T A I     C H I     C H U A N


TAO�SMO

        O Principal expoente do tao�smo � Lao Tzu (Lao Ts�). Mas ter� existido realmente este s�bio? Teria ele vivido mais de 300 anos? Como quase tudo na China, sua hist�ria mistura fatos com lendas, permitindo a correta percep��o do esp�rito tao�sta, mas falhando em fornecer acontecimentos e datas precisas.
       Lao Tzu teria nascido de uma gravidez de 80 anos, nascendo j� com os cabelos brancos. Nasceu, portanto, j� com a condi��o de s�bio.
       Resolvendo retirar-se da vida mundana, chegou a um desfiladeiro montado num b�falo negro. O guarda da fronteira pediu-lhe que deixasse algum ensinamento por escrito. O velho s�bio escreveu ent�o o "Tao Te Ching", deixando-o em poder desse guarda que, segundo a tradi��o, um tempo depois viria a ser o autor do "Segredo da Flor de Ouro", famoso tratado tao�sta de medita��o alqu�mica. O s�bio entregou o manuscrito de 5000 ideogramas e foi-se embora para o oeste, sem que ningu�m soubesse exatamente para onde.
       Ainda que n�o tenha existido um Lao Tzu, o fato � que a� est� o "Tao Te Ching", um dos mais inspirados tratados da humanidade, que s� � menos publicado do que a B�blia.
       � bom que se saiba, no entanto, que Lao Tzu n�o criou igreja nenhuma, nem seita. O que veio a se chamar "tao�smo", bem depois, era, na verdade, a velha religi�o animista da China, misturada com o pr�prio Lao Tzu divinizado, em meio a diversas divindades. Sem d�vida, a religi�o tao�sta teria sido causa de espanto ou riso para o verdadeiro Lao Tzu.
       No que consiste o "Tao Te Ching", afinal de contas? � um texto simples e condensado, mas quanto maior a simplicidade, maior a dificuldade, maior a apar�ncia herm�tica do tratado. O pr�prio "Tao" (o "Caminho") � um retorno � simplicidade, mas nem por isso f�cil de realizar. � um retorno � origem. Que origem � essa?
       A origem das coisas está no "Vazio". O "Tao" é o "Vazio", distinto do mundo dos fenômenos, anterior ao Céu e à Terra, anterior ao próprio Deus, imutável, eterno. Não se pode dizer propriamente que o Tao "existe", enquanto fenômeno. Embora traga bem clara a idéia de "Vazio", ele não é simplesmente o "nada", porque do nada, nada pode surgir. Ele não é real, pois se o fosse, seria mais uma "coisa" no mundo das "coisas" (fenômenos). Mas ele também não é tão irreal, pois as coisas reais resultam dele.
       Portanto, o que se diz do Tao não é o Tao. A linguagem é insuficiente para descrever o que está além e ao mesmo tempo na origem do mundo fenomênico. Para Lao Tzu o nome "Tao" é apenas um símbolo para algo impronunciável, incognoscível. Lao Tzu sempre se refere ao Tao por metáforas e Chuang Tzu o faz por parábolas.
       Entenderemos, no entanto, a vivência mística do Tao bem melhor se, ao invés de especularmos sobre o que a linguagem não pode alcançar, analisarmos aquilo que gera a linguagem, ou seja, a mente, e porque a mente é limitada.



"O "Tao gera o "Um"
 O "Um gera o "Dois"
 O "Dois" gera o "Três"
 O "Três" gera todas as coisas".



 (trecho do Tao Te Ching - Lao Tzu)



