ANTIFONA DA SEMANA SANTA
ANTIFONA
DO LEVITICO
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FILOSOFIA DA ARTE PALAVRA & MÚSICA
Lâminas do Rosarium Philosophorum
Alegorias
de abril
EPIGRAMAS ALQUÍMICOS ANÕNIMOS
DO SÉCULO XVI E XVII
Os epigramas contidos nas páginas finais do volume Forgerons et alchimistes, de Mircea Eliade, em edição espanhola da Taurus de Madrid, Coleção Ser y Tiempo, sugerem uma relação teológica exercida na prova de fogo com os meteoritos pelos primeiros metalúrgicos. Tal prática, imemorial, voltada para o indivíduo e a consciência do Universo desperta a atenção pela maneira como se antecipa à inquietação filosófica dos Gregos, denotando no avanço cosmogônico da filosofia oriental o critério antropológico que irá se estender pelos séculos vindouros como um regresso à origem do ser a que se propõe a filosofia helênica.
Observada a teologia sob prisma natural, metalúrgicos e alquimistas antecipam-se em suas práticas artesanais às elucubrações mito poéticas dos filósofos, desenvolvendo nos primórdios da Civilização uma experiência de caráter simultaneamente religioso no qual Espírito e Matéria se fundem, comprovando tal humanismo incipiente a intrínseca relação que há de prevalecer no Renascimento alemão de Frankfurt, onde foram elaborados os epigramas ora convertidos em paráfrases e aqui apresentados.
Praticantes de uma “ciência” e uma teofania, os alquimistas pretendiam dominar a Natureza. Tal objetivo carregado de magia vigorava com a finalidade de alcançar o aperfeiçoamento do homem. A metamorfose ou ato de transformação anima a representação em todos os tempos e em todos os níveis, desde o mineral ao vegetal, do humano ao espiritual, colocando-se em pauta para o alquimista a maturação do embrião, de modo a atingir na idade adulta o aperfeiçoamento. O Fogo é o agente de precipitação, tendo em última instância como referencial simbólico o ouro, associado à “luz de pedra do Sol”, cuja simbiose mítica com o metal o alquimista persegue junto ao Forno, utilizando como solvente o fogo.
A opus alchimicum associada ao Tempo visa a transcender a matéria e alcançar como plenitude espiritual a redução emblemática da imagem, que se transforma com o metal em realidade física e social
Tal operação corresponde ao desdobramento de um processo que se consumaria no ouro, tendo como referencial metafísico o Eu, ao qual o alquimista se volta na tentativa de atingir a identidade, de maneira a restabelecer a dualidade originária do ser. O alquimista seria o agente de uma arte mágica precursora da Química.
Construir/reconstruir, é uma constante do alquimista, o qual visa a atingir por meio do fogo o aperfeiçoamento. Pesa a Beleza na Forma. A imagem é a síntese a conferir dimensão simbólica ao ouro qual ferramenta mineral em direção ao real.
O Eu é o Outro, o que, não sendo, se reveste da Forma que o pensamento produz. Contra o Nada opõe-se a transformação que transcende a dimensão mineral do ouro, análogo ao Eu que, ao voltar-se para si mesmo, cumpre o projeto de depuração na ação. Nessa dinâmica o Tempo é produzido pelo pensamento. O emergir do real “para si” tem como estágio derradeiro a consciência, cujo corpo ao despertar corresponde ao Eu. De maneira que a dualidade é o sujeito que o Outro representa como Identidade.
O Nada a intercalar o espaço que subsiste entre um e outro é o fenômeno presente na realidade e transformado em linguagem mineral, que o alquimista trabalha visando ao ouro como alça de mira que persegue junto ao Forno.
Como cristalização da luz o ouro atravessa os vários estágios de maturação mineral. Se por um lado atinge a purificação do metal, por outro lado alça-se ao estágio espiritual que o alquimista almeja a fim de encontrar a Verdade.
