ANTIFONA DA SEMANA SANTA
ANTIFONA
DO LEVITICO
QUATRO
ESTAÇÕES:
Primavera - Verão - Outono
- Inverno
Lâminas do Rosarium Philosophorum
Alegorias
de abril
IV. INVERNO
Juntos viajamos ao confim dos tempo
desfrutando o sabor de teu hálito e o toque
delicado das mãos que me fogem
quais aves transparentes neste inverno
que pede o teu calor análogo ao mosteiro
cercado pelo gelo de uma Sibéria polonesa
e sobre o banco a monja deitada e o exorcista
a imprecar ao demônio que a abandone reeditando
a mística da Dor. O aconchego no inverno
atrai o fogo da carne ao amoroso que a vida
celebra na matéria onde germina o bálsamo
que vivifica as forças combalidas pelo gelo
da mortificação, o gelo de uma amora acesa
em ímpetos de labaredas invisíveis
que se ocultam e são as rosas de um jardim
florescente que Deus aguarda e rega as folhas
tépidas de Joana a negar o fragor crepitante
do gelo entre os galhos encobertos
pela fria, dolorosa estação.
Rompe os parâmetros que se impõem ao Fogo
o ímpeto avassalador da Aliança concebida
entre os pares que no aconchego dos corpos
suprem a imposição polar da álgida calota
de uma Antártida a reeditar o fogo branco
da Patagônia da nossa solidão
sombria em que afundamos exauridos
da ausência da alma e a liturgia necessária
ao conforto dos lábios afogueados sob o pêlo
de uma áfrica que o Continente de cocada
e sumo interminável a metáfora agasalha
qual imagem afogueada de assombro
e rapto ao confim dos tempos
no leito que convém aos corpos insubmissos
voltados para a dança e seus quadrantes
amorosos que as estações renovam
a cada inverno, a cada canto
consagrado ao rito da Natureza
que os anos celebram, os momos, as legiões
com suas listas de duas cores como as zebras.
Visões da fé não aquecem o corpo místico
da Dor que os braços enlaçados
buscam suprir na viagem sem retorno
afogueada do desejo e a impressão canina
da fome que avassala os nossos corpos
na contradição terrível que acompanha o Amor
e o inverno não aplaca em seus desígnios
paralelos. O brilho do diamante é de uma estrela
em miniatura que o pensamento induz
à relação do espírito a transfigurar-se
na compleição do homem tal um deus
cuja remota salvaguarda é a virtude
do herói que transforma o Arquétipo
em mito.
II
Inquietações e loucura levam
do mesmo modo que a fé à austeridade
da Monja e seu mistério pessoal
de exuberância barroca, esplendor
e fúria, brilho e eloqüência
da fantasia que não renega a herança
da comunhão da Natureza
com Deus.
O êxtase é de amorosa esgotada
do fogo vingador a queimar
a que exorbita com a espada
que escapa açoitada pelo medo.
O fogo é da água que entorna
a abastecer as reservas divinas
que invadem e a ela se enlaçam
em êxtase carnal.
A evolução persegue a luz
por caminhos do corpo e ao sentimento
oferece o gozo supremo no castelo
cuja entrada de ramagens
e vinhedos é sumarenta a joirar
a lança de fogo e a presa tritura
com as hélices do fogoso
animal de Deus
III
Onde o filho do homem surge qual imagem
de Deus junto ao semelhante com a aura
do espírito na aridez de um terreno
pedregoso, ali instala-se a interação
do sobrenatural que o Amor
diviniza na prática aliciadora
do verbo que a ação traduz
em ascensão à Graça qual virtude
do justo em sua inteireza despojada
dos bens materiais acumulados que se desvanecem
com a morte e o limite temporal
usurpador do espírito. Até o Amor
é caridade e doação e comunhão
integral da matéria que o Filho
rejeita voltado para o Pai, que a Lei
instituiu como doação e divisão dos bens
qual conquista consciente afeita à máquina
do mundo e a realidade inapreensível,
da qual somos a presa
e as julgamos dominar
adotando a palavra mal usada do outro
no espelho, o que sem dar-se conta de si
fala e nada diz, e o que diz se perde
no ar entre zoeiras e rumores
dos que transitam à procura de interesses
malsãos que o tempo desenrola em seu domínio
de signos na linguagem, o tempo usurpador
do espírito e imposição da Forma
como sinal de identidade.
