Entre a fé e a pós-modernidade

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A e a pós-modernidade: parceiros na crise da auto-denominada “corrente hegemônica” no Serviço Social no Brasil

  

Emilio E. Dellasoppa

Professor Adjunto, FSS/UERJ

Maio 2004

 

 

Introdução

 

« É a , portanto, a substância das coisas que se aguardam, a demonstração das coisas que não se vêem » (Hebreus, 11 : 1. La Santa Biblia. Versión de Cipriano  de Valera. Depósito Central de la Sociedad Bíblica. Madrid. 1915. p. 221)

 

 

Pode ser solidamente estabelecida, a partir da recuperação e análise da vasta bibliografia existente sobre o conceito de classe ( Marx, Weber, Poulantzas, Bottomore, Milliband, Wright, etc. etc.) a umbilical vinculação da profissão Serviço Social com as classes ou camadas médias da sociedade brasileira, fundamentalmente do setor público.

Também pode ser solidamente estabelecida, a partir de uma bibliografia que vai se avolumando [1],  a umbilical relação entre o necessário caráter pequeno-burguês do projeto da pequena burguesia acadêmico-sindical no serviço social no Brasil, (que se concentra  na autodenominada   corrente hegemônica), e sua ideologia explícita, resumida no projeto ético-político (PEPO). Isto caracteriza uma “pequena burguesia fora do lugar”, parafraseando uma feliz frase de Roberto Schwarz .

 Também pode ser solidamente estabelecido, a partir de uma análise de textos fundamentais da corrente hegemônica, a fragilidade – e os erros, muitos deles evidentes – da produção teórica da corrente: começando pela a fundamentação ontológica em conceitos que não existem na realidade, a recuperação do utopismo messiânico e até da , a pretensão de representar “o ponto de vista do proletariado” , que, inconsciente mas  pós-modernamente reconhecem comosubjetivo” , até a mistura sem qualquer critério de conceitos filosóficos, epistemológicos e empíricos. Ou ainda a insólita verificação empírica de conceitos filosóficos, como o de mediação,  e a avaliação de tendências por pessoas que não conhecem os elementos básicos da estatística, etc.

 Decorrente do anterior, e como uma característica do pequeno burguês teórico solidamente fincada na sua existência material - como Marx assinalara na Miséria da Filosofia - (professores universitários e burocratas de sindicatos do setor público, e dos serviços sociais e culturais), está solidamente estabelecido o eclecticismo da corrente, onde se mistura Marx e Engels, Stalin e Trotsky, Mandel e Lukács, Gramsci e Harvey, Che Guevara  e os  epígonos do declínio do marxismo.

 Também pode ser solidamente estabelecida, a partir da observação empírica, realizada nos últimos anos, a umbilical relação entre a manutenção do capital cultural obsoleto da corrente e o esquema , ou seja a prática política baseada no patrimonialismo, clientelismo, e a política do favor, e o endogenismo, resumido isto tudo na frase brasileira Aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei.

 E a classe? Falta uma auto-análise de classe Mais uma expressão de um autêntico projeto da pequena burguesia

 O atual projeto de reformulação curricular apresentado na Faculdade de Serviço Social da UERJ é uma peça muito interessante e que merece uma reflexão, que poucas vezes teremos uma amostra mais acabada das fragilidades evidenciadas no processo de reprodução social e de defesa de uma capital cultural obsoleto por parte de uma camada muito específica da pequena burguesia. Embora entre a última revisão curricular (as ementas datam de 1992) e o presente o mundo parece ter sofrido muitas mudanças, a pequena burguesia acadêmica que constitui a autodenominada corrente hegemônica no serviço social continua vivendo os mesmos condicionamentos intelectuais dos anos setenta, firmemente fincadas suas raízes no século XIX.

 

Não que tenham faltado advertências, algumas muito fortes, originadas em personagens importantes. Mas, como afirma o ditado espanhol, “não tem surdo pior do que aquele que não quer ouvir” ( ou será que não pode ouvir?) . Às vezes este fenômeno tem características coletivas. Lembro aqui a palestra de Perry Anderson, no último seminário “Pós-Neoliberalismo III”  na UERJ. Aqueles que estiveram devem lembrar que, para espanto da platéia e dos comentadores na mesa, ele desmitificou com precisão cirúrgica o que se pensava como o projeto do governo da Silva, a famosaesperança que venceria o medo”, analisando friamente as experiências históricas da esquerda mundial. E foi lembrando que, uma a uma, tinham adotado um realismo econômico e político radical, e que se caracterizaram por uma clara continuidade com as políticas ditas “neoliberais” aplicadas por aqueles que as tinham precedido. No seu texto Retomadas, Anderson fala do mundo atual para aqueles que possam ouvi-lo. Leitura interessante.

 

 

Mudanças brutais, apenas notadas pela pequena burguesia

 

“E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias, foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet,...como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido.” (Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

 

O mundo dos anos setenta não existe mais. As condições materiais de existência de muitas correntes marxistas desmancharam-se no ar. Perry Anderson escreveu:  “Para a maioria dos estudantes de hoje, nomes como Bebel, Bernstein, Luxemburgo, Kautsky, Jaurès, Lukács, Lenin, Trotsky e Gramsci se tornaram tão remotos como uma lista de nomes de bispos do arianismo...A maior parte do corpus do marxismo ocidental saiu de circulação...O que sobreviveu é o que tem menor centramento em política, ou seja, essencialmente, as teorias frankfurtianas do pós-guerra e ensaios selecionados de Benjamin.” Apesar de reconhecer em muitos autores uma perpetuação dessas tradições, “...com marcante vitalidade...” o autor reconhece ao mesmo tempo que “...é inconcebível forçar uma unificação de paradigmas para eles.” ( Perry Anderson: Retomadas. In: Sader, E. (org) ContraCorrente. Rio de Janeiro, Record, 2001. p. 17-43).

