenstand ist
verarbeitet. Was auf seiten des Arbeiters in der Form der Unruhe
erschien, erscheint nun als ruhende Eigenschaft, in der Form des
Seins, auf seiten des Produkts. Er hat gesponnen, und das Produkt ist
ein Gespinst.”
Limite XXI: Muito claro. Fale um pouco mais da
relação entre o homem e a Natureza no processo de trabalho.
Limite
XXI: Meu filho, “O processo de trabalho, decomposto como acima nos
seus fatores elementares, é ação humana com vistas à produção de
valores de uso, apropriação de substâncias naturais para as
necessidades humanas; é a condição necessária para o efetivo
intercâmbio de matéria entre o homem e a Natureza; é a condição da
existência humana imposta de por sempre pela Natureza, e portanto é
indiferente de qualquer fase social dessa existência, ou melhor, é
comum a cada uma dessas fases. Não era, portanto, necessário
apresentar o nosso trabalhador na sua conexão com outros
trabalhadores, o homem e seu trabalho de um lado, e a Natureza e seus
materiais do outro, era suficiente.” Ou na minha
língua: “Der Arbeitsprozeß, wie wir ihn in seinen einfachen und
abstrakten Momenten dargestellt haben, ist zweckmäßige Tätigkeit zur
herstellung von Gebrauchswerten, Aneignung des Natürlichen für
menschliche Bedürfnisse, allgemeine Bedingung des Stoffwechsels
zwischen Mensch und Natur, ewige Naturbedingung des menschlichen
Lebens und daher unabhängig von jeder Form dieses Lebens, vielmehr
allen seinen Gesellschaftsformen gleich gemeinsam. Wir hatten daher
nicht nötig, den Arbeiter im Verhältnis zu andren Arbeitern
darzustellen. Der Mensch und seine Arbeit auf der einen, die Natur und
ihre Stoffe auf der andren Seite genügten...”.
Limite
XXI: Até aqui seus conceitos, na forma como o Senhor os explicitou em
1867, estão muito claros. Mas agora gostaria de ouvir a sua opinião
sobre a forma em que uma concepção do processo de trabalho
supostamente inspirada na sua é aplicada no caso do processo de
trabalho no serviço social. Gostaria de deixar em claro que esta
concepção é apenas de uma determinada corrente que
audaciosamente se declara “marxista”.
Minhas dúvidas são em relação aos conceitos vertidos no trabalho
Cardoso, Isabel C.C. et. al., “Proposta
básica para o projeto de formação profissional –
novos subsídios para o debate”, publicado no Caderno ABESS No.
7, São Paulo, Cortez Editora, p. 15-57, novembro de 1997. Vou fazer
uma citação um pouco longa, mas necessária para que o Senhor possa
apreciar a questão.
Nesse
trabalho, afirma-se o seguinte:
(Citação
I) “...foco importante deste documento é a consideração da
profissionalização do Serviço Social como uma especialização do
trabalho e de sua prática como conscientização de um processo de
trabalho que tem como objeto as múltiplas expressões da
“questão social”. A abordagem do exercício profissional como
trabalho permite recolocar as dimensões constitutivas do fazer
profissional articuladas aos elementos fundamentais componentes do
todo e qualquer processo de trabalho: o objeto ou “matéria prima”
prima sobre o qual incide a ação transformadora do trabalho, os meios
de trabalho – instrumentos, técnica e recursos materiais e
intelectuais que propiciam uma potenciação da ação humana sobre o
objeto – e a atividade do sujeito direcionada por uma finalidade, ou
seja, o próprio trabalho. Implica, ainda, atribuir visibilidade ao
produto do trabalho profissional em suas implicações materiais,
ídeo-políticas e econômicas. Focar a ação
profissional, nesta perspectiva, exige considerar as particulares
condições relações sociais historicamente estabelecidas, através das
quais o trabalho do Assistente Social se realiza, aí envolvendo os
organismos empregadores (públicos e privados) e os “usuários” dos
serviços prestados; os recursos materiais, humanos e financeiros
acionados para a efetivação desse trabalho; a articulação do
Assistente Social com outros trabalhadores, como partícipe do trabalho
coletivo” (p. 18)
(II)
“Verifica-se desta forma, que os elementos que compõem o processo de
trabalho são indissociáveis. A partir desta condição, os elementos
teóricos, a orientação político ideológica
e os aparatos técnicos são acionados como meios que estabelecem
finalidades à ação e como instrumentos de trabalho que convergem para
um campo de objetivos, planejados como resultados sobre o objeto da
atuação do Serviço Social.” (p.31)
(III)
“Efetuada esta demarcação teórica e política chegamos a um ponto
central no estudo do processo de trabalho do Serviço Social:
historicamente, o valor de uso da força de trabalho do Serviço Social
está relacionado às necessidades de controle e
disciplinamento da reprodução social da força de trabalho. Este
conteúdo, por sua vez, articula-se às demandas postas pelo processo de
acumulação capitalista e pelo movimento de reprodução das condições
objetivas e subjetivas da vida social, que se expressam na
constituição e organização do campo das políticas sociais.” (p.34)
(IV)
“Para além de nosso acervo crítico, a interpretação sobre o processo
de trabalho não pode se desvincular do movimento do real, sob pena de
se autonomizar em uma esfera ideal.”
