ANTIFONA DA SEMANA SANTA
ANTIFONA
DO LEVITICO
QUATRO
ESTAÇÕES:
Primavera - Verão - Outono
- Inverno
FILOSOFIA DA ARTE PALAVRA & MÚSICA
Lâminas do Rosarium Philosophorum
Alegorias
de abril
II. VERÃO
I
A vertigem do homem é o espaço a percorrer
no tempo e a realidade que desenha, emoldurando
a imagem ora dispersa, ora concentrada
na retina, a qual sem nada ver o que supõe estar
distante ali contempla, tal a profusão de casas
e as árvores, as aves ligeiras ocupadas
em disputar o espaço que percorrem
as pombas junto aos charcos arenosos
da vivenda senhoril de teto alto, a área
depositada na lembrança de um período
da infância de onde contemplava o barro
ao qual deseja retornar como indício de vida
rente ao quintal repleto de vinhas e mangueiras
e frutas no pátio despencadas.
O tempo é a certeza de uma fuga
que a memória recolhe transformando os fatos
em diapasão vertiginoso que ultrapassa a história
ao apontar a idade anterior com o fulgor longínquo
do mito que faz tudo reaparecer e desaparecer
transitando por mar, estrada ou vôo indefinido
de um sonho que não modifica o regresso
à origem onde está o vinho da paz
anterior ao rapto da atra divindade
e o sinal onde se põem os pés
disparados no ponto de partida como em suas margens
o rápido rio a levar as águas a um destino
que ao nada se assemelha enquanto à Essência cabe
a diferença anterior ao indefinido curso
das águas. A ela cabe esse calor da estação,
as frutas maduras e o canto do sabiá a prenunciar
o plantio do milho desde a primavera
quando começa o tempo a colocar nos corações
o fogo de Áries que o esplêndido fulgor
da Juventude tece e eterniza-se no deus
que ao raptor de Helena protege no combate a Agamemnão
côo elogio à pantera que no jovem prenuncia
Paris e tem na guerra a ação que o joelho leva
a lugares inóspitos apenas compensados pelos braços
alvos da bela filha de Argos, igual a uma deusa em formosura.
Tal é o verão que prenuncia a ardência dos frutos
em conluio com a negra noite acolhedora dos corpos
em delicioso cerco de pêlos eriçados e as línguas
a entrelaçar-se em afagos delicados como labaredas
que se prolongarão até que cansados da refrega
baixe o sono e aos corpos devolva o aprazível descanso
a que os mortais estão sujeitos por todos os verões
e primaveras, por outonos e enregelados invernos
quando o congresso é uma dádiva aguardada
com a nostalgia dos melhores tempos já vividos
e ainda vivos pois de nada vale estar debaixo
das graças sempiternas se não as acolhermos
mesmo no sofrimento ainda vivo na lembrança,
às quais rendemos os sagrados atributos
da vida seja nas refeições ou no convívio ruído
de nossa descendência sobre a qual depositamos
a esperança de ver-nos prolongados.
O despontar de um novo dia
aplaca com os dedos a certeza do fim
O espelho é um refúgio onde todos os rostos
são iguais. E dentre todos um é o primeiro.
2
Dezembro é o mês do calor e de banhistas
regozijando-se nas praias, rápidos, a transitar
nas ruas rente ao meio fio, atletas jovens ou idosos,
todos de calção e bicicleta, junto aos transportes
que trafegam por toda a semana. Nos dias quentes
de verão alguns afluem aos parques, levam farnéis
e sentados na gama se divertem
comendo empadas e a farofa preparada
de frango assado que desfibram lentamente.
As crianças pulam, fazem alaridos na Quinta,
Estampando na face a cor rosada da aurora.
Dezembro é mês de verão. A caldeira
No porão faz delirar o turbilhão suspenso
do vapor onde é fervida a roupa e o hóspede
esconde-se com a rapariga em botão
atraída pelo olhar desejoso de desfrutar
os eflúvios da cripta sumarenta, a saborosa
colméia onde se oculta a rainha das abelhas.
Estar fora do tempo é descuidar-se
da fábula tecida no convívio dos corpos que se atraem
e aguardam o íntimo fugidio que se cumpre
e apaga-se pois o espaço a todos rapta.
O tempo é representação, uma vontade em curso,
que há de cumprir-se em desígnios
que recrudescem ou se aplacam não correspondendo
ao que convém ao senhor de uma vontade
serenada de súbito pela aterradora que o emborca
e curvado sobre os joelhos morde a língua e a seguir
é estendido no chão sob o olhar atônito
dos que acorrem admirados diante do corpo
flúcido. A companheira inquieta-se com a presença
da sobrinha rejeitada despertando a ira
do pai que com palavras trepidantes
aconselha a moça a retirar-se e sumir da casa
tomada pelo morto. A fórmula do tempo
é emoldurada pela realidade
que se projeta e contém a imagem
brilhante no painel onde é tecida a fábula que o mito
recolhe e incrusta-se em sua mudez capaz de discernir
a sacralidade do real no âmbito da luz e da palavra
anterior ao debuxar do signo qual medalha
no templo que guarda os hieróglifos
de cenas como a que vemos na sala e o cadáver
a concentrar em sua mudez ainda quente o espanto
de pessoas que pouco antes adoçavam as bocas
com a refeição ligeira da manhã.
