A Arte do Metal

 


Capítulo

2


A arte do metal

O

s primeiros materiais utilizados pelo homem para o fabrico de utensílios, armas, jóias e objetos rituais foram a pedra, o barro, a madeira e o osso. A invenção e o aperfeiçoamento das técnicas de trabalhar o metal representaram um avanço decisivo para a evolução cultural.

Entende-se por arte do metal o conjunto das técnicas que possibilitam a transformação da matéria bruta metálica em objetos manufaturados. A expressão também designa as características estéticas adquiridas pelos trabalhos realizados com os diversos metais e ligas, segundo a época e contexto cultural.

Técnicas de trabalho. A forja é a mais antiga técnica de trabalhar os metais e consiste na modelagem das peças, previamente aquecidas ao rubro, com golpes de martelo ou por prensagem. Antes da invenção da solda, as peças de ferro forjado encaixavam-se entre si ou eram unidas a um núcleo sólido mediante rebites e pregos. O Museu do Cairo conserva uma excelente estátua de cobre do faraó Pepi I, feita por esse processo.

A fundição, inventada no quarto milênio antes da era cristã, passou a ser preferencialmente empregada, tanto na escultura como no mobiliário, embora ainda se mantivesse o uso da forja no trabalho com metais preciosos. O metal fundido é vertido em um molde e deixado em repouso para esfriar.

De acordo com o tipo de molde, diferenciam-se vários tipos de fundição artística. Na técnica da cera perdida, um modelo de cera é encerrado num molde de material refratário, como a argila. Durante o cozimento do molde, a cera se derrete e deixa um espaço vazio, que é preenchido com metal fundido. O molde deve ser quebrado para deixar livre o objeto produzido. Essa técnica foi criada por artistas sumérios e egípcios. São também empregados moldes de gesso ou madeira, que permitem produzir várias cópias.

Entre as técnicas decorativas incluem-se ainda o repuxado (modelagem em relevo de lâminas

       image004.jpg (9728 bytes)  Móbile de Calder. Construção em metal

metálicas, com um punção, instrumento de marcar), a cinzeladura (entalhe com martelo e cinzel, também usado para cortar partes das peças fundidas), a gravura, a incrustação, a esmaltagem, a douradura e outras.

Cobre. O primeiro metal não precioso utilizado pelo homem foi o cobre. Por ser relativamente mole, é muito maleável. Sua superfície pode ser dourada, gravada e esmaltada, embora não seja adequado à fundição. Uma das mais antigas e belas obras de cobre que se conhecem é o relevo decorativo da fachada de um templo no sítio mesopotâmico de Tell al-Obeid.

No Egito, a técnica do cobre alcançou qualidades excepcionais, bem como na Pérsia, Grécia e Roma. Na Europa, durante a Idade Média, foram fabricados com esse material muitos objetos litúrgicos, em geral decorados de forma rebuscada, com engastes, dourados e esmaltes. A partir da segunda metade do século XVI, passaram a ser feitos principalmente de prata. Do século XVII em diante, o cobre foi muito empregado em objetos de uso doméstico, como cestas e bandejas.

Bronze e latão. Ligas de cobre e estanho e de cobre e zinco, respectivamente, o bronze e o latão são freqüentemente confundidos. As técnicas de fundição do bronze são conhecidas desde épocas remotas, sendo o método da cera perdida o mais empregado. Conhecido na antiga Mesopotâmia, Pérsia e Egito, o bronze alcançou, entre os gregos, um grau  de aproveitamento estético incomparável.

Etruscos e romanos também foram excelentes artífices do bronze. Na China, desde 1500 a.C., objetos de bronze eram empregados em rituais de culto dos antepassados. Na Europa medieval, após vários séculos de decadência, a arte da fundição do bronze foi retomada até o ano 800, nos tempos de Carlos Magno. Para as igrejas foram fabricados sinos e portas monumentais, lamparinas de teto, bacias, crucifixos, cofres, relicários e candelabros.

Na Itália, os portões de Lorenzo Ghiberti para o batistério de Florença marcaram, no século XV, o apogeu das artes do metal no Renascimento italiano, ao lado da estatuária, da ourivesaria suntuosa e de uma joalheria que superou tudo o que já se fizera. Essa nova etapa do bronze chegou até o barroco.

