ANTIFONA DA SEMANA SANTA
ANTIFONA
DO LEVITICO
QUATRO
ESTAÇÕES:
Primavera - Verão - Outono
- Inverno
FILOSOFIA DA ARTE PALAVRA & MÚSICA
Lâminas do Rosarium Philosophorum
Alegorias
de abril
Onze Sonetos inéditos de Alegorias de abril
1
A “distância da fuga” não me alcança
se convivo comigo em dimensão
que velozes matéria e pensamento
percorrem tal a luz sem abdicar
dos sentidos e do entendimento
que o corpo representa e se refaz
transcendendo os limites temporais
da distância, a qual retém da luz
a vibração, do espaço o entusiasmo
concentrado na criação do Espírito
que se irradia com a sensação
de estar o corpo alado acoplado
aos laços invisíveis de um círculo
que a distância transforma em anel.
II
A Arca da Aliança tenho em minhas mãos
guardando o tesouro qual Davi
e a descendência agora em mim contida
do amoroso enroscado ao Caduceu
que a ti me leva a abrandar a ausência
em sonho, e em vigília interminável,
que teu rosto acalenta, descansado,
afeito aos apelos que te faço
de curar-me a aflição, a esperança
de contigo sentir em pensamento
a fúlgida, sagrada semelhança
de um deus dispensador afogueado
que tua boca recolhe, a mesma voz
a clamar benção ao teu corpo alado
III
Amo o Igarapé onde a flor
de teu corpo nasceu, entre os currais,
a cor da bosta verde de animais
e o pêlo lustroso dos cavalos.
Anseio o hálito de tua boca
a morder entre pétalas a fonte
do branco líquido a jorrar sem fim
em manancial na tua doce nave
que completa o encontro delicioso
que nos envolve em lúdico desejo
de transformar a sensação de um sonho
em permanente realização
dos mistérios da oculta natureza
presente nesse hábito fugaz.
IV
A quem procuro nestas terras frias
que ocultam tua imagem afastada
de todos os vestígios que ainda restam
além das malvas a enfeitar a casa?
-- Busco nos rastos indeléveis no ar
um soluço contido, a impressão
de reviver a mesma sensação
de ver a imagem que me leva longe
e rever a que sinto e não alcanço
pois na lembrança se desfaz a voz
da figura risonha, sempre afeita
a desatar-se e desaparecer
no vôo sem ao menos conduzir
em suas asas o meu pensamento.
V
Que busco nestas terras onde o pinho
me lembra lá no alto os sinais
da freira e o Demônio a perseguir-me
na carteira, ao lado da janela?
Busco meus ares de criança, busco
o medo a afligir-me, a impressão
de modelar antiga fantasia
da imagem que descubro com a luz
que desmaia e retenho nos meus braços,
e me foge como me foge o riso
que escuto com seu jeito sempre alegre
de ave a sobrevoar ao meu redor
tal uma fita que me prende ao gosto
de acompanhá-la e se desta no ar.
VI
Que arrojo me conduz a tão longínquos
lugares onde chego a vislumbrar
a retomada de uma antiga instância
do mito ao reconstituir os passos
que demos conduzidos por um deus
ao íntimo de nós naquela estrada
onde sentíamos pairar a imagem
de Eros e a música nos conduzia
aos idílios de abril que ainda cismo
revigorar-me ao sopro de um ardor
que mais me anima ao recordar o riso,
o jeito tépido de me chamar,
a ressoar ainda embora ausente
desde a hora sombria da partida.
VII
A serpente enroscada ao Caduceu
é a medicina natural que a língua
desenrola, nutrindo-se das asas
de Mercúrio, que oferta aos sentidos
os laços da energia, a convulsão
da vulva a envolver a sensação
de anel do mensageiro, prisioneiro
do ovo da serpente entrelaçada
ao arauto de vara retesada,
anunciador da regeneração
na queda horizontal que aos irmãos
concede o bálsamo da vida, a água
a jorrar e a retornar à fonte
sagrada da secreta união.
VIII
São minhas tuas mãos, a boca, a língua,
qual pétala a tremeluzir em torno
da haste soberana que devoras
e perde-me no escuro em pensamento,.
ardendo em júbilo de tanto amor
interminável. O voraz vulcão
em lavas se refaz sem outro dom
que o de teu nome a repetir no ar
da noite que o teu corpo branco envolve
junto às minhas mãos afogueadas
a imaginar conter em tuas águas
o peixe de asas a largar o vôo
em torno deste mar real que vivo
me afoga e em ave me transforma.
IX
A jóia mais preciosa que o rubi
incrustado no corpo qual diadema
de luz protege a minha Imperatriz
do sonho de apalpá-la e despertar
da letargia. O brilho então se volta
à vibração que ao âmago recolhe
como ao ninho a amorosa ave
a palpitar no cálido lugar
de doce sumo de adorada pomba
que se compraz em segregar melíflua
essência natural que me induz
a amar demais o líquido da mina
nutridora de interminável fome
que mais aumenta e tanto me consome.
X
Tal é a Imperatriz guardiã do templo
e do tesouro que acumula unidos
ao ouro líquido de oculta nave
em região que se encontra no Pará,
e ao sul estende o rico diadema
de pedras de esmeraldas e safiras
iguais aos da coroa bizantina
que orna as cabeças de Teodora
e seu esposo o Imperador,
agora redivivos como nunca
nas almas gêmeas em diuturna guarda
do fogo abrasador que em labaredas
consome a ígnea, aguda durindana,
cativa dessa abelha zumbidora.
XI
A tarântula negra se contrai
e pula enroscados na cabeça
os pêlos a adornar a doce roda
da urna cabeluda que retém
o licor venenoso a destilar
o bálsamo do Amor. A cada instante
da cintura de vespa de seu corpo
o hálito que mais desejo, o vinho,
absorvo junto aos beijos a conter
o dourado rumor de mel dos favos
sedosos a aflorar intumescidos
em branca ave a gemer no céu
o zumbido de luz que nos transporta
os corpos à negrura de um abismo.
Trecho de carta de 25.06.04 a RLF: .O romance de R. Roldan-Roldan, Litterata, é de surpreendente sagacidade ao percorrer o autor os meandros sagrados da deusa Afrodite, não faltando mesmo a compensação solitária à ilha de naufrágio e tormento que algumas vezes experimentamos...