 

Acredito que esse conjunto de obras clássicas do marxismo ocidental é hoje desconhecido não apenas para os alunos, mas para todo um conjunto de membros da autodenominada corrente hegemônica que foram socializados na leitura dos comentadores dos comentadores dos clássicos....e seus epígonos.  O alunos perceberam isso. Eles falam: “Professor, todo mundo cita Marx, mas a gente nunca os textos dele.” Certo. Eles lêem os comentadores de Marx, ou melhor, o que os comentadores da pequena burguesia enxergaram em Marx através das névoas da sua condição de classe, presos às suas câmeras escuras. Por isso, o ano passado preparei uma apostila com um conjunto de textos de Marx comentados: “O cego e a câmera escura, sinalizando os erros mais grosseiros dos comentadores da ADCHSS, e os temas tabu que não querem discutir nem ouvir falar.

 

Entre esses textos, inclui uma longa reportagem a Fidel Castro, realizada em abril de 2003 por uma jornalista argentina da revista Tres Puntos. Nela, Castro afirmava (era a manchete da reportagem) queHoy no hay condiciones para el socialismo” (“Hoje não existem condições para o socialismo”), fórmula que de alguma forma sintetiza todas as mudanças que aconteceram nestes últimos trinta anos que a pequena burguesia não consegue enxergar. Distribui a reportagem, também para o CA. Sugeri o debate sobre estas questões, que parecem ser importantes. Silêncio total, expondo a fragilidade teórica e política da auto-denominada “corrente hegemônica”. Será que a pequena burguesia percebe que o mundo mudou muito a partir de 1989, e o significado da crise dos socialismos?

 

 

Um ponto positivo: eliminação (parcial) de bibliografia problemática (sem autocrítica)

 

Surdez, silêncio e fragilidade: o contexto da reformulação curricular da pequena burguesia acadêmica. Mas, mesmo neste contexto, será que existem elementos de perestroika e glasnost ? Aparentemente, existem. Por exemplo, podemos verificar a eliminação, da bibliografia apresentada no projeto de reformulação curricular, de dois textos de José Paulo Netto: Ditadura e Serviço SocialCapitalismo Monopolista e Serviço Social. Também não foram incluídos estes textos no edital do concurso para professor adjunto, 40 horas, do Departamento de Política Social da FSS/UERJ.

 

Outra ausência bem vinda é “As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen”, apêndice originado também nos anos setenta e que sobrevivia apenas nos nichos ecológicos das Faculdades de Serviço Social do Brasil. Outra amostra de como é difícil para qualquer classe, e muito mais para a pequena burguesia atualizar o capital cultural necessário e imprescindível para garantir sua reprodução social. Resulta até curioso, mas, na Argentina, por exemplo, resulta quase impossível achar alguém que sequer conheça o livrinho.

Para aqueles que não lembram, ou que passaram pelo texto como quem o catecismo, o autor, representante do utopismo messiânico, não duvida em afirmar que acreditar na “superioridade” e portanto na “verdade” do “ponto de vista do proletariado” é uma questão...de !

 

Estes dois conjuntos de proposições são demonstráveis cientificamente? Advém de análise empírica de fatos? Sim e não. Sim, na medida em que se pode, até certo ponto, deduzi-los da condição objetiva do proletariado na sociedade capitalista e da experiência histórica de suas lutas revolucionárias. Não, na medida em que eles são aceitáveis apenas para os que optaram, para os que tomaram posição em favor do proletariado e de seu ponto de vista. Em outros termos, eles contêm um núcleo irredutível de , ou, mais precisamente, de aposta histórica sobre o papel emancipador do proletariado, sobre sua vocação universal e redentora” .”  ( Michael Löwy: As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. Editora Busca Vida, São Paulo, 1987, 3a. Ed., p. 201)  ( Itálicas do autor, EED)

 

A definição de foi fornecida acima, em termos bíblicos, que são mais precisos que os do utopismo. Os epígonos da corrente hegemônica costumavam utilizar ( quer dizer, comentar) este texto como se fosse a verdade revelada. Obviamente ninguém se preguntava qual era a conotação, denotação e extensão HOJE  do conceitoproletariado” (e outros muitos, claro). Definição de conceitos é coisa de reducionista? Cientificista? Eclecticista? Neoliberal? Conservadorismo ideológico? Mecanicismo analítico? Ou pedir que um conceito seja definido será considerado “uma intervenção estéril” ? Costumo dizer, para meus alunos, queproletariado” no sentido que Marx usou o termo hoje é um conceito com muitas semelhanças a “porcos com asas”. (Obrigado, Pink Floyd)

 

Felizmente o texto foi eliminado. Como minhas críticas começaram em 2001, podemos dizer que foi até rápida a eliminação. Quase indolora.

 

A pergunta é: por que? Por que foram retirados sem qualquer autocrítica? Será que está chegando a hora dos epígonos dos comentadores do marxismo da pequena burguesia? No caso da pequena burguesia machadiana, o arguto silêncio substitui o que antigamente na esquerda não se podia fazer sem autocrítica. Ou será uma emulação dos métodos stalinistas? Stalin mandou fuzilar o economista Kondratieff em 1938, quando este ousou dizer que o capitalismo não estava numa crise terminal coisa nenhuma, mas manteve-o no Conselho dos Economistas da URSS...até 1948!  Quais serão as formas que irá assumir o doloroso processo de eliminação da influência do stalinismo e do utopismo messiânico dentro da autodenominada corrente hegemônica do serviço social? Minha aposta é que os epígonos da pequena burguesia vão, como vem demonstrando na sua prática política habitual, realizar o processo na calada da noite, no melhor espírito do gattopardismo que os anima. Sobreviver é preciso, mas a eliminação (ou o esquecimento, será que eles esqueceram?) é um sinal muito claro da crise que se levanta no horizonte.

