UNIDADE 2: Encontro e desencontro entre fe religiosa e razao moderna
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Ciência e  Religião
No final do século passado, a  ciência acreditava ter todas as chaves do conhecimento: decifrar os últimos  mistérios da natureza era só uma questão de tempo. Agora, na entrada de um novo  milênio, as certezas mais claras agonizam e os cientistas se perguntam...
Texto de José Augusto Lemos
Existe uma luz no fim do túnel? Eu sinceramente espero que  sim. Afinal, faz várias semanas - meses talvez - que estou perdido nesse  labirinto escuro.
Eu não sei o que fiz para merecer tamanho castigo. De  todos os trabalhos que poderiam me dar nesta vida de jornalista, não deve ter  abacaxi mais cascudo que esse: uma reportagem sobre Deus... e justo numa revista  científica!
Mecânica quântica e matemática do caos a gente até entende  com a ajuda de um bom professor, claro. Deus é outra história. É o infinito  imponderável: aquilo que não dá para se pensar nem imaginar. É o infinito  inefável: aquilo que não dá para se falar. Ou pelo menos essa é a maneira mais  segura de abordar - e encerrar - o assunto sem cair no ridículo nem ofender  ninguém.
Mas são os próprios cientistas que não param de falar em  Deus. Os últimos dez anos em especial viram nascer um novo filão literário  dedicado a discutir o Divino "aquele mesmo, um Criador Onipotente e Onisciente!" à luz da física e da matemática, da química e da biologia.
O "culpado", ao que tudo indica, é o físico inglês Stephen  Hawking, ocupante da cadeira que foi de Isaac Newton na ultra-prestigiosa  Universidade de Cambridge e um dos principais teóricos dos buracos negros.  Hawking, todo mundo sabe, realizou um milagre digno do Grande Arquiteto  Celestial ao vender mais de dez milhões de cópias de um tratado de cosmologia e  astrofísica, denso o suficiente para fritar o cérebro do público leigo.  Publicado em 1988, Uma Breve História do Tempo tornou-se o mais inesperado best  seller da história e até filme virou - não sem antes deixar no ar, bem no  parágrafo final, uma sedutora insinuação de casamento entre ciência e religião:
"Se chegarmos a uma teoria completa, com o tempo esta  deveria ser compreensível para todos e não só para um pequeno grupo de  cientistas. Então, todo mundo poderia tomar parte na discussão sobre por que nós  e o Universo existimos... Nesse momento, conheceríamos a mente de Deus".
Aviso importante: Hawking nunca se declarou religioso e  usa essa idéia mais como uma frase de efeito, uma metáfora do conhecimento total  do Universo. Mas não demorou para outro cientista inglês do alto escalão, o  físico Paul Davies, extrair todo um livro - e mais um sucesso comercial de  arromba! - levando ao pé da letra as palavras do colega. Acolhido com uma chuva  de prêmios destinados à divulgação científica, A Mente de Deus (1992) passa em  revista  a história da ciência e da filosofia para afirmar, com convicção, que  tudo no cosmo revela intenção e consciência. Como o próprio Davies resumiu em  uma entrevista: Acredito que as leis da natureza são engenhosas e criativas,  facilitando o desenvolvimento da riqueza e da diversidade na natureza. A vida  é apenas um aspecto disso. A consciência é outro. Um ateu pode aceitar essas  leis como um fato bruto, mas para mim elas sugerem algo mais profundo e  intencional.
Estava dada a deixa para uma verdadeira enxurrada de  físicos-teólogos atacar o assunto em dezenas de publicações semelhantes, como  Ian Barbour, Arthur Peacocke, Hugh Ross, Frank Tipler e Gerald Schroeder. Dessa  turma, o mais ativo é o também inglês John Polkinghorne, colega de Hawking no  departamento de Física de Cambridge, que ? depois de 25 anos de carreira  acadêmica brilhante ? largou tudo para se ordenar pastor anglicano e escrever  seus livros de ?cristianismo quântico?.
"Eu não abandonei a física porque estava desiludido com  ela, muito pelo contrário: continuo acompanhando o assunto com o máximo  interesse. Só não faço mais pesquisa científica. Mas boa parte dos meus livros  consiste em ensinar física quântica aos leigos", disse ele à SUPER. "Acredito  que precisamos de ambas as perspectivas, a científica e a religiosa, para  compreender esse mundo admirável em que vivemos".