Efabulação inesgotável é o laboratório do alquimista ao precipitar o tempo na transmutação dos metais. O saber vincula-se à Natureza e ao Tempo o qual, ao projetar-se como realidade, se reúne a si mesmo sob a forma de Conhecimento. Precipitar o labor da Natureza utilizando o fogo, extrair de sua fonte geradora a essência cristalizada no diamante, no ouro, ou na cor da luz, que se diversifica, passando do negro aos vários matizes da claridade, é o ideal do alquimista, que se antecipa ao filósofo, resguardando o princípio natural do fogo sob a ação do logos oculto no Eu.
Condenado à necessidade, a liberdade é o vínculo a unir o objeto de transformação que a consciência assume, cuja relação formal o alquimista persegue visando a encontrar no metal a luz espiritual. O mergulho nos atributos essenciais da matéria, utilizando como ferramenta o fogo, precipita a ação, interferindo o alquimista no desempenho temporal a transcender a substância. A solidão do Eu é a solidão de Deus e do alquimista, que tudo vê ao redor de si em liberdade.
O contato com o ferro através de meteoritos encontrados na Terra, por muito tempo foi utilizado pelos primeiros metalúrgicos com o sentido hierogâmico de celebrar a união do Céu e da Terra. Curiosamente, do mesmo modo a Alquimia tem como princípio o casamento dos opostos. A fusão dos elementos é o fim da transmutação. Sua dinâmica incorre na interação espaço temporal como princípio e fim, que se renova na união de Espírito e Matéria, tendo como sujeito o embrião. O Tempo na maturação da matéria é precipitado pelo alquimista ao submeter os minerais ao fogo na prática manipuladora que a matéria sofre, contrariando sua prolongada combustão natural. Desta maneira o metal é transmutado em ouro como materialização do fogo.
Narra o mito que o primeiro ferreiro, africano, foi o inventor tanto do fogo como da domesticação da agricultura e da religião. A imaginação preside tais relatos que se fixavam no fogo como realidade convertida em imagem do ferreiro articulador do raio. O ferreiro era o forjador da criatura. A esquizofrenia arcaica concebia o sexo como detentor do fogo que o próprio ferreiro produzia. O embrião correspondia ao esperma e, em última instância, ao canto do martelo que o ferro em brasa despertava na bigorna.
A sombra na água era a alma do ferreiro. Correr atrás de si no espelho era encontrar o outro. Nas inúmeras ramificações do fogo a matéria é uma rede interna composta de artérias e vasos capilares atravessada pelo espírito que o ferreiro trabalhava ao malhar o ferro amolecido no braseiro. O alquimista por sua vez sutiliza a Natureza, utilizando o mercúrio, o enxofre e o sal, a fim de alcançar o ouro, cuja pureza mineral corresponde ao Eu.
A convicção de desvendar o mistério da luz na Pedra filosofal que para realizar trabalha leva o alquimista a mesclar ao ígneo labor palavras enigmáticas que articula qual universo da imagem que persegue e o pensamento acompanha como realidade verbal, cujo fundamento perdura resguardado na linguagem poética, de uso inesgotável, tal como nas matemáticas.
A Forma reage ao Espírito, despertando o sentido nos atos numa troca de ação e reação, da qual o sujeito é agente e paciente. Em tal paradoxo o equilíbrio está no desafio a convocar o discernimento na ação, cuja reação produz a Forma que tem na arquitetura seu verdadeiro leitmotif.
A sacralidade do metal torna excêntrico o trabalho do ferreiro, associado ao Canto e à Poesia. Suas armas são o raio e o relâmpago, tal o martelo de Thor na mitologia escandinava. A apoteose do homo faber é criar objetos, afirma Mircea Eliade.