(p.35)
e:
(V) “Ao
nos voltarmos para a realidade social brasileira, identificamos que a
chamada “questão social” se apresenta ao
Serviço social previamente organizada social e institucionalmente.
Assim, o Assistente Social é chamado a atuar sobre áreas ou campos
específicos de necessidades sociais que se segmentam a partir de
critérios como o recorte de uma política social – saúde, habitação,
assistência, etc. – ou de uma dada população alvo – como criança,
adolescente e idoso. Estes critérios, ao se
intercruzarem, conferem novas mediações para o trato da questão
social no plano institucional, abrindo campos ou programas específicos
como saúde da mulher, assistência ao idoso, entre tantos exemplos.”
(p.35)
(VI) “O
objeto da atuação profissional é também um objeto de atuação
institucional que funda a legitimidade e o reconhecimento dos próprios
estabelecimentos empregadores do Serviço Social.” (p. 36)
Limite
XXI: Etc. etc...acho que com estas citações o senhor já poderá ter uma
idéia do que estamos falando...
KM: Tenho
sim. Perfeitamente. Posso responder a isso tudo?
Limite
XXI: Um momento por favor. Vejo que o senhor está um tanto inquieto na
sua cadeira e parece até irritado....mas peço um pouco mais de
paciência porque tem mais....
KM:
Mais!? Ainda tem mais?!
Limite
XXI: Sim. Calma por favor. As seguintes citações são de outro texto:
Barbosa, Rosangela N. C. et al.: “A
categoria `processo de trabalho´ e o trabalho do assistente social”.
Revista Serviço Social e Sociedade, no. 58, São Paulo, Cortez Editora.
Novembro 1998, p. 109-130.
Ao
contrário do anterior, este trabalho pelo menos começa (p.109) com uma
dúvida, em relação ao âmbito de aplicação do conceito “processo de
trabalho”, assinalando o fato de que, segundo os autores,
(VII)
“...poucos estudos sobre essa temática se dirigem a outras modalidades
do trabalho humano.” E imediatamente a seguir perguntam-se:
(VIII)
“ ...até que ponto ela seria reveladora da
impossibilidade da extensão do conceito a outras realizações
laborativas ou se a sua construção social
desviado as investigações para teria determinados fenômenos
específicos, deixando ao largo outras tantas manifestações sociais de
trabalho humano.” (p.110) Não ligando para o sinal vermelho aceso, os
autores nos informam que estão
(IX)
“...amadurecendo a hipótese de que é possível, em sentido heurístico,
recuperar o conceito de processo de trabalho e tomá-lo como referência
para a compreensão do trabalho do assistente social” (p.110).
Até aqui,
tudo bem, já que a sociologia do trabalho e a sociologia das
organizações há bastante tempo vêm se ocupando destes temas. Não sei
se o senhor já teve tempo de ler alguns desses materiais....
KM: Já li
muita coisa, mas depois daquele rapaz, Taylor, a discussão
complicou-se....mas vamos em frente. Onde você quer chegar, meu jovem?
Limite
XXI: Na página seguinte...(risos). Aí eles nos informam que a
concepção de processo de trabalho que vão utilizar para analisar o
caso dos assistentes sociais....é a sua!
KM: O
quê? Eles falam isso com todas as letras?
Limite
XXI: Noto que seus cabelos estão ficando em pé. Mas deve levar em
conta que o senhor participa da “direção social do curso” ....(risos)
KM:
Depois você me explica isso da direção não sei de quê....vamos ver
agora o que eles estão fazendo com minha concepção do processo de
trabalho....
Limite
XXI: Muito bem. Eles dizem o seguinte:
(X) “A
disciplina profissional se desenvolve, então, direcionada para grupos
populacionais carentes de modos próprios de reprodução e de formas de
acesso a serviços públicos e privados que respondam às necessidades de
sobrevivência no contexto urbano-industrial. Por essa condição, possui
um amplo e difuso campo de intervenção circunscrito ao trato com a
legislação social, a rede institucional, os mecanismo de acesso e
restrição dos segmentos sociais aos institutos de regulação social, e,
ainda, às ações de caráter imaterial voltadas para a mobilização de
valores e comportamentos no universo das relações sociais em que a
população demandante está inserida....” (p.110)
KM: e
pretendem que minha concepção do processo de trabalho dê conta de isso
?!
Limite
XXI: Exatamente! Veja:
(XI) “E
primeiro lugar, é preciso que se diga que o trabalho é aqui
compreendido como processo social de transformação que visa atender
necessidades sociais de reprodução humana. Manifesta-se como categoria
central para a compreensão das diferentes formas de sociedade e
apresenta determinado feixe de elementos passíveis de constituírem, de
forma simples e abstrata, o trabalho humano em geral. Tal conceito,
desenvolvido por Marx, se revela primeiramente pelos elementos físicos
– energia e transformação, que, colocados sob um mesmo processo de
submissão à ação humana, provocam mudanças em objetos – de
“algo antes em outro algo” elaborado depois deste consumo de
energia. Trabalho então apresentado sob a forma de processo, conduzido
pelo homem por intermédio dessas ações mediadas pelo gasto de energia
e fundamentalmente orientadas pelas necessidades sociais inerentes à
reprodução humana...Essa atividade orientada a um fim ou o trabalho
mesmo é um dos elementos simples centrais do conceito de processo de
trabalho seguido do próprio objeto e seus meios. (Marx, 1988:142-7)”
KM:
Tá bom, tá
bom! Já temos o suficiente...