 

 

Para quem interesse, resumo algumas das observações sinalizadas durante todo este período, que nunca tiveram qualquer resposta

 

o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo: `La maison est à moi, c´est à vous d´en sortir´.” (Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas)

 

mais de três anos, quando comecei a criticar a esta corrente, não imaginava que o objeto poderia transformar–se  em um tema muito interessante. Não fui o primeiro a perceber – e sofrer – os erros teóricos, descaminhos e caprichos da autodenominada “corrente hegemônica” da pequena burguesia no serviço social. A Professora Dayse de Paula Marques da Silva tinha encaminhado suas críticas e textos. (ver Nota 1)

 

 No Uruguai, Teresa Porzecanski (Universidad de la República) tinha também, com mais sorte do que nós, colocado claros limites aos descaminhos da corrente. Até o convênio da Universidade da República com os representantes da corrente hegemônica foi extinto, e a Universidade e a carreira de Trabajo Social recuperam-se das aberrações da corrente. Mas, no caso doméstico, obviamente, nada do que encaminhamos na FSS/UERJ foi respondido. Encontram-se, claro, os argumentos ad personam, vendidos a boca pequenaque visam desqualificar a pessoa, ao perceber-se impotentes de alinhavar argumentos ou de reduzir aos adversários a expressar suas idéias nos espaços que, pelo seu tamanho mínimo, podem ser controlados sem que ocorram “vazamentos”. Uma discussão ampla destas questões seria, certamente, um risco muito alto que os epígonos da corrente não podem assumir, e devem então ficar aguardando que os comentadores decidam falar por eles, o que não tem acontecido. Quem sabe no futuro?

 

A corrente hegemônica parece pensar que silenciar um debate basta para que o debate termine ( simplesmente apagá-lo, como os velhos stalinistas faziam com os dissidentes nas fotografias, é uma pratica que afortunadamente para todos nós não está mais disponível). Mais uma vez, a tática de controle dos espaços junta uma prática antiga do da esquerda stalinista ao corporativismo da pequena burguesia acadêmica, copiado pobremente das práticas políticas habituais no Brasil. O debate continua, apesar do esperado silêncio da corrente.

 

 

O proletariado, o como a pequena burguesia acadêmica pretendia achar um locus para fundamentar a posse da verdade, que pela sua vez fundamentasse a direção social

 

Esta foi a primeira constatação, que praticamente pula nos olhos daqueles poucos que, -como eu – tiveram a paciência de percorrer alguns dos textos básicos da corrente, de autoria dos seus principais comentadores. O fundamento epistemológico está baseado num erro grosseiro, ou, para falar pós-modernamente, numa aposta baseada na , portanto, completamente subjetivo. O pretensoponto de vista do proletariadoque costuma se apresentar como “superador  do positivismo reducionista”, e que de hábito é (era?) exemplificado com o texto de Michel Löwy “...Karl Marx contra o Barão de Münchhausen” termina ingenuamente num auto-suicídio: o autor, Löwy, descobre-se subitamente pós-moderno e declara queesse ponto de vista contém uma dimensão inevitável de subjetividade”:

 

Que significa mais precisamenteponto de vista do proletariado’? Não se trata necessariamente do estado de espírito empiricamente verificável no seio da massa de trabalhadores em um momento determinado. Como, portanto, identificá-lo? Entre as diferentes correntes políticas, teóricas e científicas que o reivindicam, qual seria a expressão mais autêntica do ponto de vista da classe? Evidentemente, a resposta a estas questões contém uma dimensão inevitável de subjetividade.”  (Michael Löwy: As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. Editora Busca Vida, São Paulo, 1987, 3a. Ed., pp. 201-202) (Itálicas EED)

 

 

Do ponto de vista do que queremos mostrar, o texto é uma verdadeira pérola. Como a subjetividade habita nos sujeitos, cada sujeito tem uma concepção diferente do que seja o ponto de vista do proletariado. Em particulardiferentes setores da pequena burguesia, como a que constitui a corrente hegemônica em nossa faculdade, terão as próprias, auto-definidas como verdadeiras. Entretanto, o proletariado (inexistente) não parece muito interessado nesses representantes! Mas, o que é exatamente o proletariado  hoje? Como colocado acima: qual a conotação, denotação e referência do conceito de proletariado que está sendo utilizado? [2]

 

Portanto, a concepção marxista oferecida por estes grupos da pequena burguesia  não tem qualquer autoridade especial nem pode pretender ser  melhor cientificamente. Mas foi utilizada para dar alguma aparência de legitimidade à  direção social marxista do curso (e da profissão). Esta direção social do curso, outra pérola de construção ideológica, está destinada a garantir a sobrevivência de um setor da pequena burguesia acadêmica que tem conhecimentos do marxismo do século XIX naturalmente limitados pela sua condição de classe, e portanto um conhecimento precário de autores do século passado ligados às concepções do século XIX, como Lukács e Gramsci (existem problemas de acesso aos textos originais, e à discussão em línguas estrangeiras que acontece desde os anos setenta, o que justifica os erros de interpretação). Trata-se , como diria Bourdieu, de esticar ao máximo a vida útil do capital cultural da corrente, restrito exclusivamente a um conjunto de  autores que, muitas vezes, foi mal compreendido em temas fundamentais.

