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O clarão da totalidade e o teatro desagradável

Emilio E. Dellasoppa
Professor Adjunto, Faculdade de Serviço Social – UERJ

Março 2002

“A questão toda toma outras feições quando se passa à esfera do que se poderia chamar de totalidade presente. Nesta perspectiva, o primeiríssimo nome da totalidade é o terror e a conseqüente denúncia de que toda ortodoxia esconde uma forma de terrorismo. E como sempre em nosso tempo, a contrapartida dessa totalidade-terror está no conceito de diferença – a ameaça do terror tende precisamente a eliminar a diferença”

(Gerd Bornheim: Vigência de Hegel: os impasses da categoria da totalidade. In: O idiota e o espírito objetivo. 2ª Ed. Rio de Janeiro, UAPÊ, 1998. P. 147)


“Nosso coração ainda não amadureceu para a tragédia. Portanto, é obrigatória, nos fatos e nas pessoas do Brasil, a dimensão do ridículo”
Nelson Rodrigues

Caros colegas,

Nas vésperas de começar um novo ano letivo na FSS da UERJ, gostaria de colocar - novamente ! – minhas considerações sobre os acontecimentos recentes, já que considero que nada mais são que a conseqüência lógica da falta de fundamento epistemológico que perpassa a auto-denominada “corrente hegemônica” no serviço social, e que, no desespero, se materializa na prática em uma concepção política autoritária e elitista, herdeira direta das suas fontes, o marxismo vulgar do stalinismo totalitário, que tenta-se disfarçar com o recurso aos aportes teóricos do ....trotskismo, resultando no samba que estamos assistindo. Nada disto é, na verdade, novo, já que há quase um ano venho colocando estas questões em toda oportunidade que se apresenta, sem jamais ter tido qualquer resposta. O silêncio pode ser considerado um privilégio do poder, mas é expressão da sua fraqueza.

Nelson Rodrigues gostava de chamar a sua obra de “teatro desagradável”, a partir da sua técnica de descrever “a vida como ela é”, expondo as motivações e desejos que subjazem muitas condutas humanas. A quebra a “etiqueta da hipocrisia” produz resultados que colocam ao coletivo perante as razões que todos conhecem mas ninguém ousa falar, preferindo vesti-las das mais elevadas razões morais, políticas e ideológicas. Portanto, este será um intento de mostrar ao rei que ele, na realidade, está totalmente nu. Não precisaremos de muito para isso.

*

Depois das apresentações realizadas no último seminário promovido pela comissão de reforma do currículo da Faculdade de Serviço Social da UERJ, entendo que cabem algumas breves reflexões. Na tradição marxista crítica, poderíamos dizer que se trata de por em evidencia alguns “clarões da totalidade” : como vs. sabem, a totalidade, que é teimosamente dialética, não aparece obviamente nas vulgares e cansativas enumerações “do contexto”, mas insinua-se nas “pequenas” situações do cotidiano.

Então, podemos tomar e analisar algumas pequenas situações, e ver como a totalidade como insinuação se nos apresenta nelas. Obviamente de novo, a nossa “totalidade dentro da interminável corrente de totalidades do ser social/sociedade” está apenas constituída pelas concepções da corrente “lukacsiana-hegeliana-irracionalista-messiánica” do marxismo acadêmico vulgar assumido por alguns setores da pequena burguesia intelectual, difundida dentro do serviço social no Brasil, e auto-denominada hegemônica, no melhor estilo da auto-complacência de que fala Perry Anderson.

O primeiro pequeno clarão da totalidade, seria para observar e refletir sobre as conseqüências que se verificam na prática como resultado da adoção dos “fundamentos teórico-metodológicos” da autodenominada “corrente hegemônica”.

Já antes tínhamos pesquisado as origens intelectuais desta corrente nos fragmentos da implosão do marxismo oficial vinculado às origens stalinistas, e assinalado – acho que convincentemente, já que não registro nenhuma colocação em contrário – que sua suposta fundamentação epistemológica tinha como valor ZERO, porque está baseada numa falácia das mais banais, agora devemos observar com mais cuidado as suas conseqüências práticas, mostrando que nossas afirmações não tinham um conteúdo abstrato, mas que existem produtos e fatos decorrentes dessas práticas que resultam em fortes exemplos.

