Rio de Janeiro, abril de 2002
Prezado
Professor Vicente de Paula Faleiros,
Alguns
comentários sobre seu email, recebido da Direção
da FSS/UERJ.
Em primeiro
lugar, e segundo o que está exposto no seu email, parece-me incontestável
a sua afirmação de que “...cabe ao Conselho zelar
pela observância do Código, mas não lhe cabe definir
o que é ou não é conceito de serviço social
e competência profissional, objeto de Lei.”
A conclusão lógica é que , se o faz, é porque
considera que pode e deve obrar desrespeitando Lei superior. O ponto
então seria explicar por que o faz.
Nesse sentido,
e sem entrar na questão específica que está sendo
analisada, gostaria de tecer algumas considerações sobre
o contexto e a forma do tratamento, que me parecem, mais uma vez, muito
elucidativas das concepções políticas autoritárias
e corporativistas da auto-denominada “corrente hegemônica”
dentro do serviço social.
Começando
pela redação da própria Lei 8662/93. È muito
interessante como está redigido o Art. 15: “ É vedado
o uso da expressão "Serviço Social" por quaisquer
pessoas de direito público ou privado que não desenvolvam
atividades previstas nos arts. 4º e 5º desta Lei.” Refere-se
a uma expressão. Comparemos alguma outra profissão, a
medicina, por exemplo:
Lei N.
3.268/57 (DOU de 4/10/57) que “Dispõe sobre os Conselhos
de Medicina e dá outras providências.”
Art. 20 - Todo aquele que mediante anúncios, placas, cartões
ou outros meios quaisquer, se propuser ao exercício da medicina,
em qualquer dos ramos ou especialidades, fica sujeito às penalidades
aplicáveis ao exercício ilegal da profissão, se
não estiver devidamente registrado.
Como podemos
observar, há uma diferença fundamental: no caso da medicina,
fica claro na lei que o que está vedado é o exercício
a aqueles não devidamente credenciados. Porém, no caso
do serviço social o caso é de uma radicalidade que assusta:
quem não estiver incluso nos art. 4 ou 5 da Lei 8662/93 não
pode falar do “Serviço Social”. De fato, este argumento
foi utilizado, num email muito “espirituoso” dirigido a
um grupo seleto, pela presidente do CFESS para afirmar que eu não
poderia falar do serviço social porque não sou assistente
social. Tendo tomado conhecimento do email por vários colegas
que o receberam, e então sim, com comentários realmente
espirituosos, procurei aprofundar o tema.
Considero
que o artigo 15, na forma que está redigido, fere a Constituição.
Ainda, foi aventado que dificilmente resistiria caso uma ADI fosse impetrada
contra ele. Como o Professor também é advogado, não
vou me estender em considerações sobre este ponto, mas
me parece um extremamente interessante.
No seu
email, considera-se que “ a polêmica exige um exame aberto
e ventilado da Lei 8662/93.” Considero que em tanto a auto-denominada
“corrente hegemônica” consiga controlar as estruturas
corporativas esse debate não acontecerá. O únicos
debates que poderão acontecer são aqueles que possam ser
controlados na pauta, agenda e espaço pelos representantes da
“corrente hegemônica”. O estado ideal para uma burocracia
corporativa é aquele em que nada é questionado: quando
algum questionamento é levantado, os representantes da auto -denominada
“corrente hegemônica” terão como tarefa garantir
que qualquer discussão seja reduzida à sua mínima
expressão, e que o impacto sobre outros âmbitos seja reduzido
ao mínimo.
No email
da presidente do CFESS, um outro elemento interessante era que considerava
inadequado o debate num espaço aberto como a rede porque não
era democrático e os “desavisados” poderiam ser confundidos.
Voltamos ao mesmo ponto: para controlar as estruturas burocráticas
corporativas se faz necessário controlar todos e cada um dos
âmbitos de debate. Como na rede isso não é possível,
ou se silencia com ameaças ou se declara os leitores “desavisados”.
(Segundo o Aurélio: Imprudentes, levianos). Não preciso
dizer que acredito plenamente nos meus leitores.
Mas aqui
aparece posta para a reflexão uma outra questão: de que
forma se da a utilização de estruturas corporativas por
parte de um setor da pequena burguesia que se considera possuída
pelo “ponto de vista do proletariado” e que utiliza práticas
autoritárias para a construção de um projeto político
partidário no contexto de uma das “profissões inseguras”?
Poderia dar um belo trabalho na área da sociologia das profissões.
Vejamos
nosso caso. Como a própria pagina do CFESS afirma: “ A
corporação é uma característica da sociedade
brasileira, um traço cultural que afeta trabalhadores e patrões,
nas suas formas de organização política. ...”