 

Reunião da Comissão de Revisão Curricular da FSS/UERJ com os professores do  Mestrado e dos Programas de Pesquisa. Fala da Profa. Maria Inês Souza Bravo (FSS/UERJ), dia 24 de julho de 2003:

“...não estamos isolados não, estaríamos isolados se nós estivéssemos na contramão, ...é uma realidade, nós fizemos no FUNDEF (?), ela está fortalecida, um seminário com sessenta pessoas, ...é,  uma assembléia por unanimidade, então é garantir a direção social, claro, as propostas estão , mas  a direção social tem de ser garantida não por uma unidade ou duas mas pela maioria das unidades de serviço social do país...” (Gravação do autor, EED)

 

É disso que se trata. A para este grupo, a direção social tem de ser garantidaNão é um conceito muito democrático do que seria um debate acadêmico na universidade. Mas dela depende a reprodução social da pequena burguesia acadêmica da autodenominada corrente hegemônica. Para isso, esta pequena burguesia machadiana aplicará a única prática política que reconhece efetiva nestas periferias do capitalismo: a ideologia e prática do favor, usando, como os coronéis do nordeste, os espaços públicos como se fossem privados. Patrimonialismo, clientelismo, fisiologismo, serão as ferramentas para garantir a hegemoniacapturar espaços onde implementar il PEPO, o projeto ético político que é a Summa Theologica da  ideologia da pequeno-burguesa desta correnteIdeologia no sentido que Marx usava o termo. Representações que a pequena burguesia faz sobre si mesma, seu significado na sociedadesua moral, suas políticas. E ainda, acreditando que sua ideologia representa o ponto de vista do proletariado. Para um observador localizado a uma certa distância e com conhecimento da discussão e o do processo de declínio do marxismo no mundo, a observação deste grupo social e sua câmara escura são muito esclarecedoras. Uma questão interessante é analisar o processo de emergência, evolução e difusão desta corrente, ou seja, tanto sua descrição arqueológica  como  a análise das bases materiais e de classe de sua existência.  Voltaremos sobre isto adiante.

 

Entretanto, e isto tem a ver com a questão do capital cultural, podemos verificar que autores como Elster, Roemer, Cohen, Przeworski, Erik Olin Wright, Bashkar, etc.(The  non-bullshit Marxist Group) , que desenvolveram nos anos 70 e oitenta as bases do marxismo analítico são desconhecidos pela corrente hegemônica. Entende-se, que uma análise da classe mais complexa, como a proposta por Wright, colocaria em evidência o caráter explorador de classe desse grupo da pequena burguesia acadêmica. Erros e omissões  como estas colocam a corrente hegemônica no miolo do bullshit Marxism   combatido pelo marxistas analíticos.

 

Mas vamos analisar em mais detalhe por que a pequena burguesia não entendeu Marx. Para isso, lembramos que ,  “...a produção das idéias, das representações e da consciência está, antes de mais nada, direta e intimamente ligada à atividade material dos homens: é a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens aparecem aqui, ainda, como a emanação direta do seu comportamento material. O mesmo ocorre com a produção intelectual...( K.Marx: A ideologia alemã. 1. Fundamentos da história”. In: Ianni, O. (org.) Karl Marx, Sociologia. Ed. Atica. 6ª. Ed.).

 

Como sabemos, Marx não simpatizava com a pequena burguesia, classe que considerava fadada à extinção no contexto do acirramento futuro da luta de classes, e zombava das suas construções intelectuais ( ver a Miséria da Filosofia, para melhores e maiores detalhes), caracterizadas pela fragilidade e o oportunismo. As construções da  pequena burguesia acadêmica que constitui a autodenominada corrente hegemônica não fogem a esta regra. Estão direta e intimamente ligadas à sua atividade material.

 

Gramsci considerava de caráter subalterno as funções de hegemonia social e governo encomendadas pelo grupo dominante aos seus intelectuais, esses commessi do grupo dominante. (Gramsci, A: “Per la storia degli intellettuali”. Quaderno 12 (XXIV), 1932.Quaderni del Cárcere. Torino. Giulio Einaudi Editore. Volume III. P. 1519. 1977)   Podemos imaginar a subalternidade no caso dos intelectuais que pairam no ar, acreditando que “representam o ponto de vista do proletariado”, quando na verdade se representam a si mesmos nas mais diversas camadas da pequena burguesia. A adoção  dos métodos dos coronéis nordestinos prova na prática a incapacidade da pequena burguesia de materializar na sua prática política uma alternativa autônoma, se limitando, numa dupla subalternidade, a imitar os métodos do grupo dominante, que considera eficazes. A sistemática aplicação da “Lei Saraiva” (1881)   nas sua práticas de manipulação, justificadas pelo duplipensar orwelliano de il PEPO, é um exemplo maravilhoso da câmera escura de que falava Marx na Ideologia Alemã. (Ver: Murilo de Carvalho, José: Cidadania no Brasil: o longo caminho. Ed. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro.2002. p.38-39 )

  

Entendendo por que a pequena burguesia não entendeu Marx, ou como um erro grosseiro pode passar muito tempo sem ser percebido

 

Um erreur de fait jette um homme sage dans le ridicule” (Jean de La Bruyère. Lês Caractères. Des jugements. 47. Classiques Français. Paris.Bookking International. 1993.p. 291. )

 

  

Segundo a Professora Marilda Iamamoto seria possível aplicar a metodologia que Marx desenvolveu no século XIX para analisar hoje o processo de trabalho de um assistente social. [3]

 Infelizmente, como parece não ter sido percebido pelos colegas, Marx, no século XIX, iluminando seus papéis com lâmpadas de querosene,  realizou sua análise do processo de trabalho para um operário manual uma situação absolutamente inaplicável  para o processo de trabalho do assistente social de hoje, pela sua conotação, denotação e referência totalmente diferentes.

