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A solidão e o celular
Rio, sábado, 25 de junho de 2005
Bip do celular. A Solidão
tomou um susto.
- Afinal, quem ousa invadir a minha guarda.
Pensou ela, rapidamente
Outro bip no celular. Ele, o celular, está lá,
sempre bem perto de mim. Não sei pra quê. Não toca nunca. Vazio, feio,
sem graça e sem capa. Bateria já meio fraca, mas está lá. Ganhei de
presente de amigo que queria me achar. Reclamava que nunca me
encontrava. A bem da verdade, ele já estava na estrada de ida, mas era
amigo de coração.. Cruzou por mim e se tornou amigo, mas o seu destino
era lá pro outro lado… bom amigo.
Bip novamente. Outro susto na
Solidão. Ameaço atender o celular. Ela fica ali, olhando e tentando
ouvir. Má educada. Que coisa!. Apanho o celular. Ela se apressa em
chamar sua irmã, a Decepção. Esta, cheia de liberdade, arranca-o de
minha mão.
Ah sim, deixa-me contar. A
Decepção é irmã mais velha da Solidão. No início eu a estranhava. Tinha
cara feia e jeito de debochada. Não ia muito com a sua cara. Mas, enfim,
a Solidão, minha velha e boa companheira de longos anos, queria, que
queria me apresentá-la. Enfim, um dia cheguei cansado e desesperado. Lá
estavam elas. A Solidão ao lado da Decepção me esperando para dar-lhes
um pouquinho de atenção. Disse-me ela, mais tarde, que desde cedo estava
ansiosa para a minha chegada. Já vinha insistindo com a sua irmã, há
tempo para vir morar conosco.
Neste dia, lembro bem, eu estava
me despedindo de coisas que tanto acreditava. Que tanto me fizeram
feliz. E que, agora, ruíam, acabavam e transformariam profundamente a
minha rotina. Meu coração estava ferido. Não tanto como hoje, mas era o
início de uma ferida profunda, reaberta ali..
Bem, mas como eu ia
dizendo, sentei-me no sofá, como sempre fazia quando chegava em casa pra
acolher a Solidão. Levantei os olhos, assim meio sem vontade de
cumprimentá-las. Não queria mesmo me tornar íntimo da Decepção. A
Solidão me bastava e já fora difícil aceitá-la na minha vida. Já
havíamos conversado longamente sobre este assunto. Estava vivendo um
momento que parecia feliz, e na minha vida não teria espaço para mais
ninguém. A Solidão, sim, esta eu já me convencera que jamais me
deixaria apesar de várias tentativas frustradas no passado. Ela é muito
insistente, e parece um carrapato. Quando gruda não quer sair nunca
mais, mas pra dizer a verdade, uma grande companheira.
Eu estava muito pra baixo naquele
dia, somente queria o aconchego da Solidão. Queria me estender no sofá,
com a roupa do trabalho mesmo. Pegar uma coberta bem pesada, ligar a Tv,
me abraçar com a minha Solidão e ficar ali, esquentando da tarde fria,
quieto, durante horas e horas, até dá fome e ter que levantar pra comer alguma coisa…
Mas lá estavam as duas. Não tive
escolha, estendi a mão direita, torcendo para que o peso do meu
antebraço logo fizesse a minha mão escorregar do cumprimento indesejado,
mas a danada da Solidão, deu pulinhos de alegria e também agarrou a
minha mão. Agora as duas sacudiam o meu braço como adolescentes
brincalhonas.
Enfim, a Decepção estava
devidamente apresentada a mim. Besteira minha, essa indisposição de
fazer novos amigos. A Decepção se mostraria, mais tarde, uma grande
amiga e companheira. Ciumenta que só ela, mas enfim, amigona do peito.
Agora eu teria de acomodar as
duas. Imaginem, duas criaturas na minha vida. Bem, mas dizem que pra
tudo na vida tem um jeito. E tem mesmo. Hoje já não a estranho mais. Até
me acostumei com elas. E quando elas não estão por perto sinto muita
falta.
Bem, mas voltando para a
história do celular, que eu já ia esquecendo, ameacei resgatá-lo das
mãos da Decepção. Mas aí desisti e pedi, com um gesto no rosto, para
ela me ajudar. Ela, feliz e com cara de vencedora e debochada, que
insiste em fazer nessas situações, agora já super íntima, claro, riu no
canto da boca. Sabe aquela cara que dá ódio quando alguém a faz para a
gente? Pois é, ela é especialista nisto.
Estendeu o celular para eu ver.