Limite
XXI: Só mais algumas citações, para encerrar...Falta
a parte em que os representantes da
“corrente hegemônica” modificam seu conceito de trabalho para
“adaptá-lo” às necessidades de uma análise do processo de trabalho no
caso do serviço social, num raciocínio que, eu acho, não resiste ao
mais elementar dos questionamentos. Veja, nesse mesmo trabalho,
afirma-se que:
(XII)
“Então, para avançar nessa análise, urge recolocar o conceito de
processo de trabalho em novos termos. Se aquela natureza geral do
processo de trabalho era passível de ser operada na relação simples de
transformação entre sujeito, objeto e instrumentos tendo em conta um
produto, sob o capitalismo o trabalho e seu processo respondem às
exigências características do seu sistema de dominação baseado na
propriedade do trabalho por parte do capitalista e o conseqüente
controle sobre o modo de trabalhar, e, na propriedade sobre o produto
que deixa de responder somente a necessidades sociais de reprodução
(valor de uso) e adquire valor de troca por meio da transformação da
força de trabalho e do produto em mercadorias. Por isso, para Marx o
processo de trabalho e o processo de formação de valor constituem uma
unidade no processo de produção capitalista e aquele não pode ser
apreendido em suas particularidades apenas por seus elementos simples
- objeto, meios e finalidade. Na medida em que são apreciadas as
relações sociais que atravessam o processo de trabalho nos diferentes
contextos históricos – as relações entre trabalhadores, destes com o
patronato, as condições técnicas, sociais e políticas em que o
processo de trabalho se desenvolve, enfim, o modo como é
garantido a partir de certos processos de trabalho
essa valorização ao capitalista.” (p.112-113) Aqui temos uma
nota de rodapé, que diz o seguinte: “2. No primeiro volume de O
capital, Marx se dedica exatamente a demonstrar como os processos de
produção são permanentemente transformados no capitalismo tendo em
vista a busca incessante pela acumulação. Mudanças necessariamente
ocorrem por meio de um dos fatores da produção, o processo de
trabalho, onde se realiza o trabalho mesmo, fonte geradora de valor e
condição da acumulação.”(p.113)
KM: Olha,
melhor para por aqui, eu já tenho elementos mais do que suficientes
para responder suas dúvidas...e isto está ficando muito longo, depois
para transcrever esta entrevista não vai ser fácil...
Limite
XXI: Certo. Termino com as seguintes citações, do mesmo texto:
(XIII)
“Por esse campo de análise é razoavelmente perceptível que nossas
investigações se ocupem com a análise do trabalho do assistente social
enquanto processo laborativo interado na
arquitetura do trabalho capitalista e no seu processo de dominação
social, ....o trabalho do assistente social se dirige, no âmbito da
divisão social do trabalho, para a obtenção de efeitos específicos
sobre as práticas sociais....Daí decorre a interpretação
suficientemente difundida de que o trabalho do assistente social é
requerido como especialidade da divisão
sóciotécnica e na forma assalariada para responder às
estratégias de dominação burguesa no enfrentamento das questões
sociais que emergem da diferenciação e conflito das classes sociais (Iamamoto,
1994; Iamamoto e Carvalho, 1983;
Netto, 1991; Faleiros, 1987).”(p.113).
Paro por
aqui. Agora é a sua vez...
KM: Um
momento! Será que você está pretendendo que eu entre numa fria? Eu não
sou assistente social, e segundo os termos da Lei 8662/93, que
regulamenta o exercício dessa profissão, Art. 15:
“ É vedado o uso da expressão "Serviço Social" por quaisquer
pessoas de direito público ou privado que não desenvolvam atividades
previstas nos arts. 4º e 5º desta Lei.”
Você mesmo já foi publicamente ameaçado com um processo....!
Limite
XXI: Nossa! Vejo que o senhor está muito bem informado....Mas, penso
que dificilmente eles assumiriam o ônus de processá-lo, muito mais
tratando-se apenas de uma reencarnação...o
senhor tem privilégios que eu não tenho.
KM: Muito
bem. Vamos lá. Vejo que você tem seguido razoavelmente minha distinção
entre método de pesquisa e método de exposição... Eu vou fazer a mesma
coisa, e começar pela sua citação (VIII). Acho que eles ultrapassaram
o sinal vermelho! Como você tem colocado, minha análise do processo de
trabalho implica numa relação entre o homem que trabalha e a Natureza.
Uma relação (Stoffwechsel) entre o
homem e o objeto de seu trabalho. Vou lhe dar um exemplo. Quando
o Lula era torneiro mecânico, ele tinha
como objeto de trabalho, digamos, uma barra de ferro. Ele não
trabalhava diretamente sobre a Natureza, mas sobre matéria extraída
dela através de processos de trabalho anteriores que a tinham
transformado em matéria prima....Relendo minhas citações você
entenderá perfeitamente o que estou querendo dizer...
Limite
XXI: Certamente. Por isso então “...poucos estudos sobre essa temática
se dirigem a outras modalidades do trabalho humano” como eles
verificam. Para estudar essa temática em outras modalidades precisamos
de outros paradigmas, outras abordagens, que respeitem a
especificidade do objeto...
