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O atual aceleramento da globaliza��o, que se soma ao fato da humanidade ter concordado, desde o s�culo XIX, em obedecer no mundo inteiro o mesmo hor�rio - o de Greenwitch -, em ter adotado o mesmo calend�rio - o ocidental crist�o - , e, ter eleito uma assembl�ia mundial - a ONU -, funcionando desde 1947, leva-nos a crer que, durante o futuro mil�nio, a Terra se unificar�, permitindo que os homens voltem a falar uma linguagem s�.
"Eis que todos constituem um s� povo e falam uma s� l�ngua. Isso � o come�o de suas iniciativas! Agora, nenhum des�gnio ser� irrealiz�vel para eles."
Jeov�, um pouco antes de confundir a linguagem dos homens (G�nesis,11)
Construindo a torre:
Em tempos imemoriais, num vale da Mesopot�mia, os cl�s dos descendentes dos filhos de No�, Sem, Cam e Jaf�, em sua marcha para o Oriente, se encontraram e se puseram a construir uma enorme torre, a torre de Babel. Empilharam, para tanto, milhares de tijolos, colando-os uns sobre os outros, com betume, para fazer com que um dia o seu �pice penetrasse nos c�us. Provavelmente a inten��o deles era agradecer � divindade por terem escapado ao terr�vel dil�vio que tudo arrasara em tempos remotos. Mas n�o foi assim que Jeov� entendeu. N�o viu aquele colosso se erguer no meio do nada como um poss�vel agrado a ele, mas sim como prova da soberba dos homens. Queriam rivalizar-se com Ele. Resolveu intervir. Desceu em meio aos construtores e num gesto Dele todos come�aram a dizer palavras em l�nguas diferentes. Ningu�m mais se entendeu.
As l�nguas separaram a humanidade...
A confus�o come�ou em Babel:
Tamanha foi a desaven�a entre os humanos, que cada grupo resolveu partir para um canto distinto da terra. Desse desentendimento de Jeov� com os homens teriam nascido as confus�es que conhecemos e que padecemos. Um Deus que temia a for�a daqueles a quem dera vida, agora os enfraquecia pela eternidade afora, dando um idioma diferente a cada um deles. Foi certamente pensando nisso que Jean Jacques Rousseau, no seu Ensaio sobre a Origem das L�nguas, afirmou que elas nasceram das paix�es (dos rancores herdados dos tempos da Torre de Babel) e n�o das necessidades. Ou, como ele mesmo sentenciou, "n�o � a fome ou a sede, mas o amor, o �dio, a piedade, a c�lera que lhes arrancaram as primeiras vozes... para repelir um agressor injusto, a natureza imp�e sinais, gritos e queixumes."
Em Busca do Entendimento Perdido---
Recuperar os salvos do dil�vio:
Desde ent�o, tudo levava a crer que in�meras tentativas de reunir a humanidade, seja em que projeto for, redundavam em fracasso. Neste tempo todo, n�o faltaram profetas, nem poetas, conquistadores ou estadistas, fil�sofos gregos ou humanistas renascentistas, racionalistas ou revolucion�rios, messias de toda a ordem, que n�o tentassem reparar o estrago feito por Jeov� nas antigas terras da Babil�nia, e fazer com que a humanidade reencontrasse uma maneira de falar a mesma l�ngua, ou pelo menos se sentasse ao redor da mesa e, mesmo por sinais, tentasse recuperar o entendimento perdido pelos tataranetos de No�. E eles foram in�meros.
A disc�rdia esteve sempre presente...
A par�bola dos cegos:
Fosse S�crates ou Buda, Conf�cio ou Zoroastro, Jesus ou Maom�, Alexandre ou C�sar, Augusto ou Constantino, Dante ou Petrarca, Erasmo ou Las Casas, Kant ou Marx, n�o houve um s� deles que, reconhecendo a ess�ncia comum da humanidade, n�o propusesse algum tipo de restaura��o da unidade extraviada. Por�m, toda vez que os ouvidos dos homens e das mulheres estiveram atentos, sintonizados com o apelo para que voltassem a se reencontrar na terra de Senaar, alguma po��o de disc�rdia era ministrada para estragar tudo, para voltar a cegar os homens, gerando um novo desconcerto.
Do Otimismo ao Novo Dil�vio:
Certamente que n�o se vivia num para�so nos finais do s�culo XIX. O colonialismo do homem branco empalmara o mundo, mas todos se sentiam otimistas quanto ao futuro. Haviam inventado de tudo; as m�quinas a vapor espalhavam-se para todos os cantos; a locomotiva e o tel�grafo corriam o mundo; o telefone dava os seus primeiros chiados, e a expectativa de vida aumentara em um quarto ao longo daquele s�culo. Jules Verne, ap�stolo do progresso, previa maravilhas: homens no centro da Terra, homens viajando para lua, o capit�o Nemo no fundo do mar. Os Daimler-Benz e Mister Ford, por sua vez, anunciavam uma era motorizada para breve. O Progresso era a nova divindade a ser celebrada. A situa��o parecia ser t�o tranq�ila que at� os principais monarcas europeus, o rei da Gr�-Bretanha, o kaiser da Alemanha e o czar da R�ssia, Dicky, Willy, Nicky, como popularmente os chamavam, eram todos primos irm�os. Quem poderia suspeitar de um desastre ou imaginar uma briga de fam�lia naquelas propor��es.
A Torre Novamente em Ru�nas:
Os tijolos do novo mundo de paz estavam todos sendo empilhados pela tecnologia e pela prosperidade geral para erguer o edif�cio comum da civiliza��o no estupendo s�culo XX que se avizinhava, esperan�oso. E num zaz, tudo se foi num ver�o de 1914. Desta vez, n�o tratou-se s� de uma torre desmanchada, pois, em seguida, um dil�vio de sangue humano inundou a Terra. Por duas vezes, a primeira em 1914-18 e a segunda em 1939-45, a venenosa disc�rdia fez o seu estrago, obrigando a que as palavras usadas ent�o fossem vertidas em balas, petardos e bombas at�micas.
A Cautela no Erguimento da Nova Babel...
Os homens, adorando um combate, faceiros em poder matar-se por motivos nobres, autorizados pela p�tria, pela causa, pela na��o, imp�rio ou ra�a, n�o se fizeram de rogados. Ao som das cornetas e dos tambores tribais, quase exterminaram com a civiliza��o. Agora, novamente pacificados, ultrapassado mais de meio s�culo sem guerras mundiais, reflu�do o dil�vio de 1945, o vozerio dos sobreviventes vindo de todos os lados ergue-se a favor do retorno � era pr�-Babel. Mas que desta feita a humanidade se cuide, que fale baixinho, sem grandes alardes, que use pl�sticos no lugar de pedras e silenciosas ferramentas de pau na constru��o da nova torre - s�mbolo de uma humanidade unida - para que barulho algum ou estrid�ncia outra possa de novo despertar a ira de um deus. Se agir assim, isso a permitir� fazer com que, finalmente, nenhum dos seus generosos des�gnios seja irrealiz�vel.
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