Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
         Quem fui é alguém que amo
         Porém sòmente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
         Senão de quem habito
         Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
         Que quem sou e quem fui
         São sonhos diferentes.
26 de Maio de 1930
Odes, de Ricardo Reis (selecção)  »
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