Por isso minha explicitação, com a análise indicada durante as exposições de um trabalho específico, de que esta corrente conduz naturalmente a um beco sem saída metodológico, que se traduz na pura e simples claudicação ideológica perante um positivismo que diz combater, e que, na prática, não alcança sequer a entender, não digamos a superar. Pior ainda, os “resultados científicos” desta corrente em pouco ou nada se diferenciam pelo seu significado dos obtidos por Lyssenko nas décadas de 40 e 50.

No final de 2001, foi organizada pela Professora Rose Serra uma coletânea denominada “Trabalho e Reprodução: enfoques e abordagens”. (São Paulo:Cortez Editora, Rio de Janeiro: PETRES-FSS/UERJ). Num dos trabalhos desta coletânea: “A categoria mediação na tendência marxista do Serviço Social e sua presença no trabalho do assistente social” podemos encontrar uma perfeita expressão do absurdo metodológico a que conduz esta corrente, tudo isso envolvido numa retórica que não resiste à mais elementar análise.
 

O trabalho em questão é duplamente interessante, já que pretende nada menos que analisar “ a categoria mediação na tendência marxista do serviço social, e sua presença no trabalho do assistente social”, e fazer isso segundo “...a categoria de mediação em Marx e Lukács, articulada às categorias de totalidade, particularidade e singularidade, ...” etc. etc.
 

Depois das corriqueiras referências indiretas (curiosamente, nos trabalhos da corrente hegemônica do marxismo vulgar não há nenhuma citação de Marx sobre a mediação: seria interessante tal vez pesquisar um pouco mais este ponto?) e das infaltáveis citações auto-complacentes da corrente ( o lastimável livro de Reinaldo Nobre Pontes sobre Mediação e Serviço Social é explicitamente declarado “...um trabalho de fôlego”: mas uma leitura mais atenta nos mostra que se trata de uma dissertação de mestrado onde o autor não foi além dos prefácios das obras de Hegel sobre o tema....( um amigo meu muito maldoso me disse que tal vez tenha reservado as páginas onde o Hegel fala da mediação na Ciência da Lógica para sua tese de doutorado!), chegamos ( na pág. 180) à definição de mediação que seria utilizada no trabalho, onde basicamente somo informados de que a mediação “...consiste no processo pelo qual ocorrem passagens e conversões entre as diversas expressões e dimensões da realidade, da totalidade, presente em todas as instâncias, para expressões singulares a ela articuladas, passando pelas formas particulares como instâncias intermediárias”.(Itálicas no original)
 

Com esta definição somos apresentados “à pesquisa e seus resultados”, que consistem na “análise” de UMA tabela....(Nota: nossa análise está referida à tabela apresentada no trabalho indicado. Obviamente, em outros casos, uma tabela adequadamente construída poderá mostrar tendências)
Num passe de mágica, aparecem as conclusões, na forma de “mediações e determinações”. Qual a nossa surpresa ao sermos brindados com um conjunto de percentagens arbitrários que, segundo a representante da “corrente hegemônica do marxismo vulgar”, representam....tendências!
Primeira observação óbvia: de UMA tabela, que está construída sem critério algum, como a apresentada, nem o mais audacioso membro da tendência marxista poderá tirar tendência alguma, e muito menos mostrar-nos qualquer processo, já que para isso precisaria de pelo menos DUAS tabelas semelhantes em diferentes momentos.... ficando com o ônus de demonstrar que a “tendência” obtida a partir de dois pontos tem algum significado.....
Realmente fica difícil imaginar o que estão (estamos!) fazendo todos os positivistas que analisamos tabelas para, às vezes, tirar algumas conclusões precárias se todo esse trabalho poderá ser evitado usando o método Lyssenkiano desenvolvido na FSS!
 

Segunda observação óbvia: Como a definição da mediação como processo colocada no trabalho é apenas mais uma demonstração de literatura propositadamente complicada sem significado algum, característica desta corrente, os resultados são absolutamente os previsíveis: ou seja um conjunto de banalidades sem significado, e, o que é pior, demonstrando que a “superação do positivismo” pretendida por esta corrente coloca à mostra apenas a sua incompetência para sequer enfrentar os números, construindo uma tabela que tenha sentido....Lyssenko rides again na “corrente hegemônica”!
 