KM:
Exatamente. Além do mais, observando agora sua citação (IX),
certamente é possível (e absolutamente necessário, como toda a
literatura da burguesia que está aí faz sem precisar de
grandiloqüentes declarações) utilizar o
conceito processo de trabalho para analisar o trabalho do assistente
social ou de qualquer outro trabalho. O problema é que, NEM NUM
SENTIDO HEURÍSTICO é possível utilizar MINHA concepção do processo de
trabalho, a concepção de processo de trabalho que eu utilizei no
Capital, para analisar o trabalho do assistente social...!
Limite
XXI: Isso é importante. Explique isso um pouco melhor....
KM: É o
seguinte: há usos heurísticos de determinados conceitos que são
perfeitamente válidos, e outros que são diretamente absurdos. Como
exemplo de um uso válido eu citaria aquele trabalho do historiador
inglês, E. P. Thompson, que utiliza o conceito de classe numa
sociedade que não tem classes...lembra? “Luta de classes sem classes”.
Isso é sério.
O que é
absurdo? Absurdo é por exemplo um biólogo querer analisar as
interações entre as células utilizando os conceitos da mecânica de
Newton, e supor que os conceitos que valem para as interações entre
duas bolas de sinuca são “heuristicamente válidos” para descrever
complexidade das interações entre duas células...Aposto que você não
encontra um único trabalho na literatura científica que faça isso.
Implica num desconhecimento absoluto da especificidade do objeto, das
características que o constituem como tal....
Limite
XXI: Então é por isso que o senhor acha absurdo o uso “heurístico” que
a corrente hegemônica faz do seu conceito de processo de trabalho?
KM: Olha,
o problema está no objeto do trabalho. No meu caso, eu analiso essa
relação “metabólica” do homem com um objeto inanimado, que seguirá
inanimado mesmo depois de transformado em matéria prima. Quais os
“objetos de trabalho” do assistente social? Eu diria, muito
rapidamente, a partir dos elementos que você me deu, que são de dois
tipos: pessoas e informações.
Limite
XXI: O senhor fala de forma muito clara. Isso me lembra o
Perry Anderson quando afirma que o
“marxismo acadêmico” se exprime de uma forma tão obscura que ninguém
entende, nem o senhor....
KM: Isso
mesmo. Às vezes fico mudo....como diz o Perry!
Mas vamos voltar ao nosso problema. Veja, jamais na minha análise do
processo de trabalho estavam contemplados objetos dessas
características. A relação do meu trabalhador era, direta ou
indiretamente, com a Natureza. Jamais com objetos que, como as
pessoas, não apenas são portadoras de uma subjetividade como que são
capazes de desenvolver, digamos....estratégias. Também não eram
“informação”, para denominar em forma genérica “...áreas ou campos
específicos de necessidades sociais que se segmentam a partir de
critérios como o recorte de uma política social...” como essa corrente
fala. Já imaginou a barra de ferro que Lula trabalhava com uma
subjetividade própria e desenvolvendo estratégias? Já imaginou o meu
objeto de trabalho sendo “informação” resultado de determinadas
relações de poder que se processam no âmbito da política?
Limite
XXI: O senhor jamais pensou que a relação entre o trabalhador e o
objeto de seu trabalho fosse a relação entre duas ou mais
subjetividades....
KM:
Jamais! Se tivesse pensado nesses termos, o Capital jamais teria sido
escrito!
Limite
XXI: Então, quando essa corrente afirma que “o objeto de intervenção
do Serviço Social são as manifestações da questão social”, e
pretende-se analisar esse objeto com sua concepção do processo de
trabalho estamos perante um absurdo metodológico?
KM:
Perante um DUPLO absurdo! Em primeiro lugar, jamais objeto nenhum vai
se apresentar ao trabalhador no balcão com um crachá que diga
“manifestação da questão social tal e tal”. E em segundo lugar, os
objetos que realmente se apresentam ao trabalhador social, pessoas e
informações, jamais foram objeto da minha reflexão
quando analisei o processo de trabalho...
Limite
XXI: Mas essa concepção não é produto de uma limitação na forma em que
estamos discutindo aqui com o senhor o processo de trabalho? Eles
afirmam que “...para Marx o processo de trabalho e o processo de
formação de valor constituem uma unidade no processo de produção
capitalista e aquele não pode ser apreendido em
suas particularidades apenas por seus elementos simples - objeto,
meios e finalidade.” ( Citação XII)
KM: Aí
está! Isso é o que ELES afirmam, mas não é o que EU afirmo! Agora vejo
porque você me perguntou minha opinião acima....Eu vou repetir, agora
na sua língua (bom, você é estrangeiro, na língua que eles
entendem...) O que EU disse foi que “O processo de trabalho,
decomposto como acima nos seus fatores elementares, é ação humana com
vistas à produção de valores de uso, apropriação de substâncias
naturais para as necessidades humanas; é a condição necessária para o
efetivo intercâmbio de matéria entre o homem e a Natureza; é a
condição da existência humana imposta de por sempre pela Natureza, e
portanto é indiferente de qualquer fase social dessa existência, ou
melhor, é comum a cada uma dessas fases. Não era, portanto, necessário
apresentar o nosso trabalhador na sua conexão com outros
trabalhadores, o homem e seu trabalho de um lado, e a Natureza e seus
materiais do outro, era suficiente.”