Prossegue com uma resenha das lutas que vêm se travando desde
os anos 70 com o protagonismo da CUT , e conclui: “ A estrutura
que concretizaria esse projeto é a dos sindicatos por ramo de
produção, que gera a construção da identidade
de classe num mesmo campo de atuação e processo de trabalho.
Tratava-se de um projeto, com a requisição de um amplo
processo de convencimento e adesão, e um forte investimento da
direção política, a CUT, já que se buscava
alterar as mentalidades e a cultura, bem como posições
de status, constituídas e consolidadas na sociedade brasileira.”
O interessante
de este ponto é que, no momento, a prática político-profissional
de este setor da pequena burguesia se da na estrutura corporativa, com
esses traços culturais na busca de consolidação
de posições de status, tanto no espaço cultural,
como acadêmico e corporativo. Por isso, e dada a fragilidade (inexistência,
na verdade, já que está baseada numa falácia banal)
dos fundamentos epistemológicos que sustentam o projeto “ético-político-profissional”,
a hegemonia é concebida como a única condição
de sobrevivência, y necessariamente, repito, necessariamente,
quando se apresentam “ ...escolhas que revelam a existência
de projetos diferenciados e, quiçá, opostos” , a
leitura é que “...está em foco um “modelo”
de prática que visa minar o projeto profissional em suas bases
teóricas, éticas e políticas”. A proposta
da autodenominada “corrente hegemônica” não
tem outra alternativa que conceber a discussão e o pluralismo
como um jogo de soma zero. É um caso clássico na análise
das relações de poder dentro de estruturas corporativas
protagonizadas por grupos inseguros e autoritários.
Esta situação
leva a uma outra, também clássica: a tendência dos
“hegemônicos” a se auto-identificarem com a instituição
à que pertencem. Se é um espaço público,
tanto pior. É típico dos regimes absolutistas ou totalitários.
Pensemos no `L´ état c´est moi´ de Luis XIV,
ou em Hitler, Stalin, Franco, a Junta Militar da ditadura argentina,
e tantos outros. As instituições, como as rosas, não
falam ( ou tal vez, como pensaria Kelsen, apenas o fazem pelo sistema
jurídico, porque segundo ele nada mais são do que isso).
Não falam nem adotam “o ponto de vista do proletariado”
como critério de “verdade científica” nem
assumem um “projeto profissional-ético-político”.
Quem faz isso é o grupo político que eventualmente as
controla. Quando o Macaco Simão fala “...o Don Doca FHC
Boca de Sovaco, em mais um surto de dengue verborrágica, comparou
o Silvio Santos ao Platão. Será que ele não confundiu
com PATRÃO?”, ( Folha de São Paulo, 16/4/02) ninguém
pensa que ele está desqualificando a instituição
Presidência, a menos que faça parte de uma concepção
autoritária que se auto-identifica con ela...
Mas vamos
refletir brevemente sobre o que considero o ponto mais importante, que
denominei acima como “fundamento metodológico inexistente
por estar baseado numa falácia banal”. Este foi o segundo
email das minhas críticas no “período recente”,
uns sete meses atrás (04/10/01). Nos parágrafos seguintes,
na linguagem peculiar da auto-denominada “corrente hegemônica”
encontra-se a afirmação e justificativa da alegada superioridade
epistemológica da abordagem “ponto de vista do proletariado
em conjunto com um projeto teórico-metodológico crítico-dialético”.
Vejamos o que se afirma:
“Uma
teoria social que extraia do movimento do ser social na sociedade burguesa
as suas determinações concretas (isto é, que re-produza
e re-construa sua ontologia) e que, portanto, não tenha um valor
puramente instrumental, é, nestas condições, função
de dois vetores – precisamente os que propiciam a ultrapassagem
da positividade e a apreensão da racionalidade do processo social
efetivo, da sua legalidade. Em primeiro lugar, uma perspectiva de classe
para a qual a dissolução da positividade se constitua
como uma exigência imanente; em segundo lugar, um projeto teórico-metodológico
fundado num arsenal heurístico capaz de dar conta da processualidade
específica do ser social próprio à sociedade burguesa.
Somente a conjugação destes vetores permite a resolução
da positividade na análise concreta da sua concreta processualidade.
E, nos marcos da sociedade burguesa, essa conjunção é
garantida apenas pelo ponto de vista de classe do proletariado e pelo
projeto teórico-metodológico crítico-dialético.”
( Aqui entra a nota de rodapé No. 145) (José Paulo Netto:
Capitalismo Monopolista e Serviço Social. Cortez Editora, São
Paulo, 1992, p. 138).
