»  »  »  O Labirinto de Ricardo Reis   
Apoio à leitura de O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago     
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o comboio de Coimbra  » 


quando chegar a Campolide   » , mete-se por baixo do chão, depois surgirá do negro túnel   »  resfolgando vapor


provincianos que vêm a Lisboa, com perdão de Coimbra  »  se província não é, em geral aproveitam para ir ao teatro, vão ao Parque Mayer   » , ao Apolo   » , ao Avenida   » , e, sendo gente de gosto fino, invariavelmente ao D. Maria, também chamado Nacional  » 


Marcenda, estranho nome, nunca ouvido, parece um murmúrio, um eco, uma arcada de violoncelo, les sanglots longs de l'automme, os alabastros, os balaústres, esta poesia de sol-posto e doente irrita-o  » , as coisas de que um nome é capaz, Marcenda  »  » 


estas dúvidas discute-as Ricardo Reis consigo mesmo enquanto desce o Chiado  »  para ir comprar o seu bilhete ao Teatro Nacional  » 


foi a enterrar o rei Jorge V de Inglaterra, nosso mais velho aliado  » 


Esta noite vão cá estar os pescadores  », Quais pescadores, perguntou Ricardo Reis, e logo percebeu que cometera um erro sem desculpa, o bilheteiro carregou o sobrolho e a fala, disse, Os da Nazaré  », evidentemente, sim evidentemente, se a peça falava deles, como poderiam vir outros, que sentido faria aparecerem por aí os da Caparica  » , ou da Póvoa  » 


como será a Dona Palmira Bastos  »  a fingir de Ti Gertrudes


Ricardo Reis gastou a tarde por esse cafés, foi apreciar as obras do Eden Teatro  » , não tarda que lhe tiram os tapumes, o Chave de Ouro  »  que está para inaugurar


Comeu um bife no Martinho, este do Rossio  » 


Atravessou sem parar o foyer  » 


Alfredo Cortez  »  quem é, o pai não tem muito para dizer-lhe, viu sozinho os Gladiadores há dois anos, e não gostou


um murmúrio exótico que fez voltarem-se e levantarem-se todas as cabeças da plateia, eram os pescadores da Nazaré  »  que entravam e ocupavam os seus lugares nos camarotes de segunda ordem, ficavam de palanque para verem bem e serem vistos, vestidos à sua moda, eles e elas, se calhar descalços, de baixo não se pode ver


É porque nunca as viu, meu caro, como eu vi, na Nazaré  » 


esta noite irá ficar nos anais da Casa de Garrett  » 


Amanhã, à partida da camioneta, com assistência de jornalistas, fotógrafos e dirigentes corporativos, os pescadores levantarão vivas ao Estado Novo e à Pátria  » 


já é tempo de atravessar o Terreiro do Paço  » , pisar aqueles degraus do cais   »  até onde a água nocturna e suja se abre em espuma, escorrendo depois para voltar ao rio  »  » 


os trémulos candeeiros da Outra Banda  » 


devem ser os contratorpedeiros, aqueles que têm nomes de rios  » , Ricardo Reis não se recorda de todos eles, ouviu pronunciá-los ao bagageiro como uma ladainha, havia o Tejo, que no Tejo está, e o Vouga, e o Dão, que é este o mais perto, disse o homem, aqui está pois o Tejo, aqui estão os rios que correm pela minha aldeia  » 


o Tejo que corre pela minha aldeia  » chama-se Douro  »


Tranquilizado, o políciaafastou-se pela Rua da Alfandêga  » 


Ricardo Reis seguiu pela Rua do Arsenal  »  » , em menos de dez minutos estava no hotel


Deitou-se, abriu o livro que tinha à cabeceira, o de Herbert Quain  » 


Fechou por alguns segundos os olhos e quando os abriu estava Fernando Pessoa sentado aos pés da cama, como se viesse de visita a um doente, com aquela mesma expressão alheada que deixou em alguns retratos, as mãos cruzadas sobre a coxa direita, a cabeça ligeiramente descaída para diante, pálido  »  » 


Meu caro Reis, você, um esteta, íntimo de todas as deusas do Olimpo, a abrir os lençóis da sua cama a uma criada de hotel, a uma serviçal, eu que me habituei a ouvi-lo falar a toda a hora, com admirável constância, das suas Lídias, Neeras e Cloes , e agora sai-me cativo duma criada, que grande decepção  » 


Esta criada chama-se Lídia, e eu não estou cativo, nem sou homem de cativeiro  » 


teve mais sorte que o Camões, esse, para ter uma Natércia precisou de inventar o nome e daí não passou  » 


e quer que eu acredite que esse homem é aquele mesmo que escreveu Sereno e vendo a vida à distância a que está  » , é caso para perguntar-lhe onde é que estava quando viu a vida a essa distância


Você disse que o poeta é um fingidor   » 


alumbramentos assim só em romances místicos e estradas que vão a Damasco  » 



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ÍNDICE REMISSIVO

1 pp. 7-28 (C. Leitores)
pp. 11-30 (Caminho)
»
2pp. 29-53 (C. Leitores)
pp. 31-53 (Caminho)
»
3pp. 55-83 (C. Leitores)
pp. 55-80 (Caminho)
»
4pp. 85-100 (C. Leitores)
pp. 81-95 (Caminho)
»
5pp. 101-121 (C. Leitores)
pp. 97-115 (Caminho)
»
6pp. 123-142 (C. Leitores)
pp. 117-135 (Caminho)
»
7pp. 143-169 (C. Leitores)
pp. 137-160 (Caminho)
»
8pp. 171-193 (C. Leitores)
pp. 161-181 (Caminho)
9pp. 195-216 (C. Leitores)
pp. 183-202 (Caminho)
10pp. 217-238 (C. Leitores)
pp. 203-222 (Caminho)
11pp. 239-260 (C. Leitores)
pp. 223-242 (Caminho)
12pp. 261-284 (C. Leitores)
pp. 243-264 (Caminho)
13pp. 285-307 (C. Leitores)
pp. 265-285 (Caminho)
14pp. 309-337 (C. Leitores)
pp. 287-312 (Caminho)
15pp. 339-362 (C. Leitores)
pp. 313-334 (Caminho)
16pp. 363-385 (C. Leitores)
pp. 335-355 (Caminho)
17pp. 387-408 (C. Leitores)
pp. 357-376 (Caminho)
18pp. 409-426 (C. Leitores)
pp. 377-393 (Caminho)
19pp. 427-440 (C. Leitores)
pp. 395-407 (Caminho)





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