Limite
XXI: Ou seja, na sua análise o senhor sequer está levando em conta a
organização do trabalho...
KM: Eu
estava interessado no processo de trabalho na sociedade capitalista,
estudando uma relação com um determinado tipo de objeto, no caso do
trabalho fabril manual. A emergência de outros tipos de objetos de
trabalho nunca teve para mi características de centralidade...è óbvio
que se precisa de uma reflexão com um paradigma que respeite as
especificidades desses novos objetos...Além do mais, essa corrente
coloca a questão nesses termos para poder introduzir essa que eles
chamam de “...interpretação suficientemente difundida de que o
trabalho do assistente social é requerido como especialidade da
divisão sóciotécnica e na forma
assalariada para responder às estratégias de dominação burguesa no
enfrentamento das questões sociais que emergem da diferenciação e
conflito das classes sociais.”
Para
afirmar isso, eles se apóiam em grandes autoridades, como Isaac
Newton, sobre os “ombros de gigantes”, citando
Iamamoto, 1994; Iamamoto e
Carvalho, 1983; Netto, 1991; Faleiros,
1987, etc. etc. etc. E, a partir dessa “interpretação suficientemente
difundida”, utilizam sem qualquer rigor meus conceitos de valor de
uso, trabalho assalariado como mercadoria, etc., etc.....Nas suas
citações fica bastante claro.
Limite
XXI: Eu estou com muitas dúvidas em relação às análises que a
“corrente hegemônica” faz sobre esse ponto...e gostaria muito de ouvir
uma crítica sua sobre as conclusões que eles acreditam tirar daí...
KM: Acho
que em relação ao uso das minhas concepções, eles pensaram
ficar famosos como
Eróstrato, que para isso queimou o templo de Zeus...Veja, em
primeiro lugar, a crítica que deve ser feita é uma crítica interna. Ou
seja, pegar as afirmações feitas por essa que você sempre chama de
“corrente hegemônica” e ir até as últimas conseqüências. Na sua
citação (II) há uma frase, que está destacada em itálica pelos
autores, que é um excelente ponto de partida. È a seguinte:
“...historicamente, o valor de uso da força de trabalho do Serviço
Social está relacionado às necessidades de controle e
disciplinamento da reprodução social da
força de trabalho.” Lembra dela? Muito bem, vamos lá. Vamos precisar
de alguns recursos do meu método, que, como você imagino que sabe, é
dialético.
Limite
XXI: Concordo. Mas não vejo onde o senhor quer chegar...
KM: Em
primeiro lugar, ao seguinte. Se definimos o
valor de uso da força de trabalho do assistente social em relação
“...às necessidades de controle e disciplinamento
da reprodução social da força de trabalho”, como essa sua corrente
afirma, isso significa que, caso essa força de trabalho não controle e
discipline, seu valor de uso para o capitalista será zero, não é
verdade?
Limite
XXI: Certo, e daí?
KM: Daí
que nos enfrentamos a uma situação inteiramente nova. Se o assistente
social é um “conscientizador” socialista e
libertário, seu valor de uso para o empregador será zero. Portanto, o
empregador tenderá a eliminar essa força de trabalho de valor de uso
igual a zero ou a reduzi-la aos níveis mínimos estabelecidos pela lei.
Na minha teoria, isso obviamente não acontecia no caso de um operário
que fosse socialista: seu valor de uso continuava a existir exatamente
igual, mesmo que incomodasse ao capitalista do ponto de vista
político. Ele poderia mandá-lo embora por ser um agitador, o um
dirigente sindical, mas nunca porque considerasse que o valor de uso
da sua força de trabalho era zero...
Limite
XXI: Entendo! O senhor explica as coisas de uma forma muito clara...
Isso exemplifica o absurdo de pretender aplicar conceitos e teorias
sem levar em conta o objeto...Estão fazendo exatamente o contrário do
que proclamam na citação (IV) “Para além de nosso acervo crítico, a
interpretação sobre o processo de trabalho não pode se desvincular do
movimento do real, sob pena de se autonomizar
em uma esfera ideal.”...
KM:
Correto. Mas lembre que a pequena burguesia nunca se caracterizou pela
sua profundidade teórica: sua extração de classe sempre a levará a
preferir as névoas de uma ideologia superficial,
autonomizando-se do real...
Limite
XXI: Eles não vão gostar de ouvir isso...Mas vamos voltar ao problema
do valor de uso do trabalho do assistente social...
KM: Muito
bem...Como você sabe, eu disse no Capital,
no Livro I, vol. I da Edição Difel de
1982, na página 50 ( cito uma edição brasileira para facilitar a sua
vida) que “Os valores de uso, casaco, linho, etc., enfim, as
mercadorias, são conjunções de dois fatores: a matéria fornecida pela
Natureza, e o trabalho.” Já o valor de uso da mercadoria trabalho é o
próprio trabalho realizado pelo trabalhador...o capitalista comprador
consome-a, fazendo o vendedor dela trabalhar....Muito bem, mas em qual
processo de trabalho estou baseando minha análise? Em qualquer um?
NÃO, apenas naquele que eu descrevi acima, até na minha própria
língua, para que não fiquem dúvidas....
Limite
XXI: Entendo, um processo “Stoffwechsel”
entre homem e natureza controlado pelo comprador...
