Entre a fé e a pós-modernidade

Entrevista exclusiva de Karl Marx para Limite XXI

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Fundamentos Ontológicos, Fé e Pós-Modernidade:
Problematizando o Natural

Emilio Enrique Dellasoppa /UERJ

Pressupostos , Saber e Verdade (cont.)

Curiosamente, as garantias viram fumaça, já que a resposta a estas questões é subjetiva. O texto de Löwy, escrito na metade da década de 1980 e publicado antes da queda do bloco socialista, expressa o irracionalismo messiânico que era comum em muitas correntes marxistas, apesar dos pretensos fundamentos ontológicos. Como Löwy é consciente da enorme quantidade de tendências marxistas mutuamente incompatíveis, considera que nenhum grupo ou indivíduo poderá atribuir-se o ponto de vista do proletariado em um momento histórico que denominaremos arbitrariamente t, porque:
 
“Em outras palavras: o ponto de vista do proletariado não é monopólio exclusivo de um único grupo o corrente, mas representa, em cada momento histórico, o horizonte comum 6 a um conjunto de forças políticas e intelectuais, sociais e culturais que reivindicam a visão proletária – isto é, de sua utopia revolucionária. Seria tanto mais ‘autêntico’ na medida em que soubesse escapar à influência mistificadora das ideologias conservadoras (burguesas, patriarcais ou burocráticas) e unificar dialeticamente (sob o ponto de vista da totalidade), em seu nível superior, a multiplicidade das experiências da classe.” ( Michael Löwy: As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. Editora Busca Vida, São Paulo, 1987, 3a. Ed., p. 202) (Itálicas EED)
Para resolver a complicada situação da existência de subjetividades múltiplas, Löwy aprofunda seu apelo ao irracionalismo messiânico, no que poderíamos considerar como uma versão adaptada por M. Löwy da técnica do Barão de Münchhausen. Nas páginas 199-200 do texto citado o autor define em dois conjuntos de proposições os elementos que segundo ele caracterizam a “...especificidade do ponto de vista proletário com relação ao das classes revolucionárias do passado...” . Depois, na página 201 pergunta-se:
 
“Estes dois conjuntos de proposições são demonstráveis cientificamente? Advém de análise empírica de fatos? Sim e não. Sim, na medida em que se pode, até certo ponto, deduzi-los da condição objetiva do proletariado na sociedade capitalista e da experiência histórica de suas lutas revolucionárias. Não, na medida em que eles são aceitáveis apenas para os que já optaram, para os que tomaram posição em favor do proletariado e de seu ponto de vista. Em outros termos, eles contêm um núcleo irredutível de fé, ou, mais precisamente, de aposta histórica sobre o papel emancipador do proletariado, sobre sua vocação universal e redentora” ( Itálica do autor, EED) (Como afirma na sua nota 15, o autor está re-elaborando uma proposta de Lucien Goldmann. )
Ou seja, todos os pressupostos desembocam num núcleo irredutível de fé, numa aposta histórica. Deixamos ao leitor a tarefa de aprofundar as conseqüências disto. Apenas queremos assinalar o ponto seguinte: os pressupostos que são oferecidos como fundamentando a única abordagem teórica que “...permite a resolução da positividade na análise concreta da sua concreta processualidade...”, como afirmado por Netto acima, são, ao mesmo tempo, declarados totalmente subjetivos. Para que este “saber” (discurso) funcione como produtor de “verdades”, como um elemento em um dispositivo estratégico de relações de poder, precisa-se que: a) trabalhe com a hipótese de uma “plebe” que não terá condições de questioná-lo; (a plebe é o alvo constante e mudo dos dispositivos de poder (Foucault,2003: 244-5)); b) possa ser articulado a outros elementos do dispositivo estratégico, o mais importante deles é o representado pela “lógica da censura”.
Como pode ser observado, existe uma fragilidade radical no sistema. Mas esta fragilidade radical não terá efeitos sobre o dispositivo estratégico e sobre o poder na medida em que possa, na interação poder/saber, ser trabalhada com ajuda de outros dispositivos estratégicos. Poderíamos repetir, com Foucault, que “... verdade que não é a verdade que me preocupa. Meu verdadeiro problema é forjar instrumentos de análise.” (Foucault, 2003:240). Apenas através dos instrumentos de análise podemos entender a complexa relação entre saber/verdade e seu papel nos dispositivos estratégicos.
Dois comentários finais sobre este ponto. O primeiro, sobre o problema de adotar “o ponto de vista do proletariado”. Temos aqui um problema de representação. Já que o que vale é o método “marxiano”, seria importante aclarar que Marx jamais disse que a classe proletária poderia ser representada. Segundo Foucault, (Foucault, 2003:40) Gilles Deleuze foi o primeiro a nos ensinar a indignidade de falar pelos outros. Ou de pretender falar, poderíamos agregar. Porque para falar por alguém, esse alguém tem de existir, o conceito deve ter um referente empírico.
O segundo comentário é então sobre o problema do referente empírico dos conceitos. O que significa exatamente hoje “proletariado”? Qual a conotação, denotação e extensão do conceito?
O que significa para a pequena burguesia acadêmica da Adchss “adotar o ponto de vista do proletariado”? Não por acaso, a validade do paradigma não está mais atrelada a um sistema conceitual com referentes empíricos concretos no presente, mas apenas ao método. Constitui-se assim o campo esterilizado dos que Foucault denomina marxistas “frouxos” ( Foucault, 2003:51), pela desconfiança que têm no que diz respeito ao material histórico e o respeito infinito que têm pelo texto, o que os acorrenta à tradição acadêmica da explicação do texto.

6 Observe-se que a caracterização do ponto de vista do proletariado se realiza utilizando a metáfora do “horizonte comum”. Porém, sabe-se que “...como seu nome grego sugere, um horizonte é ao mesmo tempo a apertura e o limite que define um infinito progresso ou um período de espera”. ( Derrida, 1992:3-67). No mínimo, podemos dizer que a definição do ponto de vista do proletariado como um horizonte é ambígua e voluntarista. Mas, em segundo lugar, muito mais séria é a seguinte questão: o que nos garante que esse horizonte existe? Na argumentação do M. Löwy absolutamente nada, essa existência é colocada como uma hipótese sem demonstração alguma, no suposto que o leitor de boa vontade a aceitará como artigo de fé.
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