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PALAVRA & MÚSICA

  Associar Música e Palavra é remontar à articular primordial da linguagem, a qual sofre a manifestação sonora da imagem a configurar com o mito o salto para o Conhecimento. A origem da Música constitui o fundamento oracular da Tragédia. O voltar-se para a essência do Ser é capturar na fonte a união dos contrários projetada como espelho da Semelhança em um espaço e um tempo que se interpõem formalmente como identidade e a linguagem recobre no sentido de organizar a representação do ser, tratado no poema Quatro Estações como discurso do simbólico a alternar-se dialeticamente como nos concertos homônimos de Antônio Vivaldi.

         Ars ou Arché é o emergir do Ser na linguagem. A sagração das Estações em sonoridade configurada pela vibração do ar organiza-se em ritmo e harmonia tanto na Música como na linguagem poética. O domínio de tal mecanismo estrutural convoca os ingredientes matemáticos do múltiplo na enumeração morfológica do sujeito representado pelo aspecto amorfo da Música e/ou verbal da Poesia, obedientes à bifurcação das notas musicais e do Alfabeto que se transmuda em discurso do simbólico.

         Música e Palavra têm sua origem na conjugação da escala sonora concebida em uma variação que se organiza em vibração e mutação da unidade. Tal interação rítmica e melódica é constituída de referenciais que se organizam em um discurso que se projeta a partir de um estado preexistente apreendido de maneira sinestésica como imitação e identidade. A reunião das letras e das notas musicais obedece a uma matematização contrapontística, a qual encontra na linguagem poética mecanismo análogo ao da Música, de maneira a se pensar na geometria originária de espaço e tempo como pressuposto natural de uma arquitetura a ser reconstituída no exercício do físico.

         O caráter poético do rito musical é inesgotável em sua sonoridade rítmica a perscrutar na Caverna o universo motivador do ritmo que se oferece ao Sentido como fonte de emoção, desespero e paixão concentrados na monocórdica sentença musical prenunciadora do sofrimento e da Tragédia.

         A Música como manifestação da Essência ao passar pelo sentimento emociona, perpetrando a fulguração do belo no limiar do Sagrado, que acompanha a linguagem poética como fundamento trágico da representação do ser.

         A contradição dos opostos tem na Música e na Palavra a sagração do Ser, que o indivíduo acompanha junto ao aniquilamento preconizado pela perda no tempo que começa e finda na realidade como um sonho, sem consumar-se na Máscara a refletir no espelho a persona. A perenidade da perda corresponde à origem da Tragédia. O atrito perpetua-se com a negação configurando na semelhança a Dor. A contradição dos opostos funda tal especularidade originária negação, que a Música faz ressoar e a linguagem poética transmuda em leitura.

         O sagrado confere ao Número o múltiplo revestido da unidade, cuja morfologia constitui o embrião.

         Tanto na Música quanto na Poesia a essência é o abismo delineado no imaginário como manifestação primordial do Signo a configurar o Ícone em sua divisão e reunião do sujeito transmudado em individuação no poema.

         No batimento rítmico das claves musicais e no Signo lingüístico voltado para o universo abissal da subjetividade observa-se na torre de Babel o indívíduo desejoso de comunicar-se. Se a Música é a “janela da alma”, a linguagem poética é a fermentação do sonho transmudado em realidade.

         A Essência caracterizada pelo simbólico funda o jogo de espelho da Semelhança. Tempo e espaço correspondem a essa dualidade em níveis que se transformam em imagem, ação e ritmo delineados com a Palavra em linguagem poética. O som possui a dimensão da luz transmudado em Música e Palavra, as quais se alçam a um plano superior de manifestação e desenvolvimento oracular análogo a um misterioso Ofício de trevas.

         Antônio Vivaldi (1678-1741) ao atingir com as Quatro Estações a dimensão renascentista do barroco torna-se mestre de um estilo pagão de característica sobretudo panteísta.

         Pensar a Música a serviço da Palavra é remontar a Platão. A Palavra é senhora da harmonia. “A música programática, descritiva, de intenções psicológicas, caracterizando situações cênicas”, é de expressão dramática em sua diversidade confiada a frases contrapontísticas de intensa sobriedade como nos quatro concertos de Vivaldi. O desejo de criar um ofício de poderosos acordes musicais propaga-se rapidamente, tal como em Henrich Schülz e as Quatro Paixões, Cf. A época do barroco, in Wolf e sua História de la Música. Nessa obra figuram a ária e o coral acompanhados por um coro de violinos. A unidade sonora dos instrumentos se funde ali enlaçando os grupos individualmente na estrutura polifônica, herdeira de Frescobaldi, de maneira descritiva, como nas Quatro Estações. Há uma ressonância do renascimento florentino e a prática musical em Mântua, no século XVIII, que induz a se conceber um sincretismo religioso nas Quatro Estações. Vivaldi retoma o caráter hagiográfico e alegórico de exaltação à Natureza, mesclando sua obra ao panteísmo teológico praticado mais tarde por Beethowen.

         Vivaldi é programático e descritivo nos quatro concertos. É contemporâneo de Alessandro e Domenico Scarlatti, mestres no terreno da música religiosa. O violino alcança seu apogeu após disputar primazia com a viola e chegar vitorioso ao sécujlo XVII e XVIII.

         No Renascimento o violino é instrumento ornamental. A música está destinada a tornar-se servidora da palavra. A arquitetura sonora das Quatro Estações pode ter servido de mediadora às Estações de Haydn (1801), embora as descrições da Natureza como obra vocal se atenham ao naturalismo beethoweniano de Max Reger (1873-1916) dedicado ao Salmo 100 sob a influência do coral de João Sebastião Bach. 

         Significativo na construção do poema que tem como título as Quatro Estações de Vivaldi é a entrega à linguagem poética no sentido de captura da Essência sob o aspecto dramático do cotidiano fixado numa temática que tem como analogia modelos estruturais utilizados de propósito em relação a tal metafísica, como nos Quatro Quartetos de T.S. Eliot, de cuja forma o poema quer virtualmente aproximar-se.
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