Vejamos
o que diz a nota de rodapé 145. Textualmente: “145. Cf.
especialmente Lukács (1974) e Kofler (1968). A fecunda argumentação
de Löwy (1987) desenvolve com extremo cuidado esta problemática,
assinalando que, em determinadas condições, raras porém
ocorrentes, outras perspectivas de classe que não burguesas podem
oferecer uma rica angulação crítica (ele aponta,
especificamente, o caso de Sismondi.)” (Na verdade, M.Löwy
afirma o contrário, mas deixamos ao leitor a tarefa de verificá-lo.
EED)
( Os textos
citados por Netto são: G. Lukács: História e consciência
de classe. Porto, Escorpião, 1974.; K. Korsch: Marxisme et philosophie.
Paris, Minuit, 1964; e M. Löwy: As aventuras de Karl Marx contra
o Barão de Münchhausen. São Paulo, Busca Vida, 1987.)
O Professor
Netto não nos oferece uma demonstração das suas
afirmações, deixando o problema para a “ fecunda
e cuidadosa” argumentação de Michel Löwy. Vejamos,
então, como o M. Löwy acha que aquela pretensão pode
ser demonstrada:
“Que
significa mais precisamente ‘ponto de vista do proletariado’?
Não se trata necessariamente do estado de espírito empiricamente
verificável no seio da massa de trabalhadores em um momento determinado.
Como, portanto, identificá-lo? Entre as diferentes correntes
políticas, teóricas e científicas que o reivindicam,
qual seria a expressão mais autêntica do ponto de vista
da classe? Evidentemente, a resposta a estas questões contém
uma dimensão inevitável de subjetividade.” (Michael
Löwy: As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen.
Editora Busca Vida, São Paulo, 1987, 3a. Ed., pp. 201-202) (Itálicas
EED)
Esqueceram de mim!! Lembram daquele filme para crianças? Esta
explicação poderia chamar-se “Esqueceram de mim
4”. Só que o protagonista seria o proletariado.
É realmente fantástica a capacidade da pequena burguesia
para não enxergar os pontos cegos da explicação.
Há uma dificuldade para visualizar a posição do
observador. Não por acaso a teoria marxista sempre discutiu se
eram “projetos de burgueses” ou “proletários
que ainda não sabiam que eram proletários”. Perguntemos
o seguinte: de onde o M. Löwy está olhando? Ou seja: qual
é a posição do observador M. Löwy?
É um observador externo à sociedade. (Não por acaso
o Löwy utiliza a metáfora do “pintor” quando
descreve as possibilidades do científico social). Ele procura
o “ponto de vista do proletariado”. Observa empiricamente
o estado de espírito no seio da massa de trabalhadores num momento
determinado e encontra....um caos. Lógico, o “estado de
espírito” certamente no foi o mesmo em 1848, 1870, 1914,
1945....ou em 2002. Seja o que for o “estado de espírito”
certamente dependerá do momento histórico...Mas vamos
supor que ele observa em um “momento determinado”, em 2002.
O que é a “massa de trabalhadores” em 2002? O caos
continua. “Massa de trabalhadores” é uma afirmação
que não quer dizer absolutamente nada. Se você procura
o que não existe é altamente provável que não
ache nada.
O que seria o mais parecido que poderíamos encontrar hoje? Bom,
encontramos proletários nos 147 países do mundo, diversificados
pelos diferentes setores produtivos. Seguramente o “estado de
espírito” ( outra expressão que não quer
dizer absolutamente nada) deve ser diferente no Brasil, nos Estados
Unidos, na China, na Argentina, na....igualmente diversificado até
o infinito.
O problema é que se você interroga à realidade com
conceitos inúteis, não poderá pretender que a realidade
“forneça” alguma resposta significativa. Seria o
equivalente de um astrônomo se perguntar pelo “estado de
espírito” do cinturão de asteróides...
O que um cientista razoável faria? Bom, procuraria outro conjunto
de conceitos mais razoável, e continuaria tentando. Aqui poderíamos
entrar numa discussão sobre como é possível o conhecimento,
etc. , mas não é a ocasião. Temos ainda o problema
do paradigma: se v. se aproxima da realidade como um observador com
tamanha visão egocêntrica, bom, não devemos nos
surpreender se a tentativa não dá certo....
E o que o observador externo M.Löwy faz? Ele “esquece”
o proletariado! Decide procurar o “ponto de vista do proletariado”
no mundo das idéias. Seu objeto de pesquisa passam a ser “as
vanguardas”. Que são outros observadores. E passa a observar
outros observadores: ele se pergunta: bom, entre todo esse pessoal que
diz que representa o ponto de vista do proletariado, qual será
o que melhor representa (“o mais autentico”) o ponto de
vista da classe?