Marx analisou o processo de trabalho no âmbito da economia industrial no século XIX, exclusivamente para operários manuais, considerando que todos os elementos do processo de trabalho (matéria prima, meios de produção e força de trabalho) são de propriedade do capitalista, assim como o será o produto desse específico processo de trabalho. Os mercados são considerados de concorrência perfeita.

 

A matéria prima se origina na Natureza, (que ainda no século XIX poderia ser concebida como totalmente alheia à atividade humana, o Outro) e é metabolizada (Stoffwechsel) pelo operário manual no seu processo de trabalho...

 

Obviamente é impossível aplicar esse modelo do século XIX para o trabalho de um assistente social do século XX-XXI que trabalha com pessoas e informações...

 

E ainda, porque até a Natureza segundo Marx a entendia não existe mais: hoje a própria natureza pode ser considerada um produto da atividade humana...( há uma longa discussão sobre isto, mas não poderá ser encarada aqui. A quem interessar possa:  Beck, Ulrich: La Société du Risque. Paris. Aubier. 2001.)

 

Nenhuma das miragens (proletariado, porcos com asas, proletários que não acumulam, etc.) imprescindíveis para essa construção da pequena-burguesia existe mais no século XXI...Basta levantar os olhos do catecismo e olhar pela janela da sala de aula para verificá-lo.

 

Finalmente: os colegas lembram que o operário manual de Marx não pode acumular para que o modelo funcione? (Meus alunos costumam fazer a constatação das diferenças entre o século XIX e o século XX (1973) assistindo o filme de Elio Petri “A classe operária vai a paraíso”. )

 

Para piorar as coisas, as limitações conceituais dos colegas hipnotizados com os textos os levaram a esquecer a famosa e importante  analogia de Marx:

 

 " ...a anatomia do homem é a chave para a anatomia do macaco. Virtualidades que anunciam nas espécies inferiores uma forma superior podem ser incluídas/entendidas somente quando a forma superior é conhecida.” (K. Marx: Introdução à Contribuição para a Critica da Economia Política. 1859) .

 

Em relação a este ponto, de fundamental importância metodológica, existe hoje, (2004) a possibilidade de ter acesso em português, via o livro “O marxismo de Marx”, de Raymond Aron, (São Paulo,ARX, 2003) às notas do curso que ministrou na Sorbonne, em 1962. No capítulo XIV, nos deparamos com o parágrafo “Uma teoria do conhecimento econômico”, que começa com a sugestiva frase “É uma idéia muito marxista, fácil de  compreender” (p. 418). Concordando com Aron, tenho disponibilizado este texto para meus alunos.

 

Seria interessante ler o texto colocando um pouco de distância, e pensar como isso poderia ser aplicado no caso que nos ocupa. Caso quiséssemos aplicar o método de Marx,  deveríamos explicar  o operário manual de Marx no século XIX a partir de um modelo teórico que explique o trabalho do assistente social no século XXI.

 

Para colocar um último prego no caixão, podemos citar ao próprio Marx, na tradução de Florestan Fernandes

 

 “...até as categorias mais abstratas, apesar de sua validadeprecisamente por causa de sua natureza abstratapara todas as épocas, são, contudo, no que há de determinado nesta abstração, do mesmo modo o produto de condições históricas, e não possuem plena validez senão para estas condições e dentro dos limites destas mesmas condições.” ( Crítica da Economia Política, São Paulo, Ed. Flama, p. 224)

 

 

Costumo dizer para os alunos que os conceitos, como os remédios, têm data de validade. Parece ser uma imagem interessante, mesmo para os mais abstratos, como trabalho, processo de trabalho, etc. E, a partir da minha experiência na sala de aula, posso comprovar que os alunos não têm dificuldade em entender o que Marx está querendo dizer...

 

Aliás, uma questão importante: qual a interpretação alternativa que a pequena burguesia proporia para estes trechos de Marx? Fico intrigado em conhecer a reação; esta questão, a incompreensão dos textos de Marx, coloca a pequena burguesia face a face com as suas limitações de classe, que, dada a ênfase atribuída ao conceito, poderiam ter sido melhor exploradas para evitar estes constrangimentos.

 

Ou tal vez, num cenário foucaltiano, considerem que é simplesmente a hegemonia a que decide o que é verdade e o que não é; ou seja, chega de brincadeiras: construam a verdade a partir do poder  e declarem-se absolutamente anti-pós-modernos e pós-modernos, tudo ao mesmo tempo. Tudo bem no estilo da pequena-burguesia acadêmica. Mas, como bem sabemos, até o poder tem limitações quando decide inventar uma verdade!

 

Os interessados em aprofundar a questão, poderão ler meu texto “Uma entrevista com Karl Marx ”, que entreguei em 21 de novembro de 2002 para a Comissão de Revisão Curricular. No recibo, assinado pela professora Mary Jane, diz que “será discutido no âmbito apropriado”. Em tom de brincadeira, para repetir um desses disparates hegelianos, tão caros ao século XIX, poderíamos perguntar: será no âmbito da Verstand ou da Vernunft?

 

 

A “questão da totalidade”: hoje, uma impostura intelectual.