       O "Vazio" metafísico dá origem à primeira manifestação, o poder criativo. Mas ao fazê-lo, o simples fato da manifestação já é uma diferenciação, ou seja, o surgimento de uma unidade implica em uma dualidade: a manifestação e o "nada" anterior à sua manifestação. Se considerarmos um círculo como símbolo do Vazio, um ponto em seu centro será a primeira manifestação. Mas temos então dois elementos: o ponto e o círculo. Portanto, o surgimento da unidade implica em dualidade.
       Na dualidade, temos os princípios "Yin" e "Yang", a "Terra" e o "Céu". Falta uma interação dinâmica entre eles. Quando entram em equilíbrio, dão nascimento ao símbolo do Tai Chi.
       O símbolo do Tai Chi é, finalmente, o símbolo do mundo fenomênico. O Tao deu origem ao Um, o que implica no Dois (dualidade), a interação e o equilíbrio geram o Três, o símbolo do Tai Chi. O Tai Chi gera todas as coisas. Suas forças em equilíbrio, em forma de peixes se interpenetrando, com a semente do oposto em cada uma, demonstram movimento e rotação. O universo visível ("todas as coisas") está em movimento, ele é o mundo manifesto, é o Tai Chi em rotação (ver "I Ching - O Livro das Mutações").
       O Tai Chi simboliza também as forças cósmicas entrando em equilíbrio em seu termo médio: o ser humano!
       "Tao", entendido como "O Caminho", é conhecido como 'O Caminho Reverso", "O Retorno à Casa Paterna", "A Volta à Infância". Isso significa partir da multiplicidade, ou seja, do mundo dos fenômenos, superar as infinitas dualidades causadas pela movimentação dos princípios Yin e Yang, atingir a "Unidade Universal" suplantando o "Ego", e atingir o "Vazio".
       O problema do Caminho Reverso é superar a dualidade fundamental, à qual raramente é dada a importância devida: a dualidade "SUJEITO x OBJETO".
       O nascer da consciência no microcosmo (homem) é processado de modo análogo ao que ocorre nas manifestações macrocósmicas. Primeiro o ser, quando nasce, simplesmente "é", compartilhando este ato de "ser" com todas as coisas, com o universo, com o "Todo". Mas isso se dá porque ele ainda não processou mentalmente o ato de" ser". Quando ele o faz, o "pensar" é o emergir do "Ego", do "Eu". Pensando, terá perdido sua pureza original. O "Eu" e a mente são uma única e mesma coisa.
       Quando surge o "Ego" ("ego-ísmo"), a primeira manifestação no ser humano, automaticamente, por diferenciação, aparece tudo aquilo que não é o Ego, ou seja, "o outro", "o mundo". A mente, portanto, jamais poderá atingir a Totalidade, já que ela é apenas um único termo de uma dualidade. Todo o discurso da mente não passa de um ponto de vista. A cada posição dogmática assumida pela mente, emergirá a tese contrária. É exatamente por isso que o taoísmo tem pouca consideração pelo conhecimento racional; muito prudente, prefere suspender o juízo. É também por isso que a linguagem, instrumento de expressão da mente, que é apenas uma ponta de uma dualidade, é incapaz de transcender a si própria para descrever a "Unidade", ou uma "realidade" supra-racional.

Há um início. Há um ainda não-início a se tornar início. Há um ainda não-início a se tornar um ainda não-início a se tornar início. Há existência. Há não-existência. Há um ainda não-início a se tornar uma não-existência. Há um ainda não-início a se tornar um ainda não-início a se tornar uma não-existência. De repente, há existência e não-existência. Mas entre essa existência e essa não-existência, eu não sei de fato o que é existência e não-existência. Ora, eu acabei de dizer algo. Mas não sei se o que eu disse de fato disse algo ou se não disse nada.

(Chuang Tzu)

       A "Unidade", o "Tao", portanto, suplanta o "Eu" e está muito além da dualidade sujeito/objeto. Deve-se superar o "Ego" atingindo uma "Unidade" supra-racional, uma plenitude espiritual integrada com toda a Natureza, com todo o Universo.




O Céu é eterno e a Terra duradoura.
Eles são duradouros e eternos
Por não viverem para si mesmos.
Isso os faz viver eternamente.

Assim também é o Sábio:
Por menosprezar seu eu,
Este aparece em primeiro plano.
Ele renuncia ao seu eu
E a sua essência é preservada.
Não é assim?
Por não querer nada para si,
Ele próprio torna-se perfeito?


(Tao Te Ching - Lao Tzu)




       O Ego, com sua percepção parcial do universo, é que deve se confrontar com as outras dualidades manifestas. Como ele próprio é apenas parte de uma dualidade, não consegue resolver os dilemas da vida e da morte, do amor e do ódio, da alegria e da dor, do mundo dos desejos e das contradições.



É porque tenho uma personalidade
Que sofro de grandes males.
Se eu não tivesse nenhuma personalidade,
De que mal poderia sofrer?



(trecho do Tao Te Ching - Lao Tzu)



       Na verdade, se tentarmos encontrar o Tao em nós mesmos, jamais o acharemos, pois quem procura é a mente. Já somos o Tao. � precisamente a mente, o Ego, que nos impede de percebê-lo. O conhecimento da mente é relativo, requer uma rela��o sujeito/objeto, mas o conhecimento do Tao é absoluto, não requer qualquer objeto que seja.


O inconsciente
E toda a sinceridade do Tao
São perturbados por qualquer esforço
De demonstração autoconsciente.
Todas essas demonstrações
São mentirosas.

Quando nos exibimos
Dessa maneira ambígua,
O mundo exterior explode
E nos aprisiona.

Não somos mais protegidos
Pela sinceridade do Tao.
Cada novo ato
É um novo erro

(Chuang Tzu)


É inútil tentar atingir o Tao como se fosse uma "luz". Ele não é "luz" nem "trevas". Ele é eterno e permanece o mesmo todo o tempo.