KM: Isso
mesmo! “O processo de trabalho é um processo que ocorre entre coisas
que o capitalista comprou, ENTRE COISAS QUE LHE PERTENCEM” Fui
suficientemente CLARO?? Está começando a perceber as diferenças e os
limites da MINHA concepção com essa que os que você chama de
“hegemônicos” pretendem vender como se fosse minha?
Olha, eu não compraria deles um carro usado
sem antes chamar os “Lemonbusters”....!
Limite
XXI: Pois é, estou vendo que o processo de trabalho que eles descrevem
não tem nada a ver com o processo de trabalho que o senhor analisou, e
que o valor de uso do trabalho do assistente social está relacionado
segundo eles ao problema do “controle da reprodução social da força de
trabalho”... o que também, nos termos da sua teoria, é um
absurdo...Poderia explicar isso um pouco melhor?
KM: É o
que eu disse acima. No meu processo de trabalho, o valor de uso da
força de trabalho é o trabalho mesmo e seu valor está determinado pelo
seu valor de reprodução...ou seja, é um valor que está definido no
âmbito da relação do homem com a Natureza, nesse
Stoffwechsel, metabolismo...
O que
eles estão dizendo é que o valor da força de trabalho do assistente
social “estaria relacionado” com o “controle da reprodução social da
força de trabalho”...A pequena burguesia é muito afim de
generalizações abusivas, quanto mais imprecisas melhor...Em primeiro
lugar eles não definem qual o tipo de relação que eles estão supondo
que existe. Em segundo lugar, vamos supor que EXISTA uma relação do
tipo seguinte: se o assistente social ajuda eficientemente no controle
da reprodução social da força de trabalho, seu valor de uso será
máximo. Se ele é um incompetente ou têm posições políticas que o fazem
não controlar adequadamente, seu valor de uso será zero. Ou seja, o
valor de uso do trabalho do assistente social não mais será, COMO NA
MINHA TEORIA, definido exclusivamente a partir do âmbito econômico, na
infra-estrutura. Eles estão propondo que seja definido a partir da
superestrutura! Isso NÃO TEM NADA A VER COM A MINHA TEORIA, e ainda
mais, eu diria que a INVIABILIZA COMPLETAMENTE. Já imaginou meu
capitalista ( e eu) calculando o valor de
uso da força de trabalho em função das posições políticas dos
trabalhadores? A complexidade seria infinita e eu não teria avançado
um milímetro....
Limite
XXI: Mas eles não aplicam isso para todos os trabalhadores, apenas
para os assistentes sociais..
KM: Já
entendi isso. Mas eu sempre me ocupei com absoluta centralidade dos
trabalhadores manuais...e os “hegemônicos” cometem um absurdo
metodológico quando pretendem aplicar mecanicamente minha teoria....O
processo de trabalho do assistente social NÃO PODERÁ SER ENTENDIDO EM
TERMOS DA MINHA TEORIA COMO EU A FORMULEI N’O CAPITAL, SEM LEVAR AOS
ABSURDOS METODOLÓGICOS QUE ANALISAMOS....Minha teoria não se aplica
sem mais aos assistentes sociais, e a teoria que poderia ser aplicada
aos assistentes sociais NÃO É A MINHA.... Eu sabia que essas
profissões intermediárias da pequena burguesia só poderiam acabar como
eu coloquei na “Miséria da Filosofia”: realizando uma análise sem
rigor nenhum, nos termos de “por um lado...e, por outro lado...”. O
problema aparece quando alguém percebe que os dois lados são
teoricamente incompatíveis....
Mas antes
de eu esquecer, gostaria de salientar que temos percorrido apenas uma
parte do caminho analítico...obviamente, como você sabe, não podemos
deixar de analisar o processo de trabalho do ponto de vista do seu
produto, assim como também não podemos deixar de analisar como se
incorpora no produto o valor da força de trabalho do assistente
social...Vou deixar esses temas como dever de casa para você refletir
um pouco...
Limite
XXI: Muito obrigado, mui amigo..... Mas deixa ver se eu entendi bem o
absurdo teórico dessa corrente na sua proposta de determinação
SUPERESTRUTURAL do valor de uso da força de trabalho do assistente
social...Seria mais ou menos como se no pedágio da Ponte cada um
pagasse um valor diferente em função da sua posição política...
KM: É,
mais ou menos. Seu exemplo é um tanto quanto grosseiro. Mas dá para
imaginar as filas infinitas...imagine as complicações para minha
teoria...
Limite
XXI: Isso nos leva novamente à questão dos trabalhadores não
manuais...
KM: Veja,
em primeiro lugar, eu jamais dei qualquer centralidade aos setores
encarregados das tarefas auxiliares, como administração, distribuição
ou controle da produção. Meu modelo no século XIX era – e continua
sendo, meu jovem! – dicotômico: burguesia- proletariado, as classes
fundamentais no capitalismo. Os outros setores nunca foram relevantes
para o meu modelo. E quando eu escrevi isso tinha ainda uma
justificativa empírica. Basta lembrar os Censos da Alemanha de 1882,
os dados da França de 1881, ou ainda o censo da Suécia de 1900. Além
do mais, como muito bem indica esse rapaz, o Adam
Przeworski, no século XIX , não existiam problemas quanto a
isso que agora chamam de “constituição da identidade” : como falava
aquele capitalista norueguês, “apenas pelo cheiro, a duas milhas dava
para reconhecer um bom operário...”