A coisa existe no sujeito o qual deve busca-la
no tempo que representa como fonte
o instrumento dionisíaco da vontade
que a razão codifica e tem na Morte o brilho
opaco em sintonia com a imaginação.
A paisagem dialoga com o sentido.
A imagem incorpora-se à realidade.
3
Nas trevas a imagem cumpre o risco no sonho
Iluminada sem a determinação que imprime
no espelha a semelhança organizada em um código
ao qual converge o escalão diuturno de um saber
que se renova em confronto com o seu marido
desde o núcleo pela negatividade a qual configura o duplo
tal a figura de Narciso na água
que o Eco repete simulando o movimento
da Forma e em seu bojo o espelho
bifurcado em similitudes, Analogia, Simpatia,
Aemulatio marcas do mundo
Recolhidas ao espelho
E projetadas como identidade.
Pois o dramático no espelho é o maravilhoso
que se ilumina, acendendo nas trevas o jorro da fonte
em lágrimas que são o testemunho do prazer transformado em entusiasmo
e beleza, o fogo a recolher a energia dos corpos em combate quais abelhas
a fabricar o mel do Amor, a essência em zumbidos
raptores da alma em botão dos amorosos.
Onde ocultar-se a semelhança se o espelho
Aprisiona a dualidade em sínteses que são a pantomima da Essência
camuflada na máscara da qual a palavra é o eco fugidio que aprisiona
o sentido e se impõe dotada de um princípio que tem no ar o instrumento
molecular da articulação que remete ao mito cuja alegoria se antecipa
à razão, ali onde a negação funda com a semelhança
a figura do duplo responsável pela indicação esquizofrênica do Outro,
o espelho, entremeado ao que perscruta uma pantomima que a mimese
não esvazia ao preservar em seus traços o cordão do imaginário a tecer a teia
da alucinação. A loucura debita a lucidez ao alucinatório que a imaginação
organiza e ao sonho antecipa-se em símbolos que são a divisão das partes
no estádio em que é um desvio a alegoria de uma arquitetura
fadada ao desencontro de caminhos que deviam se cruzar e distanciam-se
em direções opostas e que se encontrarão na região
setentrional da fábula.
Ao entendimento cabe a reunião
dos opostos a acompanhar a autonomia
da consciência cuja unidade à Verdade corresponde.
A Verdade é o equilíbrio dos pólos
que o entendimento e a imaginação
transformam em Beleza. Acompanhar a geometria da Verdade
é aplacar com a Beleza a alucinação.
Superar o assédio da imagem iluminada
pela imaginação é reduzir a realidade
transformada em linguagem
e domínio almejado da Vontade.
4
O Drama desenvolve-se no âmbito
da Semelhança. O espelho é uma moldura
na qual a realidade se aprofunda
e no espaço o tempo arquiteta
a Morada do Ser. Espaço e tempo
interagem, tendo como núcleo
o entendimento que se constitui
em alma e movimento por caminhos
que são o início e o fim da Geração
cuja Aliança está na Arca
e a tripulação dos pares
de opostos, o animal e o humano,
celebrados pelo rei que dançou nu
a exaltar o amor de Deus. A oposição
é uma conquista sobre a qual o tempo
reina, dispondo da Forma na sóbria geometria
de uma construção antiga
que a Muralha da China sintetiza
circulando montanhas e planícies
de pastores no campo a compor
as delicadas expressões do sonho
que o poeta teve com a borboleta,
da qual ao despertar não conseguia
desvencilhar-se, a divagar
no próprio sonho.
5
Um hausto convém ao que percorre a Muralha
Com a pasciência concentrada na extensão
de pedra a denotar a imperial sabedoria
de fragilidades, aspereza e concentração
na lentidão do tigre que dedica sua cultura
ao vale qual caminho de salvação
na dança mágica que conduz à origem dos passos.
Um grande hausto o maravilhoso impõe à aurora
próxima à terra. Desprendido da matéria
aborrece ao espírito a perda dos bens
incorporados à sombra do Hades prisioneira
desde a ruptura sob o aguilhião
da divindade negra. A marcha trepidante celebra
os rigores do Anjo, a música anuncia e o eco
fortalece. Os instrumentos em sintonia
pertencem ao rumor das aves.
O Anjo vingador traz o estigma tutelar
Imposto com a força da espada flamejante.
Ninguém o reconhece. Nem o Anjo sabe
de si na dramática missão de exterminar
o ignóbil, o que pagou com a vida
o opróbrio. Um corte cego no discurso
é a prática do Anjo vingador àquele
que completou o intento de apossar-se
do que não lhe pertencia. O Anjo o exterminou.
A garça ladra de Perséfone nas trevas
As forças concentradas emanam do Signo
que se desencadeia em função da Moïra
responsável por um fim que recomeça
no signo desdobrado em raízes que proliferam
configurando o universo voltado para o real
e o imaginário, o Absoluto, o senhor da imagem,
que a realidade aprisiona emoldurando
objetos em miniatura ou gigantes, as aves
imitadoras do canto na serra entre pastores
e um tempo que as vacas ruminam resguardando
o leite nas tetas a escorrer e o bezerro a tragar
repleto de alegria matinal.