 

“George Orwell afirmou uma vez que o pensamento político, fundamentalmente na esquerda, é um tipo de fantasia masturbatória na qual o mundo dos fatos reais apenas é levado em conta. Isto é verdade, infelizmente, e é parcialmente a razão pela qual em nossa sociedade não existe um movimento de esquerda sério, autêntico e responsável.” (Chomsky, Noam. “The politicization of the university”. Palestra proferida em 1969. In: Radical Priorities, 2ª. Ed. P. 189-206, Carlos P. Otero ( org..), Montreal, Black Rose Books. Apud: Sokal, A., Bricmont, J.: Imposturas Intelectuales. Barcelona. Ed. Paidós. 1999. p. 292-293)(Tradução EED)

 

Outro tema caro à pequena burguesia da corrente hegemônica é o tema da totalidade, a qual é apresentada fundamentalmente como possibilidade, na “...apreensão crítica dos processos sociais na sua totalidade..” ou “...adoção de uma teoria social crítica que possibilite a apreensão da totalidade social em suas dimensões de universalidade, particularidade e singularidade”, etc.

 

No ponto sobre à questão da totalidade, segundo o Projeto de Reformulação Curricular, o Projeto apresentado teria sido descaracterizado pela comissão que aprovou o texto oficial do MEC, eliminando qualquer referência a totalidades. A explicação é outra. Ninguém que tenha um mínimo conhecimento científico poderá aprovar o projeto de diretrizes curriculares da ABEPSS (1996) , a menos que queira se expor sem necessidade, que sabe-se, desde 1931 pelo menos, que é impossível para a ciência construir um sistema de conceitos complexos que seja ao mesmo tempo  consistente e completo. ( Gödel, Turing, etc.). O problema da pequena burguesia é que, limitada nos seus conhecimentos e no acesso à bibliografia, ainda não conseguiu incorporar os conhecimentos científicos que fazem parte do acervo da humanidademais de setenta anos. Weber, com a profundidade que o caracterizou, deveria servir como advertência, que nos anos vinte do século passado associava ciência, conhecimento humano, com a consciência imprescindível de seus limites. Quem acompanhe a discussão atual (final do século XX, até o presente) sobre as questões epistemológicas e os limites da ciência, não deveria deixar de agradecer aos pareceristas do MEC. Afinal, se observarmos a tabela Capes/CNPq, ao nível das subáreas de conhecimentos, são em torno de 345.  Isto, sem descer ao nível das especialidades...mas, quem será capaz de utilizar estes conhecimentos para atingir a totalidade da sociedade de classes e depois olhar criticamente desde essemirante privilegiado”? Consciência imprescindível dos limites, diria Weber: isso é ciência. O que está proposto pela corrente hegemônica é um palavrório vazio sobre um objeto impossível de atingir por qualquer ser humano. Pior: como colocado acima, isto foi teoricamente demonstrado. 

 

Mas, mesmo que eles não percebessem, o mundo inteiro sabe disso há décadas: basta lembrar uma velha afirmação de Foucault, explicando que o “...stalinismo post-stalinista, ao excluir do discurso marxista tudo aquilo que não fosse uma repetição medrosa do dito, não permite desvendar domínios inexplorados...O preço pago pelos marxistas pela sua fidelidade ao velho positivismo foi uma surdez total a toda uma série de questões levantadas pela ciência (Foucault, Michel: Power/Knowledge. Pantheon Books, New York. (1980: 110)).

 

 

“Stalin, Grande Cientista Social”: Ora bolas!

 

O Projeto Ético Político da pequena burguesia é suficientemente amplo como para incluir, na bibliografia do projeto de  reformulação curricular, textos de um autor que tem  realizado uma apologia explícita de crimes contra a humanidade, como os realizados pelo stalinismo,

 

“Na verdade, portanto, o que então se realizou foi o estabelecimento da infra-estrutura necessária para a transição socialista. reside o papel historicamente progressista da autocracia stalinista: ela efetivou a criação das condições materiais indispensáveis para a edificação de uma sociedade de novo tipo....O que deve ser debitado ao grupo dirigente capitaneado por Stalin, pois, não é esta violência historicamente necessária. O que deve ser posto na sua conta é a transformação dessas coações requeridas transitoriamente em normas constantes de direção política....” (José  Paulo Netto, O que é Stalinismo. Ed. Brasiliense. 3ª  Ed. 1984 (1981) Pág. 85)

 

Este autor também considera a Stalin um grande cientista social, organizando um livro com suas obras na coleçãoGrandes Cientistas Sociais” , e mantém ainda esta referência no seu currículo Lattes, como pode ser verificado ainda HOJE (23/04/2004):

 

Livros organizados

 

PAULO NETTO, J.
Stálin/
Política. S. Paulo : Ática, 1982 p.159.
   
Palavras-chave               : Concepcões políticas de Stalin, Stalin e o marxismo-leninismo, Materialismo histórico e materialismo dialético

   Áreas do conhecimento    : Polêmicas do Movimento Socialista
   
Referências adicionais     : Brasil/Português. Meio de divulgação: Impresso

http://genos.cnpq.br:12010/dwlattes/owa/consultapesq.inicio (24/06/2004)

 

A apologia do Stalinismo realizada pelo Professor José Paulo Netto viola o Decreto Lei No. 4388 de 25 de Setembro de 2002 e o Art. 287 do Código Penal da República Federativa do Brasil. ? [4]

 

Pode o serviço social incluir no currículo da carreira textos  de um apologista do stalinismo? É possível alegar desconhecimento de fatos que são conhecidos no mundodécadas

 

PODE. De fato, é o que tem sido feito durante muito anos. Esta situação faz parte da direção social marxista do curso  e do esquema de reprodução enquanto setor social da pequena burguesia acadêmica.