Limite
XXI: Você e o Engels falam disso no
Manifesto. Mas no final do século, a questão do que era realmente um
proletário já estava mais complicada, ao ponto tal de ter recebido uma
definição do próprio Friedrich na Edição
inglesa do Manifesto de 1888 numa nota de pé de página, como o
Przeworski bem lembra...
Limite
XXI: É verdade. O mundo não evoluiu como eu previa no meu
modelo....Esse é um dos pontos que estou estudando agora....realmente
quando olho no gráfico da evolução do emprego nos Estados Unidos por
setores, (agricultura, indústria e mineração e serviços, você entende)
entre 1810 e 1999 eu fico super empolgado....! Imagine, uma situação
totalmente diferente daquela do século XIX! Toda uma nova situação a
ser desvendada! Mas você deverá reconhecer que, como eu previ, e como
hoje afirma o historiador inglês
Hobsbawm, no
século passado assistimos ao desaparecimento de uma classe, a
camponesa...
Limite
XXI: Certo. Quando o senhor se refere ao século passado se refere....
KM: Ao
século XX, claro.
Limite
XXI: Nessa e muitas outras o senhor foi brilhante. Já o tema da
“constituição da identidade” é uma complicação para sua teoria...
KM: Nem
me fale! Jenny reencarnou como uma
feminista hard...e está trabalhando
num grande banco como diretora da área de aplicações.
Trata de derivativos,
swaps, opções de aplicação das mais diversas...coisas
incríveis...Aí temos altas conversas. Realmente muitas vezes me deixa
contra as cordas com esse tema da constituição da identidade...
Limite
XXI: Bom devemos convir que sua teoria
original, tal como formulada no século XIX não oferece muitas
opções....
KM:
Nenhuma, claro. Eu sei que constituí a
identidade exclusivamente a partir da esfera econômica...hoje é uma
limitação, mas estou trabalhando nisso também...
Limite
XXI: Dá para entender o desespero do “hegemônicos” quando se toca
nesses temas...
KM:
Imagino...se eu estou às voltas, não quero nem pensar como estarão
eles, que nem sequer o que eu formulei no século
XIX conseguem entender e aplicar corretamente...
Limite
XXI: Eu queria que o senhor explicasse um pouco melhor esse ponto, que
parece-me o deixa muito aborrecido...
KM:
Muito. Apenas revela que os “hegemônicos” que dizem utilizar minha
teoria sequer entenderam seus pressupostos básicos....deveriam ter
seguido o conselho que dei a Ludwig...
Limite
XXI: Ludwig?
KM: Meu
velho amigo Kuguelman. Como eu sei que a
leitura d´O Capital não é para qualquer
um, sugeri começar pelos capítulos 8, 11, 12, 13,...que são mais
descritivos, até o 24 era uma boa opção..
Limite
XXI: Bom, mas agora já era...eles escrevem e mandam escrever sem parar
...
KM:
Óbvio! No entendimento dessas pessoas, trata-se de um problema
quantitativo....não entendem a dialética entre quantidade e
qualidade...Seguramente você vai ouvir coisas como “...foram
apresentados 500 trabalhos..”, ou “...apresentei uma tese de 700
páginas...” É um raciocínio de dono de quitanda...ninguém lê, então o
que interessa é o peso do pacote, da “produção”...Típico raciocínio
unilateral da pequena burguesia....
Limite
XXI: Pois é, já as questões realmente importantes, onde os problemas
aparecem, são sistematicamente proteladas...
KM: Pense
no caso da velha União Soviética. Quantos milhões
de páginas foram dedicadas a exaltar a “ciência soviética e
proletária”? Ou em todo o aparelho de poder do Estado soviético
destinado a construir e vender como verdade as besteiras de
Lyssenko...Pense nos milhões e milhões de
volumes editados pelas academias de ciências sociais da velha URSS...O
que sobrou disso? Você citaria algum desses textos numa bibliografia?
De tudo isso, que já foi exaltado por alguns como a demonstração da
realidade do “socialismo em um único país” não sobrou absolutamente
NADA. A história poderá demorar, mas sempre apresenta a fatura....
Limite
XXI: E qual seria a abordagem que o senhor sugeriria para enfrentar o
problema do processo de trabalho do assistente social?
KM: Olha,
alguma das que estou estudando no momento. Alguma que leve em conta
adequadamente as especificidades tanto do
processo de trabalho do assistente social como seu objeto no contexto
do capitalismo do século XXI. Para mim, no século XIX, esse seria pura
e simplesmente trabalho improdutivo. Hoje as coisas mudaram. Como diz
esse rapaz, o Chico de Oliveira, a própria história transformou essa
discussão em bizantina. Minha conclusão, quase óbvia, é que a minha
própria teoria não pode ser considerada de forma metafísica, deve ser
considerada cuidadosamente na sua historicidade. Mas isso é
complicado. Como disse o Braudel,
“ as idéias são cárceres de longa duração”
. Se alguma coisa a pequena burguesia tem é conservadorismo e vontade
de poder, projetos pessoais disfarçados sob as mais diversas
roupagens, incluindo as da minha velha teoria...
