Resumo Histórico

 

Capítulo

5


Título            2

Resumo histórico      

S

éculos XIX e XX. O século XIX se caracterizaria por movimentos de predomínio absoluto da pintura - romantismo, realismo, impressionismo, pós-impressionismo. Por isso mesmo, essas etiquetas são menos úteis e menos precisas quando aplicadas às escolas de escultura do mesmo período. A escultura monumental, oficial, entrou em decadência.

No panorama do século XIX têm importância os pequenos bronzes de animais de Antoine-Louis Barye e a escultura episódica de grandes pintores, como Honoré Daumier (figuras grotescas), Edgar Degas (dançarinas), Paul Gauguin (relevos, cor, simbolismo exótico). O fim do século marca o início da fase moderna na pintura, com Paul Cézanne, e na escultura, com Auguste Rodin.

A Rodin seguiram-se Aristide Maillol e Émile-Antoine Bourdelle. Foram, porém, os discípulos de Cézanne, como Picasso, Brancusi, Archipenko, Lipchitz, Henri Laurens e Julio González, que revolucionaram a escultura, rompendo com a tradição formal de Fídias e dos santeiros medievais, a que o próprio Michelangelo permanecera fiel, e a que se conservaram ainda fiéis, no século XX, nomes como Henry Moore e Marino Marini.

A carreira de Rodin desenvolveu-se lentamente, ao longo de um aprendizado de vinte anos. Entre sua primeira obra exposta, "A idade do bronze", de 1877, feita com modelo vivo (Rodin costumava ter modelos - homens e mulheres nus - em seu estúdio, para captar, de passagem, uma pose que lhe agradasse), e o "Balzac", de 1897, vai uma grande distância. "A idade do bronze" sofreu a influência de Medardo Rosso, escultor italiano contemporâneo de Rodin (e que também influenciaria Brancusi, os futuristas italianos e os jovens escultores do segundo pós-guerra). Já o "Balzac" é impressionista.

Em contraste com o estilo de Rodin, e originando uma nova serenidade, moderna, a obra de Maillol reinterpreta o ideal helênico. Sua estatuária, límpida e monumental, muito deve aos últimos nus de Renoir-Guino. A obra do francês Gaston Lachaise é uma versão americanizada da obra de Maillol.

Já Picasso realizou uma obra pessoal, embora de início elaborasse ainda seu período rosa: a "Cabeça de mulher" (1909); o "Cálice de absinto" (1914), em bronze pintado; a "Sela de bicicleta (1943); o "Bom Pastor" (1914), em gesso; as duas "Tête de mort" (1943), em bronze, e (1944) em cobre; e "A Cabra" (1950), obra em bronze.

Na primeira "Jeanette", de Matisse, percebe-se ainda a textura característica de Rodin. Nas outras versões e nas outras obras - fez cerca de sessenta peças - Matisse exibe estilo próprio, embora ainda inspirado em Rodin e em Barye. "Onça devorando uma lebre" (1899) é cópia de uma peça de Barye. Henri Laurens, aluno de Rodin, consagrou-se ao cubismo depois de seu encontro com Georges Braque: "Mulher com leque" (1917), "Guitarra" (1918), "Garrafa e jornal" (1919). As obras posteriores, das décadas de 1930 e 1940, mostram sua concepção individual da harmonia plástica: "A grande musicista" (1938) e "A Sereia" (1944).

Archipenko, escultor ucraniano radicado em Paris a partir de 1908 e nos Estados Unidos a partir de 1923, seguiu o mesmo caminho. Os futuristas italianos, como Umberto Boccioni, pregavam a abolição da linha e da escultura fechada. Queriam abrir a figura para pôr lá dentro o ambiente. Boccioni tinha também uma obsessão particular, a de representar o movimento ("Desenvolvimento de uma garrafa no espaço", de 1912, e "Formas únicas de continuidade no espaço", quase um relevo, de 1913).

O mais conhecido dos primeiros cubistas, Jacques Lipchitz, é o autor do "Prometeu estrangulando o abutre" (I, no palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro; II, no Walker Art Center, Minneapolis, Estados Unidos). Evoluiu para o surrealismo sob influência de Picasso e da arte primitiva africana, mas fez nos Estados Unidos obra pessoal e dramática.

A abstração, que seguiria rumos variados na pintura, tomou uma única direção na escultura cubista. Assumiria caráter peculiar na obra dos irmãos Antoine Pevsner e Naum Gabo, que se ligaram ao construtivismo de Tatlin, apesar da condenação do abstracionismo pelos soviéticos. Expatriados, permaneceram fiéis a ele. As esculturas geométricas de Gabo tentam prender o espaço numa teia translúcida e frágil. Já as obras de Pevsner são opacas e espessas, mas não menos rigorosas ou matemáticas.

O expressionismo alemão, voltado para o sofrimento e a alienação, é contemporâneo do cubismo da escola de Paris. Ernst Barlach, influenciado pelo artesanato camponês e pela tradição medieval, é a figura mais representativa do movimento. Wilhelm Lehmbruck, ligado também ao gótico, mas fascinado pelo Jugendstil, fez obra classicista, a seu modo, e de inspiração nacional - se bem que angulosa e aflita, marcada pelo desespero e pelas frustrações de sua época. Ossip Zadkine, figura intermediária, está ligado à França e ao expressionismo alemão. Fez talha direta e, depois, modelagem; fundiu o bronze, produzindo peças um tanto melodramáticas.