O Tao está além das palavras
E além das coisas.
Não se exprime
Nem por palavras,
Nem pelo silêncio.
Onde não existe
Nem mais as palavras,
Nem o silêncio,
O Tao é apreendido.

(Chuang Tzu)

Para encontrá-lo é necessário simplesmente "ser". O Homem que realizou o Tao está muito além da dualidade do corpo e da alma. Está claro que um Homem como esse venceu a morte, já que ela pertence ao mundo dos fenômenos, que ela compartilha com o Ego, e não com o "Ser" verdadeiro.
       No entanto, falar sobre o Tao, exatamente como fazemos agora, não é mais do que mera especulação intelectual. Vejamos como os taoístas concebem aspectos práticos sobre "O Caminho do Retorno", isto é, retornar ao estado de "somente ser", antes de "pensar". Deve-se abandonar todos os caminhos e, de um certo modo, perder-se a si mesmo.




Tudo de que o peixe necessita
É perder-se na água.
Tudo de que o homem necessita
É perder-se no Tao.


(Chuang Tzu)





       O caminho que conduz ao Tao pelo ser passa pela aceitação dos opostos no mundo dos fenômenos. Quanto mais livre nos tornamos das ambições ilusórias, tanto mais nos libertaremos do próprio ego. A seguir, não olhamos mais para o mundo sob o açoite do medo, ou cheios de esperança, mas puramente como se ele fosse um objeto. Verificamos que todas as coisas surgem e crescem, e que retornam sempre à raiz.

(Richard Wilhelm).


Cria em ti o vazio até o grau mais elevado!
Preserva a tua serenidade até o estado mais completo!
Depois, tudo pode elevar-se simultaneamente.
Eu vejo como as coisas evoluem.
Todas as coisas, por mais diversas que sejam,
Retornam à sua raiz.
Retornar à raiz significa serenidade.
Serenidade significa voltar ao destino.
Voltar ao destino significa eternidade.
Conhecimento da eternidade significa clareza.
Quem não conhece a eternidade,
Acaba em confusão e pecado.
Mas quem conhece a eternidade,
Torna-se tolerante.
A tolerância leva à justiça.
A justiça leva ao domínio.
O domínio leva ao Céu.
O Céu leva ao Tao
E este à continuidade.
Durante toda a vida não se corre mais perigo.

(Tao Te Ching - Lao Tzu)

       A questão crucial é, portanto, serenar a mente e o coração. Por "serenar o coração" entendemos renunciar aos desejos, porque o coração do homem não poderá ser satisfeito nem mesmo com o infinito. A serenidade do coração é simultânea em relação à serenidade da mente.
       Para acalmar a mente, o primeiro passo é a "meditação do Vazio". Trata-se de sentar-se com toda a calma e procurar não pensar. Sem dúvida, é uma prática extremamente difícil deter o fluxo da mente. Mas nunca se deve lutar contra os pensamentos, sob pena deles levarem a melhor, o "Sábio não luta". O que se deve é deixá-los fuir como um rio, dando cada vez menor importância a eles. Há um sem número de práticas de "yoga taoísta" para circular energia e promover a iluminação, mas pertenço a uma corrente que prefere se dedicar exclusivamente ao "cultivo do Vazio". "Sentar-se na Calma" ou cultivar a serenidade na "Postura de Abraçar a Árvore" são suficientemente efetivas. Quando se conseguir atingir a serenidade, então não será preciso mais nada, o praticante está pronto. Não há um Tao a ser atingido, mas sim ignorância a ser removida. Serene a mente, o mundo das manifestações ilusórias desaparece e...o que fica é o Tao!
       A prática do Tai Chi Chuan é efetiva ao máximo. Enquanto treina o corpo, faz circular a energia pelos meridianos beneficiando os órgãos internos, mantém a mente ocupada controlando o corpo na execução de movimentos lentos, suaves e exatos. Pode não se perceber, mas ao fazê-lo a mente controla a si própria, baixando a ansiedade e reduzindo o turbilhão de pensamentos desconexos. Com a prática e o tempo, a tendência é a mente serenar cada vez mais, através de um auto-controle, atingindo o Vazio no �mago do movimento. O Tai Chi Chuan só pode ter sido criado num círculo de taoístas.



       Enfim, � preciso compreender que o Tao�smo n�o depende de qualquer credo, podendo dispens�-lo ou harmonizar-se com ele. � muito mais uma atitude diante da vida, ou at� mesmo a nega��o de qualquer atitude, deixando que a Natureza siga seu pr�prio rumo. E � isto que se chama "N�o - A��o" . Nem mesmo as praticas do Tai Chi e Medita��o sequer s�o necess�rias, em �ltima an�lise.
       O Tao�smo est� reservado aos Puros de Cora��o.







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