Limite
XXI: È verdade que , como o senhor disse, a história acaba
apresentando a fatura...Mas no presente... essa situação nos leva a um
beco sem saída...como vai o assistente social tratar da questão social
nas suas múltiplas manifestações como a “corrente hegemônica” quer se
ao mesmo tempo reduz seu valor de uso a zero ao adotar essas posições
políticas? Onde que vai arranjar emprego?
KM: Para
responder a sua pergunta preciso retomar o
que estava dizendo antes. Quando falamos do comprador da força de
trabalho do assistente social, precisamos especificar se pertence ao
setor privado ou ao público. Falando com rigor, o raciocínio acima
apenas se aplica aos empregadores do setor privado. O assistente
social não é contratado para discutir a política “social” da empresa:
é contratado para aplicá-la, ou para participar na sua elaboração
seguindo os critérios da empresa; única situação em que o valor de uso
de sua força de trabalho será positivo. Da incompreensão desta
situação originam-se todos os que se denominam
eufemísticamente “problemas da relação teoria-prática” no
serviço social. Ou seja: existe para as concepções da sua “corrente
hegemônica” um problema objetivo que se deduz da aplicação da minha
teoria do valor que obviamente não terá solução organizando seminários
para tratar do tema.
No âmbito
público as coisas são muito diferentes. Não se aplica aqui qualquer
“racionalidade capitalista” como seria entendida no âmbito da empresa
privada. Em primeiro lugar, pela existência da estabilidade dos
funcionários públicos. Como você sabe, o âmbito público é de uma
grande complexidade. Há as empresas estatais, as fundações, as
universidades públicas, todas as instituições do governo nos
diferentes níveis, etc. etc. A orientação política das políticas
públicas resolve-se numa multiplicidade de construções de hegemonias
operadas aos mais diferentes níveis. As instituições públicas convivem
com situações nas quais o valor de uso da força de trabalho de
determinados funcionários para uma dada orientação política hegemônica
é zero com muita naturalidade.
Desculpe
se lhe apresento uma caricatura de uma aplicação de meu método. Isto
deveria ser
objeto de
uma reflexão específica mas acredito que hoje não há espaço para
isso...
Limite
XXI: Certo. Mas segundo o que o senhor está colocando, se levarmos até
o fim o “raciocínio” da “corrente hegemônica” a esperança de emprego
dos assistentes sociais está no setor público...
KM: Como
tendência, sim. E você entende o que eu quero significar quando falo
em tendência...alguma outra pergunta?
Limite
XXI: Não. Essas suas análises sobre a completa inaplicabilidade de sua
concepção do processo de trabalho nos termos pretendidos pela
“corrente hegemônica” e suas conclusões tiradas das próprias
afirmações da corrente merecem serem pensadas com mais calma...que
toda uma suposta “construção teórica” que carece de qualquer
fundamento na sua teoria seja aceita com tamanha naturalidade me deixa
um pouco pasmo...
KM: Leve
em conta o seguinte. Não oriente suas dúvidas sobre essa
auto-denominada “corrente hegemônica”
apenas sobre o tema da inconsistência lógica dos seus argumentos ou da
fidelidade com minhas concepções. Pense no projeto de poder que eles
articulam, na construção de um projeto hegemônico, pense na extração
de classe dessa corrente. Esta concepções aposto
que se originam na pequena burguesia acadêmica ou em funcionários
públicos. Lembre o que eu disse: “...assim como na vida privada se
diferencia o que um homem pensa e diz de si mesmo do que ele realmente
é e faz, nas lutas históricas deve-se
distinguir mais ainda as frases e as fantasias dos partidos de sua
formação real e de sus interesses reais, o conceito que fazem de si do
que são na realidade.” E, como andou dizendo por aí um rapaz
contemporâneo seu, a verdade é uma construção política, uma construção
do poder, e para usufruir dela é necessário também saber “montar o
esquema”, como dizem aqui...
Sempre
vão existir “nichos ecológicos” que permitam às velhas concepções
burocráticas e autoritárias sobreviver...e eles apostam em que as
pessoas vão acreditar por muito tempo o que eles estão falando, e como
são “desavisados” nunca vão pesquisar meus textos originais...Você
acha que tem muitos fazendo o que Limite XXI está fazendo?
Limite
XXI: Bom, sabemos que muita gente está lendo a nossa página na
Internet, deixando seu email para contato,
pedindo os textos...
KM: É,
realmente a rede é uma coisa fantástica, que a
burguesia até hoje não consegue controlar totalmente...mas,
como imagino que você sabe perfeitamente, isso também não garante – e
sequer sabemos se ajuda ! - que o percurso entre a “classe em si” e a
“classe para si” seja realizado...
Limite
XXI: Certamente, mas eu pediria ao senhor para parar por aqui.
Gostaria de poder voltar para continuar esta conversa....
KM: Com
todo prazer. Telefona antes para avisar. Jenny
vai adorar conversar com você. Mas prepare-se para ser massacrado...
Limite
XXI: Muito obrigado! Mas por enquanto prefiro conversar apenas com o
senhor. Muito obrigado de novo e até a próxima!
(Escutam-se ao fundo algumas rajadas de AR-15)
KM: Isso
não existia quando eu trabalhava em Londres...Mas, as coisas mudam, e
muito mais nestas periferias do capitalismo... Tome cuidado na volta.
Olha que por aqui em Bonsucesso também às vezes aparece uma “corrente
hegemônica” que fala “ `tá
tudo dominado” , e a gente dança! Até a próxima.