Olhei. Não consegui distinguir bem quem era.Ela, com aquela postura
desengonçada de debochada. Pezinho esquerdo batendo no chão. Braço
esticado na minha direção, e com o celular em riste. A outra mão na
altura da cintura, ria, mas não muito, ria com aquela carinha de
debochada mesmo, como eu disse. Ela já tinha olhado, meio de soslaio,
para ver quem era, ciumenta do jeito que sempre foi..
Como eu disse, não consegui
enxergar bem, mas fingi que não me importava em saber quem era, e
continuei fazendo a minha partitura no Encore. Ela, chata e insistente
do jeito que sempre foi e sempre será, levantou mais ainda o celular
para eu ver, virando o rosto ligeiramente para o lado..
A Solidão, se intrometeu, esticou
o rosto e apressou-se em me dizer com a voz pausada e de deboche.
- É a Te-le-mar… Men-sa-gem da
Te-le-mar…
Era mesmo a Telemar. Sabe
aquelas mensagens chatas que ela insiste em nos enviar, como se
tivéssemos tempo e dinheiro para ficar entrando em seus joguinhos
idiotas, feitos por programadores idiotas, e concebidos por analistas
mal pagos da Telemar… idiotas também!!?.
Calma, calma, calma e calma… É
isso, ufa! Sempre que a Telemar subestima a minha inteligência e
importância eu fico assim. Irritado.
Espera aí! Eu disse Inteligência?
Importância? Não, não disse, ainda bem, só pensei. Senão as duas, iriam
me chavecar a tarde inteira.
Bem, mas enfim, era a Telemar!
Fingi que não via a Solidão ali, parada, pertinho de mim e esperando
alguma reação.. Mas a danada, sei lá como, conseguiu perceber a minha
cara irritada, e fez questão de dizer em voz alta para eu ouvir…
- Você não tem amigos, seu bobo…
quem poderia ser?
Ameacei, com raiva, sem olhá-la,
dar-lhe um peteleco.! Ela deu dois pulinhos para trás, se juntou à
Decepção, que já tinha se afastado para recolocar o celular no lugar, e
ficaram repetindo…
- Você não tem amigos, seu
bobo..
- Você não tem amigos, seu bobo..
Fiquei em silêncio, fingindo não
ligar. Com um sorriso sem graça, e sem graxa, no canto da boca. Teclava
o “j” repetidamente na partitura do Encore, meio esperando elas se irem
para continuar o meu trabalho.
Veio-me a lembrança um quase
amigo que fizera, dias desses. Deu vontade contar para elas, só para
matá-las de raiva.…
Até conversei uns minutos com
ele, lembrei. E, p-e-l-o c-e-l-u-l-a-r… Deu vontade falar assim,
soletrando mesmo. Para deixá-las morrendo de raiva…
Acho que elas perceberam que eu
não estava bem, e então a Solidão se aproximou devagarinho, com medo de
outro peteleco, e.chegou bem pertinho. A Decepção também veio, me
olhando pelos ombros da Solidão. É sempre assim, quando uma se
aproxima, a outra acha que tem o direito de participar, e para piorar
tudo, sempre combinam as coisas contra mim. Ufa, que raiva que tenho
delas, nunca se desentendem por nada. Enfim, a Solidão me perguntou..
- O que foi Gimago, você quer
dizer alguma coisa e não está conseguindo?
Então eu disse. Tomei coragem e
contei..
- Vocês são umas idiotas mesmo.
Dia desses quase fiz um amigo, suas bobas...
Elas recuaram olhando uma para a
outra sem acreditarem. A Decepção ainda com aquela cara de deboche, e a
Solidão com a cara de espanto exagerada que sempre faz..
Perguntaram-me, quase em coro…
- Quando foi isso. Qual o nome
dele?
Eu, relutei, gaguejei, mas tinha
de dizer, senão iria passar por mentiroso. Disse meio que enrolando as
palavras, para elas não entenderem…
- Foi um tal de E-n-g-a-n-o…
Elas ficaram sem ação e em
silêncio. A Solidão quebrou o gelo, olhou para os lados, e disse para a
Decepção..
- Acho bom a gente deixar ele um
pouco só…
E se foram, não para muito
longe, pois sabem que eu preciso delas em todos os momentos.
O Jean, meu filhinho, empurrou a
porta do escritório me chamando para preparar um “pão com ovo” para ele…
Nessas horas, elas, covardes que são, correm e se escondem. Mas nunca
vão para longe, ficam por ali, esperando para voltar. Aliás, elas
respeitam somente meus filhos. Já com a Iza não se assustam mais.
Quando ela passa, fala alguma coisa, elas ficam ali, tomando conta de
mim, como minhas guardiãs. E quando a Iza se vai, logo correm em me
abraçar, me consolar. As duas. Graças a Deus.
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