Terceira observação óbvia: O trabalho é uma típica amostra dos produtos da corrente: um conjunto inicial de pretensas “reflexões teóricas” e citações circulares e auto-complacentes de outros “teóricos” da corrente, seguida da análise de resultados que não significam coisa alguma, para terminar, numa perfeita conjunção com a totalidade, com um fichamento sobre as conseqüências que a reestruturação produtiva e as mudanças do neoliberalismo tem no inicio do século XXI sobre o mercado de trabalho dos assistentes sociais.. Indefensável, condenado a viver num “nicho ecológico” junto com outros do mesmo estilo e sempre da mesma origem: “ a corrente hegemônica do marxismo vulgar ” do serviço social....
 

Quarta observação, menos óbvia: esta coletânea foi paga com dinheiro público: financiada pela CAPES através de seu PROAP. Acredite se quiser.

Segundo pequeno clarão da totalidade:

O pior deste caso é que no final das apresentações, uma colega saiu em defesa do trabalho que eu critiquei dizendo que o livro do Reinaldo N. Pontes “era pouco utilizado no serviço social” ( a nossa colega deve pensar que com um pouco de sorte estaremos todos afetados de uma arteriosclerose precoce, já que o trabalho analisado se baseia declarada e explicitamente nele! ), assim como que a reflexão sobre o trabalho de pesquisa tinha sido “muito importante”. Se o clarão inicial nos mostrava o desastre acadêmico cometido com a mais absoluta ingenuidade, o segundo clarão nos mostra até que ponto as concepções da pequena-burguesia intelectual podem levá-la a situações patéticas: precisamos muito do Nelson Rodrigues! Parece piada, não fosse que é perfeitamente compatível com um determinado tipo de projeto de poder, autoritário, que se baseia no “copamento” das estruturas e da articulação de procedimentos que visam dar um ar de “participação e legitimação do projeto elaborado no coletivo” , projeto de poder que naturalmente leva à subalternização de qualquer rigor acadêmico e em definitiva a sua instrumentalização oportunista em função das “necessidades políticas”.

Mas obviamente este é apenas um caso tomado como paradigmático da:

a) falta de qualquer base epistemológica na produção da “corrente hegemônica do marxismo vulgar”: o suposto “mirante privilegiado da classe” nem é da classe nem é privilegiado; a julgar pelos resultados exibidos, como alternativa, poderíamos propor como denominação “o mirante esquizofrênico da pequena burguesia acadêmica”;
b) claudicação teórica perante o dado, seja declarando-o inexistente ou irrelevante, seja mostrando incompetência no tratamento, como foi o caso analisado;
c) confusão entre o espaço acadêmico e o espaço do poder: o tempo em que qualquer um subia num “mirante privilegiado” de sua própria safra já passou, e o poder – e a ambição de poder – ficam absolutamente nus;
d) presença da “totalidade” desta concepção político-acadêmica nas pequenas condutas e detalhes de trabalhos;

Terceiro pequeno clarão da totalidade:

No início do ano, um incidente – agora no plano da política acadêmico/institucional-, a indicação por parte do movimento de duas colegas para compor uma chapa para a eleição de representantes da FSS para o conselho Universitário da UERJ, me levou a questionar esta singular operação política sobre a base de que, não abdicando do exercício dos meus direitos de escolher meus representantes, rejeitava liminarmente a atitude de que “o movimento indicava” em quem seria adequado votar. Apoiei uma proposta de não votar ou anular o voto. Os resultados, que me parecem bastante eloqüentes por si mesmos, jamais foram objeto de comentário algum por parte da “corrente hegemônica do movimento”, o que na minha opinião apenas representa a confirmação de seu oportunismo autoritário. Levando isso em conta, redigi uma carta para os meus colegas, da qual transcrevo um parágrafo:
“Depois do mais do que expressivo resultado da eleição para o Conselho Universitário ( e não menos expressivo silêncio sobre), onde a lista única obteve 27% dos votos válidos, seria importante que os que apoiaram esta lista explicassem de que forma continuará se desenvolvendo “esta possibilidade de construção democrática”, e de que forma nossas representantes pretendem levar adiante sua representação totalmente minoritária, para além de explicitar um projeto político que se revela claramente como de um grupo.
E finalmente, mais um “óbvio ululante”: a lista indicada pelo movimento, que se empossou rapidamente e nunca mais tocou no assunto estava encabeçada por....a Professora Rose Serra, uma das responsáveis pela adoção das “metodologias Lyssenkianas” na FSS!

