Paúlismo ou paúismo - Escola efémera criada por Fernando Pessoa em 1913, com o poema "Paúis", publicado na revista literária Renascença, em Fevereiro de 1914. Começando com o verso "Paúis de roçarem ânsias pela minha alma em ouro", o poema consiste num refinamento dos processos simbolistas. Define-se pela voluntária confusão do subjectivo e do objectivo, pela "associação de ideias desconexas", pelas frase nominais, exclamativas, pelas aberrações da sintaxe ("transparente de Foi, oco de ter-se"), pelo vocabulário expressivo do tédio, do vazio da alma, do anseio de "outra coisa", um vago além ("ouro", "azul", "Mistério"), pelo uso de maiúsculas que traduzem a profundidade espiritual de certas palavras ("Outros Sinos", "Hora"). Como observou Gaspar Simões, "Paúis" ilustra, bem melhor que a poesia saudosista, os caracteres que Pessoa atribuíra a esta num artigo de outra revista literária, A Águia: o vago, o complexo, o subtil. Foi Sá-Carneiro, com o seu dramático e opulento simbolismo, o poeta que encontrou no estilo paúlico expressão adequada - o mais sinceramente paúlico do grupo -, não obstante Ângelo de Lima e Cortes Rodrigues poderem situar-se no paúlismo e Alfredo Guisado também ter seguido a escola.
Interseccionismo - Ávido de inovar, Pessoa depressa quis ultrapassar o paúlismo: não apenas depurá-lo (o que fará conseguindo a forma densa e cristalina, de certo modo clássica, mais adequada a um dos seus modos de ser literariamente sincero), mas, por algum tempo, substituí-lo por outros ismos de vanguarda. Em primeiro lugar surgiu o interseccionismo, que aplica-se quase exclusivamente ao virtuoso conjunto de poemas "Chuva Oblíqua" que foi publicado no nº 2 de Orpheu, em Abril de 1915. Nele se cruzam e se justapõem paisagens diferentes, experiências diferentes (o campo arborizado - um porto; o quintal da casa do poeta, na infância - o teatro onde há música).
Sensacionismo - Os dois números de Orpheu (1914) foram feitos, em parte, para "irritar o burguês", pelo grupo de jovens que fundou o movimento literário modernista em Portugal, em 1913. Estes dois números alcançaram o fim proposto, tornando-se alvo das troças dos jornais; mas a empresa não pôde prosseguir por falta de dinheiro. Em seguida surgiram publicações individuais, como Exílio (1916), onde Fernando Pessoa deu a lume "Hora Absurda" e um artigo sobre o "movimento sensacionista". Em 1917, Almada-Negreiros, "poeta do Orpheu, sensacionista e Narciso do Egipto", organiza no Teatro República (hoje S. Luís) uma escandalosa sessão futurista, com textos retirados do Orpheu.
Em palavras do próprio Fernando Pessoa, tanto o interseccionismo como o sensacionismo, que veio a seguir, eram produtos engenhosos de "palhaço", de malabarista, para épater, o que não excluia necessariamente um sincero lirismo. O sensacionismo, com a sua "exuberância abstracto-concreta das imagens", complica-se de futurismo, afastando-se da poesia simbolista-decadente. Da sua adesão ao novo ismo encarrega Pessoa um heterónimo "nascido" em 1914, o engenheiro Álvaro de Campos  » . No Orpheu, são futuristas a "Ode Triunfal" e a "Ode Marítima" (dependentes aliás mais de Walt Whitman do que de Marinetti, fundador do Futurismo), de Álvaro de Campos, e o poema "Manucure", com que Sá-Carneiro pagou um tributo de circunstância a essa escola.
Modernismo - Na Literatura Portuguesa. Movimento estético, em que a literatura surge associada às artes plásticas e por elas influenciadas, empreendido pela geração de Fernando Pessoa (n. 1888), Mário de Sá-Carneiro (n. 1890) e Almada-Negreiros (n. 1893), em uníssono com a arte e a literatura mais avançadas na Europa, sem prejuízo, porém, da sua originalidade nacional.
CHUVA OBLÍQUA
I
Atravessa esta payságem o meu sonho d'um porto infinito
E a côr das flôres é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do caes arrastando nas aguas por sombra
Os vultos ao sol d'aquellas arvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pallido
E esta paysagem é cheia de sol d'este lado...
Mas no meu espirito o sol d'este dia é porto sombrio
E os navios que sahem do porto são estas arvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paysagem abaixo...
O vulto do caes é a estrada nitida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das arvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cahir amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem sonho...
Súbito toda a agua do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paysagem toda, renque de arvores, estrada a arder em aquele porto.
E a sombra d'uma náu mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu vêr esta paysagem
E chega ao pé de mim, e entra em mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
Fernando Pessoa, ele mesmo
Primeiro poema de "Chuva Oblíqua"
8 de Março de 1914