A Alemanha e os Países Baixos mantiveram-se, em todo o século XV, dentro da tradição gótica. No século XVI, tornaram-se famosos os objetos de latão das oficinas de Nuremberg. Na Inglaterra medieval aprimorou-se a fundição em bronze, bem como o fabrico de pranchas de latão para cobrir lajes tumulares. Nos séculos XVII e XVIII criou-se na França o or moulu, ou dourado a fogo, para móveis de bronze. Na escultura do século XIX, Auguste Rodin representou a tendência à revalorização desse material, em suas mais de 150 réplicas da "Idade do Bronze" e em sua inacabada "Porta do inferno", inspirada em Ghiberti.

Prata e ouro. Desde a antiguidade o ouro e a prata são utilizados na feitura de jóias e peças suntuosas. As culturas do Egeu foram especialmente ricas em objetos de metais preciosos, como os vasos troianos, de formas simples e escassos adornos, as lâminas de punhal, os selos e enfeites de prata das tumbas minóicas em Creta e as máscaras funerárias de ouro de Micenas. Os persas das épocas aquemênida e sassânida foram também hábeis metalistas: suas estatuetas de ouro e prata são do século V a.C. Em Roma, no século IV a.C. surgiram as vasilhas de prata com relevos. As primeiras obras de prata cristãs, embora semelhantes às pagãs da mesma fase, já se destinavam ao culto.

Na Índia, utilizaram-se vasilhas de ouro e prata desde os tempos clássicos mas, do material anterior ao século XVII, quando foram produzidos vários tipos de recipientes de bronze, latão, cobre e prata, pouco se conservou. Os estilos e técnicas indianas influenciaram os países vizinhos. Da mesma forma, nas culturas pré-colombianas, os trabalhos em ouro, prata e cobre atingiram alto nível de qualidade. Antes da chegada dos espanhóis, os índios dominavam técnicas como as da cera perdida, da gravura e da incrustação.

Na Europa dos séculos VI e VII, os reis ofereciam à igreja coroas votivas e crucifixos de ouro, a exemplo do chamado tesouro de Guarrazar, dos visigodos. Na Idade Média, o trabalho com metais preciosos teve quase sempre caráter religioso. Alcançaram rara beleza, nesses tempos, os relicários e as encadernações.

No gótico, apareceram as primeiras sociedades de prateiros e ourives. São dessa época as monumentais custódias de prata (usadas para expor a hóstia consagrada), como a da catedral de Toledo. No século XVII, mobiliário de prata tornou-se moda entre os reis e a nobreza. A partir de então, a França ditou suas tendências estilísticas para toda a Europa. Artesãos ingleses levaram a prataria para a América do Norte, no século XVII. Na América Latina, as formas de origem ibérica predominaram no Brasil e nos países de colonização espanhola, nestes últimos também misturadas com a influência das culturas indígenas.

Ferro. A partir do ano 2000 a.C., o ferro passou a ser utilizado na Anatólia. Passou à Grécia no começo do primeiro milênio e logo ao resto da Europa. Apareceu na China durante a dinastia Chin (221-206 a.C.) e, após o século IX, substituiu o bronze como material escultórico.

A utilização medieval do ferro forjado ateve-se,  a princípio, às armas e instrumentos de defesa. Com o tempo, o trabalho dos artesãos dirigiu-se a outras áreas. A decoração das portas de igreja foi a primeira aplicação estética do ferro. Depois foram feitas grades que protegiam os tesouros das catedrais. São admiráveis as grades de ferro (rejas)  espanholas nas catedrais de Sevilha, Saragoça, Burgos e outras. A partir do século XVI o ferro foi empregado também no embelezamento das casas, jardins e praças com balcões, balaustradas e portões.

Seu apogeu foi atingido na Inglaterra, na França e em Portugal, em grades, balcões, corrimãos, portais e utensílios diversos. A partir do século XIX, a forja foi totalmente substituída pela fundição, mais adequada à indústria. Na França, Viollet-le-Duc e Orlando di Lasso promoveram o uso do ferro nas obras oficiais.

No fim do século XIX, Emile Robert, inovador do uso desse metal em decorações florais, tornou o ferro elemento essencial da construção. Ao ecletismo seguiu-se o art-nouveau, que, recuperando a tradição da forja, buscou um estilo coerente de arquitetura e decoração interior em que esse metal exerce papel dominante. O inglês William Morris revalorizou o uso do ferro, cuja metalurgia se desenvolveu sobretudo no Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Suíça, e na Espanha, onde Antonio Gaudi empregou o ferro de maneira insólita, em suas casas Milá e Güel (Barcelona).


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