UNIDADE 2: Encontro e desencontro entre fe religiosa e razao moderna
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Ciência e Religião,  novamente
Paulo Nogueira-Neto
inhttp://www.cienciaefe.org.br/jornal/arquivo/pnn/cierel.htm, acessado em  08/04/2005 às 16h31.
O meu amigo professor  José Goldemberg, a quem o Brasil deve como ex-reitor da USP e ministro, retorna  às vezes um assunto que perece fasciná-lo: Ciência e Religião. Também me sinto  atraído por essa interface, mas de um ângulo diferente.
A Ciência procura  desvendar os mistérios deste mundo, nos seus aspectos materiais. A Religião vai  muito além: trata dos mistérios que tornaram possível a própria existência do  Universo. A Ciência e a Religião têm em comum o fato de que ambas procuram a  verdade. Portanto, são basicamente compatíveis entre si. Ocorre que a Ciência  opera apenas no mundo material e assim não trata de verdades que a transcendem.  Um famoso filósofo da Ciência, Popper, disse que a Ciência procura a verdade,  mas não chega a possuí-la. O professor Milton Freire-Maia, que no Brasil  representa muito bem as idéias de Popper, disse que a Ciência somente pode  alcançar verossimilhanças mesmo assim as que forem testáveis. Isso quer dizer  que na Ciência devemos ser humildes nas nossas conclusões, e nos limitar ao que  é materialmente experimentável.
O que a Ciência pode e  deve fazer, na sua interface com a Religião, é indicar, por exemplo, fatos do  big-bang, que constituiu o começo do Universo. Mais tarde, neste planeta.,  também foi fundamental a evolução dos seres vivos. Assim, a Ciência nos ajuda a  entender os grandes instrumentos e processos usados por Deus como criador nosso  e da natureza. Aplaudo a ação esclarecedora do Instituto Ciência e Fé, de  Curitiba, dirigido pelo professor Aroldo Murá Gomes Haygert. Procuram lá estudar  e divulgar essas questões. Por outro lado, a Religião não desvenda para nós, em  nossa vida terrestre, tudo o que está em Deus. A Teologia é basicamente o estudo  de Deus e do que lhe é próprio. Ela nos ensina também a ser humildes, pois o  poder ilimitado de Deus não cabe nas palavras e nos escritos dos teólogos, a não  ser de modo incompleto, como em tudo que é humano.
Nós, seres humanos,  antes de mais nada devemos reconhecer as limitações da nossa razão. Mesmo porque  quanto mais sabemos, melhor verificamos a imensidão de nossa ignorância, ou  seja, do que falta ainda conhecer. Segundo o professor José Goldemberg, nos  Estados Unidos, 40% dos cientistas admitem a existência de Deus e 40% da  população também o faz. Aqui, a meu ver, a porcentagem dos que acreditam em Deus  é muito maior. Contudo, ele acrescentou que, numa determinada academia  científica daquele país, a porcentagem dos que acreditam em Deus é muito menor.
Pode haver várias  explicações para esse fato. Na minha opinião, os que são escolhidos e aceitos  nessa academia são presumivelmente pessoas que possuem entre si um lastro de  idéias ou um histórico cultural algo semelhantes. Quero citar aqui um fato que  me parece ilustrativo, embora limitado, sobre pessoas de uma das associações de  cientistas do referido país. Quando ainda dava os meus primeiros passos no campo  da Ciência (Zoologia, Ecologia) visitei uma das mais antigas universidades dos  Estados Unidos. Fui convidado por outro jovem zoólogo, hoje famoso, para um  jantar numa das associações dessa universidade. O ambiente era dos mais  sofisticados e tradicionais, iluminado à luz de velas. Os participantes eram  jovens professores ou doutorandos. Em certo momento, a conversa girou sobre  Religião e questões relacionadas. Alguns dos presentes, como também fazia  Voltaire, ridicularizaram a Religião. Isso me deixou indignado. Nessas  circunstâncias, ficar calado seria para mim uma covardia. Comecei então a  discutir com eles. Com toda a seriedade, enquanto meus opositores formulavam  frases de efeito e pareciam se divertir com elas. O ambiente era anti-religioso.  Evidentemente, não se deve generalizar um episódio como esse, mas algumas dessas  pessoas desrespeitosas por causa de sua formação cultural mais tarde poderiam  talvez estar na estatística referente à academia referida pelo professor  Goldemberg.
Sou cristão, católico,  praticante. Quero, porém, salientar que a situação aqui referida, de certo  alheamento em relação à crença em Deus, é em parte conseqüência do fato de que a  Igreja não ensina ainda, nos catecismos escolares, que a evolução foi o  instrumento usado por Deus para criar o nosso mundo vivo. Inclusive para chegar  ao homem. Não somente os profetas ensinam coisas sobre Deus. Também os  cientistas fazem ensinamentos proféticos, pois a verdade é uma só. O ensino  religioso deveria mostrar o capítulo do Gênese (da Bíblia) como uma maravilhosa  alegoria ou parábola, de grande valor moral. Jesus pregava freqüentemente por  parábolas. As novas gerações muitas vezes não sabem sequer o que é uma parábola.  Desconhecem o fato de que hoje inúmeros cristãos e muitos adeptos de outras  religiões reconhecem e aceitam a importância da evolução biológica. Essas novas  gerações, ao que parece, não se dão conta que o big-bang, a formidável  "explosão" primordial que criou o Universo, somente pode ser explicado como um  ato de criação, que exige um criador de características especiais, muito além  dos limites do que a Ciência pode medir, pesar, testar, analisar e até observar.
No dia em que essas  premissas básicas que mostram a harmonia essencial que deve existir entre  Ciência e Religião forem mais divulgadas entre os jovens, as estatísticas  citadas pelo meu amigo professor José Goldemberg terão resultados diferentes.  Lembro aqui, nesse contexto, as palavras do profeta Isaias (6,1-2a, 10-11):  "Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim  o senhor Deus fará germinar a justiça e a sua glória diante de todas as nações.
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