A habitação satisfaz necessidades fisiológicas, psicológicas e culturais:
necessidades de abrigo, de repouso, de libertação de imposições materiais,
de bem-estar; necessidade de consideração, de intimidade do grupo familiar;
necessidades de separação de funções, de urna certa autonomia e de
relações exteriores.
A casa deve ser funcional para satisfazer todas estas necessidades, que
diferem de sociedade para sociedade. A mentalidade, o meio, a economia, o
género específico da ordem social, reflectem-se, naturalmente, na habitação.
A casa está, sobretudo, ligada à família. Esta, nas sociedades
subdesenvolvidas ou rurais, não é só a unidade de consumo, mas também
constitui uma unidade de produção, directamente ligada a exploração da terra
e materialização da habitação. A estrutura do grupo familiar que nela habita
influencia a disposição das partes, a função e o significado que lhes é
dado.
Raramente, a habitação é construída independentemente dos futuros
habitantes, como sucede nas sociedades industriais. O próprio lugar depende do
ambiente físico em que a habitação se implanta e do contexto socio-económico
em que se integra.
Os Cuanhamas não procuram locais estratégicos, pois não há eminências
que possam ajudar à defesa. Procuram locais próximos da água, com bons
terrenos para culturas e pastagens e cercam-nos, cuidadosamente, com altas
paliçadas.
Não existem aldeias. Cada família ocupa o seu eumbo e está separada dos
seus vizinhos por distâncias, às vezes, consideráveis.
Logo após o casamento, o homem procura realizar a sua aspiração imediata -
ter casa - o mais breve possível. A habitação é provisória e construída
com materiais da região. Não exige a intervenção de nenhum "mestre
especializado", mas não é trabalho fácil, ao contrário do que uma
visão ligeira e superficial pode fazer supor.
São necessária grandes quantidades de paus, que têm de ser cortados e,
algumas vezes, transportados de grandes distâncias, bem como vergas e ataduras,
e capim para as coberturas, etc.
O futuro ocupante é ajudado pelos parentes. As mulheres apenas cortam e
transportam o capim para a cobertura. O tempo gasto nos trabalhos de
edificação da casa depende, obviamente, de muitos factores - número de
trabalhadores, dimensões da casa, distância a que estão os materiais de
construção, diligência, etc -, mas pode levar meses.
O
eumbo é formado por um conjunto de pequenas construções de base
circular, parede de pau-a-pique, sem janelas e coberturas cónicas de colmo. O
número de cubatas dependerá do número de mulheres.
É cercado por uma alta paliçada que tem uma entrada voltada para leste e
fechada por paus verticais que, na extremidade inferior e na parte superior,
estão entrelaçados entre dois horizontais. Além desta, há outra porta falsa
camuflada com espinheiras.
Aquela entrada estreita dá acesso a um corredor labiríntico que leva às
divisões interiores (cada um tem as suas funções), onde se encontram as
palhotas, cobertos para trabalho e descanso, barrigudos celeiros, etc.
Há também a casa dos rapazes solteiros ou dos recém-casados, com o seu
local de reunião privativo, ao lado. E ainda os currais: curral das vacas com
as crias (oshunda), curral das crias (oshinhongo) e o grande curral dos bois e
das vacas sem
crias (ohambo). E por último há a citar o galinheiro, o mictório e o local
dos pilões. Não há nenhuma construção religiosa. Mas os paus sagrados (oifonono)
são colocados, com cerimonial, no olupale, onde se conserva o fogo acesso ao
modo primitivo: friccionando dois pedaços de lenha mole.
Costumam pendurar nos paus da paliçada que cerca o olupale todos os chifres
de bois e antílopes abatidos pelo dono da casa.
O uembo dura uns dois ou três anos, ao fim dos quais o mudam, mas para
perto. Os currais vão passando, sucessivamente, a servir de campos de cultura,
até que o terreno em volta se esgote.
O mobiliário e os utensílios domésticos são: toscos, simples,
rudimentares e são feitos com materiais da região.
As palhotas destinadas a quartos de dormir dispõem de uma esteira de folhas
de palmeira, colocadas no chão térreo ou sobre um estrado feito com tábuas ou
paus assentes sobre quatro forquilhas e amarrados, lado a lado, com casca de
árvore.
As cadeiras e bancos são substituídos por troncos de árvores. As panelas
de barro, os vasos de madeira para o leite e cerveja e os "pratos"
feitos com vegetais entrelaçados constituem os principais utensílios
domésticos.