Em sua origem o ferreiro é dançarino, músico, feiticeiro, curador. “Os objetos são criados a partir da palavra. “O ferreiro mítico é um herói Civilizador”, conclui M.E. As realidades últimas eram suas conhecidas. Como dono do forno, o ferreiro possui o poder do fogo. Assim, o ferrador participava do prestígio do ferreiro junto ao cavalo. A ferradura era um rito do matrimônio. “O cavalo fantasma ao chegar à ferraria era ferrado.”
O taoísmo na China assemelha-se à Alquimia Cf. (Herreros y alquimistas. Para divinizar-se o alquimista devia produzir o cinábrio, ouro potável, e ingerir o metal. A imortalidade era uma constante nas mitologias associadas ao crescimento dos minerais. O regresso ad uterum se fazia recolhendo-se o alquimista a uma gruta, tal como os taoístas, que viam no fundo do vale o abrigo derradeiro.
Se a Alquimia é uma etapa que precede a Química, seu fundamento a um tempo experimental e esotérico está impregnado de uma inquietação filosófica que se estenderá de Moisés a Leocipo de Mileto e Demócrito de Abdera, 500 anos ªC. O Patriarca dos hebreus, Abrão, trouxe de Ur conhecimentos de Alquimia e da Cabala. O conhecimentos dos gregos, que transformariam o politeísmo astronômico da Suméria na mitologia dos deuses antropomórficos, é o mesmo do monoteísmo mosaico, representado por Iavé.
Como instância nominosa do rito, a Alquimia incorpora-se ao drama existencial nas tragédias de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, denotando o esoterismo dos arquétipos que presidem a representação da Matéria.
No vaso milagroso reside o segredo alquímico, proclamava Maria a Profetisa, referindo-se ao esperma, “do qual nasce o filius philosophorum, a pedra milagrosa.” Cf. Jung (PSYCOLOGIE UND ALCHEMIE) onde o autor cita um trecho do livro de Mircea Eliade, cuja leitura serve de base a este breve ensaio. A profunda intenção na prática arcaica era alcançar o núcleo da geração resumida no embrião, que se desenvolve do mesmo ad uterum da terra, a qual o alquimista espelha, resumindo os veios minerais no Grande Forno, de onde emerge a consciência voltada para o fogo primordial gerador da vida.
O minerador, o ferreiro e o alquimista praticavam experiências mágico-religiosas em suas relações com a substância. O alquimista identifica-se com as matérias primas da Natureza. O enxofre, o mercúrio, o chumbo, a água, o sal, o fogo, a terra, o sangue, correspondem na longa via da operação extraordinária à Pedra filosofal. Os pássaros, os peixes, o homem, o dragão, todos correspondem à essa única fonte, mesmo a vili figura. As crianças brincam com a Pedra Filosofal, afirma a tradição alquímica (ludus poerorum). A ubiqüidade do Lápis Philosophorum é o tema principal do alquimista. O sonho de Zósimo, transformado em água, que tanto impressionou a Jung, corresponde ao leite da virgem e à sombra do Sol.
Estes são alguns dos vários nomes da Pedra dos filósofos, na linguagem secreta, análoga à dos poetas. “O paradoxo da hierofania, conclui Mircea Eliade, consiste em manifestar o sagrado, incorporando o transcendente a um objeto desprezível.” A obtenção da Pedra equivale ao conhecimento perfeito de Deus. A opus alchymicum possui analogias profundas com a vida mística. “O homem portador da Pedra torna-se invulnerável; mantê-la na concavidade da mão o faz invisível”, narra o mito. Assegurar perfeição à Matéria é o fim do alquimista. O Forno é a sede do Caos primordial, onde perecem e ressuscitam as substâncias. Tal a águia “que rejuvenesce ao mergulhar no Sol”, o alquimista aspira a retirar do fogo a alma rejuvenescida com o mercúrio. O corpo é o espelho da alma. Do homúnculo ao clone a ciência através da engenharia genética dá continuidade ao antigo sonho dos alquimistas.