O escultor mais importante da primeira metade do século XIX é, porém, Constantin Brancusi, romeno radicado em Paris, que começou como escultor em madeira. Embora suas primeiras figuras só remotamente lembrem formas tradicionais, Brancusi não se tornou jamais um escultor de todo abstrato. Em busca do segredo da matéria, simplificou incessantemente, repisando sempre uma série limitada de temas. De "Mademoiselle Pogany" existem três versões em mármore e pelo menos nove em metal. "Peixe" e "Pássaro no espaço", obras da maturidade, parecem apreender a essência da velocidade e da liberdade.

Jean Arp, escultor abstracionista, tinha os mesmos objetivos de Brancusi. Todavia, introduziu em sua obra um elemento de intuição, de poesia, e de imprevisto. Foi um dos fundadores do dadaísmo, movimento artístico e literário. Max Ernst, principal teórico desse movimento, fez esculturas que vão além do simples surrealismo. Marcel Duchamp, nome igualmente inseparável do dadaísmo e do surrealismo, foi um dos inspiradores da pop art contemporânea.

O único escultor surrealista realmente importante foi Alberto Giacometti, suíço que estudou com Bourdelle e se pôs a trabalhar sozinho por volta de 1920. Depois de breve incursão no surrealismo (obras em fio de ferro), criou o estilo que o faria famoso e em que as figuras, por vezes minúsculas, lineares, conformam-se, assim mesmo, à tradição monumental figurativa da antiguidade oriental e clássica e à realidade visual.

Século XX. Artistas como Giacometti procuraram novas soluções ou uma nova abordagem para as relações entre forma e espaço, formas vivas e abstrações intelectuais. No século XX, a escultura feita com fios de metal, folhas ou placas soldadas ganhou vida nova com Julio González ("Montserrat I", 1936-1937) e David Smith.

Henry Moore, adepto da talha direta (como Brancusi), tentou exprimir-se num vocabulário mais condizente com a madeira e a pedra. Tendo descoberto, no começo da carreira, a arte pré-colombiana, tomou gosto pelas figuras refinadas e maciças, de uma qualidade de arquétipos. A adoção dessas grandes massas tranqüilas é evocadora; mas os interiores cavados são uma invenção sua e criam, ao contrário, uma interação inédita entre massa e espaço. A partir da década de 1950, passou a trabalhar em bronze, com a nova liberdade que confere a modelagem em argila.

Alexandre Calder, inventor do mobile e do stabile, inovou a escultura, no plano técnico e no plano estético. Abstratas, coloridas, leves e móveis, suas obras são bem-humoradas e de grande aceitação popular, sem que por isso percam em qualidade.

A tradição figurativa não foi de todo abandonada pela escultura contemporânea. Marino Marini explorou o tema do cavalo e cavaleiro, na linha toscana, sólida, terráquea. Giacomo Manzù, mais jovem e mais audaz, fundiu real e surreal (porta da basílica de são Pedro, retratos do papa João XXIII, série dos "Cardeais").

George Segal, que não se pode chamar de artista pop, povoou ambientes convencionais de formas também convencionais mas inteiramente brancas, enfaixadas como múmias ou acidentados, de efeito insólito no cenário colorido (exatamente como a "Santa Teresa" de Bernini em seu altar barroco). Louise Nevelson e Joseph Cornell fizeram grupos abstratos, em molduras ou em caixas. Nevelson recorreu também a montagens, com objetos heterogêneos.

David Smith - talvez o maior escultor da segunda metade do século XX - construiu gigantescas peças em metal soldado e pintado, que seriam as primeiras proposições originais feitas para substituir certos postulados da estética e dos métodos da escultura desde os tempos antigos. Nessa nova orientação, seriam inumeráveis os nomes a arrolar. Anthony Caro, que estudou com Henry Moore mas depois associou-se a Smith, começou a usar vigas e barrotes de tamanho descomunal. Tony Smith ("Amaryllis"), criou abstrações geométricas enquadradas no local a que se destinavam. Nicolas Schoffer realizou obras geométricas de grande complexidade, às quais acrescentou luz. Assim, a escultura manteve, no século XX, sua posição, renovando-se. Recuperou a tradição do monumento de praça pública e criou peças admiráveis que nada tinham a ver com o que se fizera antes (stabile de Calder em frente à gare de Grenoble).

Escultura no Brasil. Com a chegada dos portugueses, teve início um período colonial da arte da escultura, caracterizado pela importação de imagens de Portugal. Os séculos XVIII e XIX marcaram uma fase áurea da escultura brasileira, que apresentava características próprias, enfeixadas no chamado barroco brasileiro, quando na Europa já predominava o neoclássico.

Nesse período, destacou-se Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Algumas de suas obras-primas são as 66 figuras em cedro que compõem os passos da paixão do santuário de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas MG, e as estátuas em pedra-sabão dos 12 profetas, no adro da mesma igreja. Contemporâneo do Aleijadinho foi o mestre Valentim, que deixou, entre outras obras, as estátuas do Passeio Público, no Rio de Janeiro.

Em fins do século XIX e começo do XX, Rodolfo Bernardelli deu notável contribuição à escultura no Brasil. Celebrizou-se pelas estátuas eqüestres de duque de Caxias e do general Osório, pelo monumento do descobrimento do Brasil e outros. Em princípios do século XX, distinguiu-se o escultor Vítor Brecheret, cujo monumento aos Bandeirantes, em São Paulo (1922), foi considerado um marco do modernismo. Surgiram depois outros escultores que se tornaram célebres, como Maria Martins, Bruno Giorgi, José Pedrosa, Alfredo Ceschiati, Franz Weissman, Mary Vieira, Lígia Clark, Sérgio de Camargo e Franz Krajcberg.


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