Mas o Sr. Michel Löwy é um observador externo. De fato,
existem outros, e cada um deles, como sabemos, acredita poder identificar
aquele que melhor representa o ponto de vista do proletariado: ele mesmo.
Ou seja, a vanguarda, multiplicada até o infinito.
Resultado (insatisfatório): como o próprio M.Löwy
acaba reconhecendo acima, “...a resposta a estas questões
contém uma dimensão inevitável de subjetividade.”
Portanto,
será necessário um critério para decidir qual o
“ponto de vista do proletariado correto”, de julgar os produtos
científicos uns contra os outros, etc. etc. Quem será
o juiz? Uma resposta possível: a vanguarda (iluminada). Mas,
como identificar a vanguarda iluminada em cada momento histórico?
Pela sua própria definição, cada vanguarda acredita
que é ela a que sabe, a que mostra o caminho....Pode-se ver que
aceitar essa possibilidade nos coloca na prática perante uma
quase regressão ao infinito....
Pior a
emenda que o soneto. Se a dimensão de subjetividade é
inevitável, então a pretensão de “superioridade
científica” está destroçada. Já que
a solução proposta está dada numa situação
de subjetividade inevitável, praticamente qualquer outra proposta
encontra-se no mais absoluto pé de igualdade. Subjetividade implica
isso mesmo: impossibilidade de decidir entre as opções
possíveis com o critério proposto por Netto-Löwy.
Qual a
“solução” que nos oferece M. Löwy?
“Em
outras palavras: o ponto de vista do proletariado não é
monopólio exclusivo de um único grupo o corrente, mas
representa, em cada momento histórico, o horizonte comum a um
conjunto de forças políticas e intelectuais, sociais e
culturais que reivindicam a visão proletária – isto
é, de sua utopia revolucionária. Seria tanto mais ‘autêntico’
na medida em que soubesse escapar à influência mistificadora
das ideologias conservadoras (burguesas, patriarcais ou burocráticas)
e unificar dialeticamente (sob o ponto de vista da totalidade), em seu
nível superior, a multiplicidade das experiências da classe.”
( Michael Löwy: As aventuras de Karl Marx contra o Barão
de Münchhausen. Editora Busca Vida, São Paulo, 1987, 3a.
Ed., p. 202)
Bom, o
que está querendo dizer é: já que é impossível
a possibilidade do monopólio no presente do “ponto de vista
do proletariado”, vamos acertar o seguinte: fica para o futuro,
para o “horizonte comum”. O problema que o horizonte se
afasta (por isso mesmo é horizonte) enquanto avançamos
e que não necessariamente será “comum” como
a história ( sempre a teimosa história!) tem nos ensinado.
A proposta de M.Löwy não passa da expressão de um
desejo que expressa mais uma vez a dimensão inevitável
de subjetividade.
Além do mais, se não conseguimos sequer identificar o
“ponto de vista do proletariado” no presente, como vamos
pretender unificar a “multiplicidade das experiências da
classe”? O elementos messiânicos de M.Löwy falam mais
alto na hora H. E esse messianismo exerce um fascínio irresistível
sobre a pequena burguesia que anda à procura de um porto seguro.
Mas é o destino das pretensas “vanguardas” da pequena
burguesia, de ser enganadas por vendedores de falácias que não
resistem a análise. E olha, é apenas uma análise
interna, apenas extraindo dessas posições o que está
escrito na “letrinha miúda”.
(E já que falamos em subjetividade inevitável, podemos
enxergar na utopia do “porto seguro” da vanguarda iluminada
da pequena burguesia mais um exemplo do tema psicológico da repetição.)
Se a dimensão
de subjetividade é inevitável, então o que se verifica
é que o “fundamento epistemolõgico” da auto-denominada
“corrente hegemônica” é apenas um esforço
desesperado de obter o máximo efeito político de um instrumento
reconhecidamente inválido. Levando isto em conta, tal vez os
textos acima não deveriam ser lidos como se fossem as cláusulas
de uma apólice de seguro...
E finalmente,
para concluir, a necessária conclusão política:
se o fundamento epistemológico da “corrente hegemônica”
cai na falácia e na subjetividade inevitável, carecendo
de qualquer validade e hierarquia acadêmica, então fica
claro que a exclusão das correntes opositoras ( na academia,
por exemplo) se processa exclusivamente no plano político, configurando
pura e simplesmente uma exclusão política, o que é
absolutamente anticonstitucional.
Há
muitos mais elementos no seu email que merecem um comentário,
muitos pontos interessantes, o problema da validade histórica
dos paradigmas científicos, as categorias que indica de totalidade
e complexidade, etc., mas este email já está um pouco
longo e devem ficar para o próximo.
Atenciosamente,
Emilio E. Dellasoppa
Professor Adjunto, FSS/UERJ