Alguma transformação radical deve ter ocorrido para que a  crença em Deus, assunto que havia se tornado tabu em laboratórios e  universidades, renascesse com tanta força. Cem anos atrás, a ciência se  projetava como a própria imagem do progresso e da civilização: decifrar todos os  mistérios da natureza era só uma questão de tempo. Era como se estivéssemos em  um trem, atravessando planícies ensolaradas, com uma visão cada vez mais ampla  de tudo que nos cercava. Nós mesmos havíamos nos tornado os senhores do  universo. Ninguém necessitava mais de fantasias como "providência divina".  Conceitos desse tipo - e entidades sobrenaturais em geral - passaram a ser  considerado ou uma infantilização neurótica (Freud) ou um meio das classes  dominantes subjugarem os pobres e oprimidos (Nietzche e Marx).
De repente, sumiram de vista as planícies, a luz do sol e  os próprios trilhos do trem. Um terremoto, depois outro, haviam nos atirado  dentro de um túnel escuro, onde as velhas certezas voltavam a se converter em  mistérios. Esses dois cataclismas eram justamente a física quântica e a  matemática do caos.
Ambas teorias mostravam que existe uma imprevisibilidade  inevitável espalhada por toda a natureza. Não acho que isso deva ser  interpretado como uma infeliz ignorância de nossa parte e sim como sinal de que  os processos físicos são muito mais abertos do que a mecânica de Newton sugeria.  Quando falo "abertos", estou querendo dizer que existem outros princípios  causais em ação, acima e além das trocas de energia que a física descreve,  afirma Polkinghorne.
O físico brasileiro Ricardo Galvão, da Universidade de São  Paulo - que se diz  "bastante religioso" - completa o quadro: "A partir das  equações da mecânica de Newton e da teoria do eletromagnetismo de Maxwell, a  ciência clássica dava a impressão de que, conhecendo essas leis matemáticas,  conseguiríamos descrever todo o Universo. É o que se chama de conceito  determinístico, segundo o qual se acreditava que, conhecendo as condições  iniciais de um evento ou sistema, poderíamos prever toda sua evolução futura.  Mas já no final do século passado, o matemático e físico francês Henri Poincaré (1854-1912)  tocou no problema de que essas condições iniciais nunca são bem conhecidas. Ele  mostrou que mesmo a mecânica de Newton não era determinística no sentido que se  pensava. Aí, veio a mecânica quântica e introduziu o conceito de que  é impossível se conhecer simultaneamente a posição e o movimento de uma  partícula. Esse é o Princípio da Incerteza de Heisenberg, que realmente derrubou  aquela atitude científica do tipo "conhecemos tudo e podemos prever o futuro".
Foi justamente o Princípio da Incerteza que fez Einstein  soltar, em protesto, sua frase mais famosa: "Deus não joga dados!". A  imprevisibilidade quântica era demais para ele aceitar. Einstein, como se sabe,  falava o tempo todo em Deus ? até o dia em que o encostaram na parede e  perguntaram se ele acreditava mesmo no Dito Cujo. "Acredito no Deus de Spinoza,  que se revela na harmonia e na ordem da natureza, não em um Deus que se preocupa  com os destinos e as ações dos seres humanos", respondeu o criador da teoria da  relatividade, citando o filósofo holandês do século XVII para quem Deus e o  Universo seriam a mesma "substância". Tal entidade, para Spinoza, só poderia ser  acessível à mente humana em dois de seus infinitos atributos: o pensamento  consciente e o mundo das coisas materiais.
A definição de Einstein decepcionou muita gente - John  Polkinghorne, inclusive ­ por excluir o que costuma se chamar de "Deus pessoal".  Assim, até um ateu convicto como Carl Sagan aceita a divindade. "A idéia de Deus  como um gigante barbudo de pele branca, sentado no Céu, é ridícula. Mas se, com  esse conceito, você se referir a um conjunto de leis físicas que rege o  Universo, então claramente existe um Deus. Só que é "emocionalmente frustrante:  afinal, não faz muito sentido rezar para a lei da gravidade!", disse o famoso  astrônomo americano.
Sagan foi um dos raros cientistas a se declarar ateu. A  grande maioria prefere o termo "agnóstico", criado em 1869 pelo biólogo inglês  Thomas Huxley apelidado "buldogue de Darwin" pela sua incansável defesa da  teoria da evolução em um dos maiores conflitos da história entre ciência e  religião. Há uma grande diferença entre as duas posições: dizer-se ateu  é recusar a existência de um Deus, enquanto o agnóstico ("sem conhecimento", em  grego) admite que nada sabe sobre dimensões sobrenaturais no Universo - e que o  mais provável éque seja impossível superar tal ignorância. É essa combinação  exemplar de humildade e a diplomacia - nada a ver com o cão-de-guarda que usaram  para batizar Huxley! - que define até hoje a postura de quase todos os  cientistas não-religiosos.