A totalidade se manifesta...no silêncio.

Quarto pequeno clarão da totalidade.


Finalmente, vale a pena retornar ao início de toda esta série de questionamentos sem resposta à corrente marxista-lukacsiana-irracionalista-messiânica no serviço social. Começou com essa denúncia do autoritarismo com que estavam sendo “indicados” pelo movimento os candidatos ao conselho universitário.
Como qualquer analista perceberá, nesse singelo e simples gesto desvela-se a totalidade dessa concepção acadêmico-política: é o que se costuma chamar “o clarão da totalidade”, essa totalidade que, contrariamente ao que parecem pensar os representantes da corrente hegemônica do marxismo vulgar, não aparece – o que, pensando dialeticamente, é o previsível - nas cansativas enumerações que supostamente nos trazem “o contexto da totalidade” sem acrescentar coisa alguma, mas como uma breve aparição que nos mostra a riqueza e a presença da totalidade. E um dos elementos dessa totalidade inclui o projeto de poder – é isso mesmo, vontade-de-poder, pura e simples – que, como estamos carecas de saber, como não pode se apresentar na sua crua nudez, precisa inventar “legitimações” (podemos chamar a essas legitimações de “mirantes epistemológicos”!) que apresentem um “caráter e interesse social, ou geral” para o que nada mais é que o interesse político e a vontade de poder de um grupo da pequena burguesia intelectual acadêmica. Isto não apresenta nenhuma novidade, qualquer projeto político, qualquer projeto de poder participará destas características. Apenas alguns setores da pequena burguesia teimam em se auto-enganar e pretender que ninguém percebe. “Finge que está abafando” parece ser a palavra de ordem desta corrente.
Entretanto, apenas está cumprindo a tarefa histórica do stalinismo, que, contrariamente ao que afirmam alguns, não foi “...construir as bases materiais para a transição ao socialismo...”, mas... a destruição sistemática de todo e qualquer pensamento crítico!.

E agora?

A partir do meu primeiro email, aquele em que afirmava que a produção da autodenominada “corrente hegemônica” na faculdade estava cheia de erros grosseiros, temos andado um bom caminho. Certamente, um bom número de exemplos vão se acumulando....( O acervo está ficando de bom tamanho!)

Por último, um pequeno relato de um caso, para se ter uma melhor idéia da dimensão do ridículo desta corrente:
Bastante tempo atrás, conversando com algumas alunas do curso, uma delas disse mais ou menos o seguinte: “Leio estes textos (referia-se aos textos de alguns representantes da “corrente hegemônica” no serviço social) como um sapinho que anda sobre as pedras de um laguinho: pulando de uma palavra conhecida para a seguinte. Mas eu acho que meus professores também fazem isso. Eles fingem entender e repetem sempre os mesmos chavões. Por que um texto tem que ser ilegível? No final, pego um monte de citações e pronto, mais uma disciplina aprovada. O que isso tem a ver com a nossa realidade? Eu ralo muito para estudar. Que futuro me espera com esta formação?”

Era, é claro, uma aluna não apenas inteligente mas com senso da realidade e preocupada com seu futuro, expressando sua perplexidade perante à ilegível, obscura e confusa “produção teórica” da “corrente idealista-lukacsiana-hegeliana-messiânica” no Serviço Social!

No entanto, é o projeto de poder desta “corrente hegemônica” que continua

- determinando a agenda das decisões políticas e institucionais dentro da FSS
- influenciando a discussão das reformas do currículo da carreira de serviço social
- “indicando” os candidatos a serem representantes da FSS
- influenciando linhas de pesquisa, bibliografias e trabalhos,
- julgando trabalhos (fico arrepiado só de pensar que nossos trabalhos, trabalhos de colegas e ainda de alunos são julgados a partir de bases epistemológicas inexistentes e de erros metodológicos grosseiros)

Finalmente, será que a eliminação da “visão a partir da totalidade” por parte do MEC deveria ser lida não como uma divergência política e sim como um ato de “correção” acadêmica perante o ridículo de pretender justificar uma posição teoricamente insustentável no século XXI? Vale a pena pensar no caso de novo....

 

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