 

Mas onde está a fonte das opiniões do professor Netto sobre a violência historicamente necessária para a construção do socialismo? Obviamente, ...em György  Lukács. Vejamos uma citação de Marco Baldino:

 

“... Segundo Lukács com a revolução de outubro teriam  “...nascido os fundamentos materiais do marxismo para a real construção científica tantas vezes requerida por Engels e depois também por Lenin nos Cadernos Filosóficos. A imensa culpa histórica do stalinismo está não apenas em ter deixado inutilizada esta construção científica, mas tê-la feito retroceder(5). Baldino continúa:  “Na sua essência, a culpa histórica do stalinismo não estaria nos dezesseis milhões de mortos de que fala, por exemplo, Foucault, mas no fato de que Stalin ( para Lukács, EED)  “...obstaculizou a tendência que teria sido capaz desta construção [científica]””  (6). (Tradução EED)

 

(5) G. Lukács, Discorso al dibattito filosofico del Circolo Petöfi (estratto), trad. di F. Codino, in Marxismo e politica culturale, traduttori vari, Einaudi, Torino 1977, p. 84.

 

(6) G. Lukács, Discorso al dibattito filosofico del Circolo Petöfi, cit., p. 84.

Para Foucault ver:   Studiare la ragion di stato, in M. Foucault, Biopolitica e liberalismo, a cura di O. Marzocca, Medusa Edizioni, Milano 2001, p. 150: “O controle exercido na União Soviética é muito forte. Aparentemente, nada da vida do indivíduo permenece indiferente ao governo. Os soviéticos têm massacrado dezesseis milhões de pessoas para edificar o socialismo. O massacre de massas e o controle individual são duas características profundas da sociedade moderna.”. (Marco Baldino. Letture: Stalinismo/comunismo: György Luckács, Marxismo e politica culturale, traduttori vari, Einaudi, Torino 1977.; Alexandr Solženicyn, Discorsi americani, trad. di S. Rapetti, Arnoldo Mondadori, Milano 1976. (Tradução EED)

http://www.marcobaldino.com/studi/lukacs.html (08/05/2004)

 

As raízes políticas dos fundadores da corrente e seus epígonos estão firmemente fincadas nos conceitos stalinistas. Basta reler as palavras de Foucault de 1980. A concepção do papel da violência stalinista é paradigmática. Não estou descobrindo nada. Apenas informando de uma realidade que é conhecida no mundo todomuito tempo. Criticando a fraudulenta metafísica comunista sobre a questão social, Agnes Heller e Ferenc Fehér  sinalizam  “...o fato extra de que a sistemática apologia feita por eles da horrenda realidade da União Soviética sob Stalin e depois dele torna inteiramente questionável a sinceridade do compromisso comunista com a questão social.” (Heller, Agnes, & Féher, Ferenc: “Contra a Metafísica da Questão Social”. In:  A condição política pós-moderna. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira. 1998. p.161-2)

 

 

Pergunta: se essa violência foi assim revolucionária, como sustentam alguns textos da corrente: como é possível que não tenha sobrado NADA em termos teóricos dessa experiência que a justifique? Onde está a literatura teórica que os representantes da corrente e seus epígonos sustentavam trinta anos atrás???

 

Parafraseando George Orwell na sua referência a Auden, poderíamos dizer que a expressão “a violência historicamente necessária” do texto do Professor Netto, “... pode ser escrita por uma pessoa para quem o assassinato é apenas uma palavra (...) O senso de amoralidade de Netto é possível se você é a classe de pessoa que sempre está em qualquer outro lugar quando se aperta o gatilho”. (Meyers, Jeffrey: Orwell, la conciencia de una generación. Ed. Vergara, Buenos Aires, 2003, p. 242)

 

A vontade de ruptura dos integrantes deste projeto ético político da pequena burguesia acadêmica pode ser observada neste ponto: jamais conseguiu  gerar qualquer vontade de ruptura para romper com o stalinismo, o utopismo messiânico e as verdades congeladas no século XIX.

 

 

Dimensão “ético-política”: Um projeto corporativo da pequena burguesia

 

“ Há revoltas de estudantes, escritores e outros jovens burgueses desclassados que têm invadido o partido, chegando em tempo de ocupar os postos na redação dos novos periódicos que pipocam e, como de hábito, consideram a universidade burguesa como uma escola de Saint Cyr socialista ( a escola militar francesa, EED) que lhes outorga o direito de entrar nos quadros do partido com o grau de oficial, se não de general. Estes senhores praticam todos o Marxismo, porém da espécie que se conhece na França há mais de dez anos, e sobre o qual Marx afirmava: “Tudo o que eu sei,  é que eu não sou marxista. E provavelmente diria destes senhores o que Heine afirmava sobre os seus imitadores: “Semeei dragões e colhi pulgas”.

 (Carta de Engels a Paul Lafargue; em 27 de outubro de 1890)

 

“Ao longo de sua reprodução social, incansavelmente o Brasil põe e repõe idéias européias, sempre em sentido impróprio.” (Roberto Schwarz. As idéias fora do lugar. In: “Ao Vencedor as Batatas”. 3ª. Edição. São Paulo. Livraria Duas Cidades. 1988. p. 13-28)

  

Como observamos acima, pela prática dos representantes da corrente hegemônicapara ter uma idéia acabada do que significa a qualidade no ensino que eles proclamam. Não por acaso são os setores mais ligados à atividade sindical que afirmam que a procura pela aplicação cada vez mais ampla dos critérios de mérito é conservadora. Esses mesmos setores procuram sobreviverfundamentalmente como funcionários públicos, pagos pelo estado – defendendo a organização sindical baseada na CLT, que, como sabemos, teve seus parágrafos sobre organização sindical copiados da Carta del Lavoro, de Mussolini: ou seja, do fascismo italiano.