Mesmo assim, o americano Allan Sandage -  um dos astrônomos  mais respeitados mundialmente, hoje com 74 anos - considerava-se ateu com todas  as letras, até os 50 anos. Sua conversão ao cristianismo veio de repente,  provocada pelo  - simples desespero de não conseguir responder só com a razão  perguntas como "por que existe algo ao invés de nada?"
"Foi o meu trabalho que me levou à conclusão de que o  mundo é muito mais complicado do que pode ser explicado pela ciência. Só através  do sobrenatural consigo entender o mistério da existência", afirma ele. "A  ciência torna explícita a incrível ordem natural, as interconexões em vários  níveis entre as leis da física e as reações químicas encontradas nos processos  biológicos da vida. Por que será que os elétrons têm todos a mesma carga e a  mesma massa? A ciência só pode responder questões bem específicas, do tipo  "o  que?", "quando?" e "como?". O seu método de investigação, por mais poderoso que  seja, não pode responder ao "por que?"
Enxergar Deus na inteligência com que a natureza se  organiza -  manifesta através de leis matemáticas -  não é só a porta de entrada  da religião para contemporâneos como Sandage e John Polkinghorne, como uma  tradição que vem desde a própria a raiz do conhecimento científico. Nem o  ateísmo confesso de Bertrand Russell  - lógico, matemático e filósofo reconhecido  como um dos pensadores mais brilhantes do século XX -  o impediu de valorizar  essa linha peculiar de devoção: "A combinação de matemática e teologia, que  começou com Pitágoras, caracterizou a a filosofia religiosa na Grécia Antiga, na  Idade Média e chegou à modernidade com Kant. Tanto em Platão como em Santo  Agostinho, São Tomás de Aquino, Descartes, Spinoza e Leibniz há essa ligação  íntima entre religião e razão, entre aspiração moral e admiração lógica do que  é atemporal.
Para quem compartilha desse espírito pitagórico, o melhor  retrato de Deus já não está nas pinturas de Miguelângelo e sim nas fractais aquelas imagens geradas por equações matemáticas que estão entre as mais  incríveis descobertas relacionadas à teoria do caos. Essa nova geometria,  até então oculta na natureza, apareceu entre as décadas de 60 e 70 tanto nos  estudos de variações climáticas realizadas pelo metereologista Edward Lorenz,  quanto nas estatísticas visualizadas em computador pelo matemático Benoit  Mandelbrot. O que as fractais tanto mostram que, para alguns, adquire um caráter  de revelação divina? Que processos aparentemente irregulares como a ramificação  de uma árvore, ou o recorte de uma costa marinha, seguem um desenho-padrão que,  por sua vez, obedece uma fórmula matemática.
Mais ou menos na mesma época - começo dos anos 70 - um  jovem físico chamado Fritjof Capra estava sentado na praia quando teve uma  espécie de êxtase místico, provocado pela visão das ondas em sincronia com sua  respiração. O resultado dessa sua experiência está em O Tao da Física, best  seller que, apesar de desprezado pela comunidade científica, ajudou a lançar o  movimento new age, explorando paralelos entre a física quântica e as principais  religiões orientais: hinduísmo, budismo e taoísmo. Não faltam no livro citações  dos próprios Werner Heisenberg e Niels Bohr "dois dos pais da mecânica quântica" sobre as afinidades entre suas descobertas e a visão de mundo contida nestas  tradições religiosas.
O conceito chinês do tao, destacado no título do livro algo como fluxo ou ritmo universal - não espelha apenas a "dança cósmica" que  Capra vê na física quântica. Pode igualmente ser associado aos padrões da  natureza revelados nas fractais. Mas sua inspiração inicial mostra uma das  principais limitações da ciência nesse tipo de comparação: ela não pode depender  de experiências pessoais e instranferíveis, como o transe de Capra à beira-mar.  O físico Guimarães Ferreira, da Unicamp outro cientista brasileiro religioso -  acredita que esse é um bom motivo para não se misturar as duas coisas: "Deus  é um Ser que gosta de ser pessoal", diz ele. É muito mais fácil encontrá-lo em  nossas experiências de vida do que no laboratório. O maior pensador do mundo  ocidental, Santo Agostinho, já dizia que é mais fácil achar Deus dentro de si do  que no mundo exterior.