A luz de Deus brilha em seu coração
como brilha no meu. Tal é a luz do pensamento
e da alma. O elogio da Monja à origem
do ser na negação é a apoteose fálica
das estações. O vento conduz
o ar sobre a terra transformado em locução
do barro onde a sacralidade da voz
dá corpo e a palavra incorpora à imagem afeita
a um deus que em seu êxtase a Monja celebra
e comemora em alusão remota ao raio
concentrado em seus olhos de senhora
de planícies e montes de uma geografia
que o corpo sintetiza e a voz modela
em litúrgico enleio da palavra. O desenho
da imagem na realidade vindo da imaginação
concentra-se na palavra transformada
em linguagem portadora da voz
A estreita relação da boca
e o som é um corredor a unir o vento
qual estandarte da linguagem consagrada
à negatividade do concreto, a saber o real
recoberto pela imagem em seu halo
de luz da matéria cujo pálio negro se ilumina
no atrito das moléculas desprendidas
do buraco em extensão da substância
capturada pelo ser do pensamento e os pés
a caminho no vale onde recolhe-se o andarilho
voltado para o universo interior
da múltipla extensão, inesgotável,
em seus desígnios trágicos de construção
na negação e não surpreende em seus secretos
impulsos desmantelados de uma cidadela
que quer organizar-se e tem à frente a técnica
e suas ferramentas numa idade
de ventos ao encontro do incêndio deflagrado
a encurvar-nos e a medir o diapasão
dos pólos, a mediar as estações e a glacial
montanha a enviar-nos o ar gelado
da Antártida. Eleva a cabeça o ser noturno
dos abismos refeitos com a argila
extraída da olaria pelos predadores
da Natureza e seus filhos
no afã de construir
IV
Do Nada é a ação e em nada se transforma
a Coisa sobre a qual erige-se o universo
de areia levantado no deserto com o corpo
de pedra, as asas plantadas sobre o dorso
qual enigma de Tebas que Édipo decifra
e cego casa-se com a mãe após matar o Pai
cumprindo o edito nefasto da sibila.
Do Nada a semelhança constrói a máscara
no espelho em cuja superfície observa
o rosto em mutação tocado pelo tempo
que o envelhece e não permite tocar
as rugas degradadas de um tecido
que sofre no interior a química
de uma maturação inconsistente.
V
O fogo da leitura, o entusiasmo levantado
por Nosferato chega à porta dos sentidos
e desenvolve-se no corpo da linguagem
como um fim ao qual todos se voltam inconscientes
do domínio exercido no espelho sobre o Outro
em turbilhão, que o inverno não aplaca,
pois o fogo anterior exerce a geometria
à qual o eu se volta, a fim de recolher
o que de si emana retornando numa troca
de delírio e representação da semelhança
que o quadrante das estações persegue
visando à disciplina originária do pólo
que os deuses imortais configuram
no exercício do que ao negar constrói
o discurso do Outro. A ânsia de resposta ao fogo
da metáfora ao vampiro é dada na medida
em que navega equilibrado na invisível
trama que um medita e o outro escreve
ambos presos aos laços da Beleza
que se organiza a partir de labaredas
intermináveis de um incêndio a delimitar
a Forma e sua contingência trágica
de identidade que recomeça
onde os corpos se unem em um mesmo fim.
Imitação da forma não exclui a diferença.
A linguagem visa a uma estrutura similar
Concebida como concreção do real
que a Coisa persegue em seu campo
voltado para o ser destituído do que o define ´
além do eu como igual realidade
que constrói e lhe escapa com a imagem
concentrada na imaginação. O dom da fala
une os opostos. Todavia a palavra
pertence à deusa que ao humano concede
o poder sobre o mito a elocubrar o som
articulado, o cume triunfante de alegria
do que desponta verde nas águas que correm
conduzindo o rio. Tal é o poema das estações
construído nas dobras da metáfora com o fogo
a lavrar nas bordas visando à beleza
geometrizada pela ação do verbo
tentacular que a Forma ao desenhar traduz
como estátua emissora da palavra
concebida pelo ar seja do inverno
ou de outra estação, todas conforme
a loucura do canto.