 

Por isso precisam combater o mérito, e portanto todo o processo de secularização e racionalização empreendido pelo capitalismo. A pretensa defesa dos valores coletivos, em oposição aos que seriam os valores individualistas do capitalismo, nos leva diretamente para a Idade Média, para a hegemonia das corporações como a colocada na Carta del Lavoro.

 

Chego na prática e tenho que esquecer todo o que aprendi na faculdade”. Como estamos habituados a ouvir, isto é uma conseqüência inexorável do ensino que está sendo ministrado na FSS e outras faculdades. Fica difícil na prática “...recuperar e aprofundar as orientações totalizantes, históricas e dialéticas, que permitem interpretar a multidimensionalidade das demandas dos usuários e das organizações/instituções e suas possibilidades de resposta”. Este tipo de palavrório vazio se origina na própria concepção do projeto ético político. Por isso, as coisas não funcionam na ponta da prática. São dois mundos diferentes. Afinal, o objetivo não é formar assistentes sociais profissionais, mas umprofissional da articulação, técnico e políticoque sirva aos propósitos políticos e de reprodução social do grupo da pequena burguesia que atualmente controla o ensino e o sindicalismo corporativo da profissão

 

Assim como proposto, o projeto conseguirá a destruição da universidade pública, gratuita e de qualidade. Ou seja, nos leva para o suposto objetivo fundamental do neoliberalismo...! O que melhor que favorecer a incompetência, o patrimonialismo, a ideologia do favor na sua versão pequeno burguesa e a prática sistemática da política do favor (é dando que se recebe)? Implementada, esta proposta conseguirá transformar a universidade  no que a corrente hegemônica pretende: um viveiro de militantes que recitam o catecismo da corrente, alunos que podem ser explorados para garantir a própria reprodução social, e  a imposição de “verdades” autoritárias que não podem ser questionadas.

 

No final, a verdade é revelada, também solidamente estabelecida: a pequena burguesia da auto-denominada  corrente hegemônica nada mais é que um conjunto de personagens de Machado de Assis que escaparam da obra do mestre, na periferia da periferia do capitalismo. Mas, até quando será a endogamia e a política do favor a base “ético-política” da reprodução social desta corrente? Até quando os alunos, professores e pesquisadores terão de pagar este altíssimo preço?

 

Rio de Janeiro, Maio de 2004

  

Notas


[1] DE PAULA MARQUES, Dayse  – A teoria única: o apelo ao inexistente comocrença” no Serviço Social. Texto apresentado e incluído no CDROM do XXVII Encontro da ANPOCS. Outubro de 2003.

­­­­­­­­­­­­­­­__________________________   Pesquisa , Ensino e Extensão na formação do Assistente Social. Texto apresentado e incluído  no CD-Rom do 10º  Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais. Outubro de 2001

___________________________  Pesquisa, Ensino e Extensão: 20 horas no mínimo. Texto apresentado para reflexão na Faculdade de Serviço Social/UERJ.. Mimeo. 1999.

 

PORZECANSKI, Teresa. Trabajo Social y “crisis” de las Ciencias Sociales. Revista Fronteras Nº 1, Depto. de Trabajo Social, Facultad de Ciencias Sociales, Universidad de la República. Montevideo, 1995. Pp.11-16;

 

Para uma convincente refutação  das posições de Iamamoto ver:

 

PORZECANSKI, Teresa: Algunas cuestiones disciplinares del trabajo social en el Uruguay contemporáneo.  (Presentación en el Seminario Internacional de culminación de la Maestría en Trabajo Social ofrecida por la Facultad de Trabajo Social de la Universidad Nacional de Entre Ríos, República Argentina, mayo 16-20, 2001);  E ainda:

 DELLASOPPA, Emilio. Um fundamento epistemológico baseado numa falácia das mais banais; O clarão da totalidade, Uma voce poco fa;  Uma entrevista com Karl Marx. Estes textos se encontram na página http://www.geocities.com/dellasop

[2] Os interessados em aprofundar a questão, poderão ler meu velho textoUm fundamento epistemológico baseado numa falácia das mais banais

 

[3] Ver, como amostra,  os trabalhos CARDOSO, Isabel C.C.; GRANEMANN, Sara; ALMEIDA, Ney Luiz  Teixeira de; BEHRING, Elaine, “Proposta básica para o projeto de formação profissional novos subsídios para o debate”, publicado no Caderno ABESS No. 7, São Paulo, Cortez Editora, p. 15-57, novembro de 1997. (Nota dos autores: “A elaboração deste documento teve a supervisão da Professora Marilda Vilela IAMAMOTO);  e também: BARBOSA, Rosangela Nair de Carvalho; CARDOSO, Franci Gomes e ALMEIDA, Ney Luiz  Teixeira de: “A categoria `processo de trabalho´ e o trabalho do assistente social”. Revista Serviço Social e Sociedade, no. 58, São Paulo, Cortez Editora. Novembro 1998, p. 109-130. )

 

[4] O Decreto Lei No. 4388 de 25 de Setembro de 2002 promulga o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. Ver art. 7. “Crimes contra a Humanidade”.  Código Penal da República Federativa do Brasil. Art. 287. Apologia de crime ou criminoso: “Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime”.

 

 

 

 

 

 

 

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