No outro extremo está o físico Frank Tipler, crente de que  a ciência pode - e deve - ser utilizada para provar a existência de Deus, como  princípio criador, organizador, onisciente, onipotente etc, como rezam as  escrituras. Tipler escreveu todo um livro, The Physics of Immortality (1994),  apresentando a versão mais radical de uma visão compartilhada com mais cautela  por John Polkinghorne, Paul Davies e os cientistas que apóiam o chamado  princípio antrópico a mais surpreendente teoria dos últimos tempos. Para eles,  o modo como o caos espontaneamente gera ordem e todo o cosmo parece conspirar a  favor da existência de vida revela atributos divinos como consciência e  intenção. A vida, assim, deve ser vista como nada menos que um milagre; e a vida  consciente, um milagre maior ainda. O princípio antrópico postula que o Universo  foi criado da maneira que nós o percebemos justamente para ser observado por  criaturas inteligentes (nós mesmos!) e que é nossa consciência que seleciona uma  realidade entre todas as probabilidades quânticas. Não custa lembrar que Brandon  Carter, que apresentou pela primeira vez o princípio antrópico em 1973, não  é nenhum guru aloprado e sim um cientista respeitadíssimo entre seus pares por  suas pesquisas na linha-de-frente da nova física.
Tem mais: a teoria mais aceita para explicar a origem do  Universo ? a explosão de uma bola de energia também vale para esses estudiosos  como sinal de uma criação intencional e inteligente. Como diz o próprio  astrônomo que batizou essa teoria de Big Bang, o inglês Fred Hoyle: "Uma  explosão num depósito de ferro velho não faz com que pedaços de metal se juntem  numa máquina útil e funcional!"
E o que teria existido, então, antes do Big Bang? Os  físicos são unânimes em dizer que é impossível saber. Enquanto houver mistérios  intransponíveis para a mente humana, idéias de divindade não só sobrevivem, como  proliferam e até são atualizadas cientificamente. Quando Stephen Hawking fala  de uma "teoria completa" que nos permitiria conhecer a "mente de Deus", está se  referindo à busca principal da física no século XX: um modelo que unifique a  teoria da relatividade, que explica o movimento dos corpos celestes, e a  mecânica quântica, que descreve o outro extremo: energia e matéria no nível  subatômico. Aqui reside um dos mais chocantes enigmas quânticos: ondas de  energia podem se comportar como partículas de matéria e vice-versa.
A própria mente humana - acreditam psiquiatras,  neurologistas e companhia - guarda talvez mais mistérios que o Universo lá fora.  Como afirma o físico brasileiro Newton Bernardes, da Unicamp, sem nenhuma crença  religiosa: A ciência depende da linguagem. A religião, não. Ela está no campo  do indizível e aí temos que abandonar a razão: só resta a fé. Mas pode existir,  sim, conhecimento sem linguagem. Essa é uma limitação da ciência.
Enquanto isso, no Instituto de Física Aplicada da USP,  Ricardo Galvão pondera a localização exata de um conhecimento sem linguagem: a  criatividade, presente tanto nas artes como na ciência mais exata. A própria  teoria da relatividade, é difícil imaginar como o Einstein chegou a ela não  foi por dedução. Idéias científicas precisam ser formuladas matematicamente, mas  na hora surgem muitas vezes de um estalo. E de onde, então, vêm essas magias  chamadas intuição e inspiração? Existem hipóteses, éclaro, como o inconsciente  de Freud. Mas, por enquanto, só Deus sabe!
Fonte: Revista Superinteressante ano 15, jan 2001
Referências
Livros:
Deus e a Ciência (Dieu et la Science); Jean Guitton,  Nova Fronteira, 1991
Deus e a Ciência (Dieu Face à la Science); Claude  Allègre, Edusc, 1997
A Mente de Deus (The Mind of God: The  Scientific Basis for a Rational World); Paul Davies, Ediouro, 1992
O Tao da Física (The Tao of Physics); Fritjof Capra, Cultrix, 1975
Espaço-Tempo e Além (Space-Time and  Beyond); Bob Toben e Fred Alan Wolf, Cultrix, 1982
Belief in God in an Age of Science; John Polkinghorne, Yale University Press, 1998
When Science Meets Religion; Ian G.  Barbour, Harper San Francisco, 2000
How We Believe ­ The Search for God in  na Age of Science; Michael Shermer, W. H. Freeman & Co., 2000.
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