»  »  »  O Labirinto de Ricardo Reis   
Apoio à leitura de O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago     
»  »  O Ano da Morte de Ricardo Reis



4




próximo ministério que já nos gabinetes se prepara, à cabeça maximamente Oliveira Salazar  » , presidente do Conselho e ministro das Finanças


leia-se aquele jornal de Genebra, Suíça   » , que longamente discorre, e em francês, o que maior autoridade lhe confere sob o ditador de Portugal, já sobredito, chamando-nos de afortunadíssimos por termos no poder um sábio


reforça Pacheco e conclui, Salazar é o maior educador do nosso século  » 


Na última página deu com um grande anúncio  »  , dois palmos de mão ancha, representando, no alto à direita, o Freire Gravador, de monóculo e gravata, perfil antigo, e por baixo, até ao rodapé, uma cascata doutros desenhos figurando os artigos fabricados nas suas oficinas


fundamental legenda  » , esta que limiarmente garante, agora afirmando o que não poderia ser mostrado, a boa qualidade das mercadorias, casa há cinquenta e dois anos fundada, pelo seu hoje proprietário, mestre dos gravadores, o qual nunca teve uma mancha em sua vida honrada, tendo estudado e seus filhos, nas primeiras cidades da Europa, as artes e comércio da sua casa, única em Portugal, premiada com três medalhas de ouro, empregando nos seus fabricos dezasseis máquinas a trabalhar a electricidade, entre elas uma que vale sessenta contos


chapas para bonés de leitarias, cafés, casinos, veja-se o modelo da Leitaria Nívea  » , não da Leitaria Alentejana  » , essa não tinha empregados de boné com chapa


Sai Ricardo Reis para a rua, esta do Alecrim, invariável  » , e depois qualquer outra, para cima, para baixo, para os lados, para baixo, para os lados, Ferragial  » , Remolares  » , Arsenal  » , Vinte e Quatro de Julho  » , são as primeiras dobações do novelo, da teia, Boavista  » , Crucifixo  » , às tantas cansam-se as pernas


Ora, Ricardo Reis é um espectador do espectáculo do mundo, sábio se isso for sabedoria  » , alheio e indiferente por educação e atitude, mas trémulo porque uma simples nuvem passou


descendo a Avenida da Liberdade  »  » 


Entra no Rossio  »  » e é como se estivesse numa encruzilhada  » 


Vai Ricardo Reis a descer a Rua dos Sapateiros  »  quando vê Fernando Pessoa. Está parado à esquina da Rua de Santa Justa  » 


pormenor em que Ricardo Reis não tinha reparado da primeira vez, não usa óculos que usou em vida, mas a razão é outra, é que não chegaram a dar-lhos quando no momento de morrer os pediu, Dá-me os óculos  » 


ambos seguem na direcção do Terreiro do Paço  » 


Preciosa conversação esta, paúlica,interseccionista  » 


pela Rua dos Sapateiros  »  abaixo até à da Conceição  » , daí virando à esquerda para a Augusta  » 


Entramos no Martinho  »  » 


Pararam ali, debaixo da arcada  » 


ainda não seria desta vez que Ricardo Reis iria até ao cais ver baterem as ondas  » 


e ao olhar para o lado viu que Fernando Pessoa se afastava, só agora notava que as calças lhe estavam curtas, parecia que se deslocava em andas  » 


Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel  » , também tu Álvaro de Campos, todos nós.


Voltou ao hotel e tornou a sair, viu as Cruzadas no Politeama  »   » , que fé, que ardorosas batalhas, que santos e heróis, que cavalos brancos, acaba a fita e perpassa na Rua Eugénio dos Santos  »  um sopro de religião épica, parece cada espectador que transporta à cabeça um halo, e ainda há quem duvide de que a arte possa melhorar os homens.


Deitou-se, apagou a luz, deixara ficar a segunda almofada, fechou os olhos com força, vem, sono, vem, mas o sono não vinha, na rua passou um eléctrico, talvez o último, quem será que não quer dormir em mim, o corpo inquieto, de quem, ou o que não sendo corpo com êle se inquieta, eu por inteiro, ou esta parte de mim que cresce  » , meu Deus, as coisas que podem acontecer a um homem.


Ricardo Reis avança e encontra uma mão  »  gelada, puxou-a, Lídia treme



VOLTAR AO TOPO   »









ÍNDICE REMISSIVO

1 pp. 7-28 (C. Leitores)
pp. 11-30 (Caminho)
»
2pp. 29-53 (C. Leitores)
pp. 31-53 (Caminho)
»
3pp. 55-83 (C. Leitores)
pp. 55-80 (Caminho)
»
4pp. 85-100 (C. Leitores)
pp. 81-95 (Caminho)
»
5pp. 101-121 (C. Leitores)
pp. 97-115 (Caminho)
»
6pp. 123-142 (C. Leitores)
pp. 117-135 (Caminho)
»
7pp. 143-169 (C. Leitores)
pp. 137-160 (Caminho)
»
8pp. 171-193 (C. Leitores)
pp. 161-181 (Caminho)
9pp. 195-216 (C. Leitores)
pp. 183-202 (Caminho)
10pp. 217-238 (C. Leitores)
pp. 203-222 (Caminho)
11pp. 239-260 (C. Leitores)
pp. 223-242 (Caminho)
12pp. 261-284 (C. Leitores)
pp. 243-264 (Caminho)
13pp. 285-307 (C. Leitores)
pp. 265-285 (Caminho)
14pp. 309-337 (C. Leitores)
pp. 287-312 (Caminho)
15pp. 339-362 (C. Leitores)
pp. 313-334 (Caminho)
16pp. 363-385 (C. Leitores)
pp. 335-355 (Caminho)
17pp. 387-408 (C. Leitores)
pp. 357-376 (Caminho)
18pp. 409-426 (C. Leitores)
pp. 377-393 (Caminho)
19pp. 427-440 (C. Leitores)
pp. 395-407 (Caminho)





Página Principal »
O Ano... - Índice »
O Ano... - Introdução »
1936 - Breve Cronologia »
O Ano... - Hiperligações externas »
» » » O Labirinto de Ricardo Reis, 2002-11-21



Hosted by www.Geocities.ws

1