»  »  »  O Labirinto de Ricardo Reis   
Apoio à leitura de O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago     
»  »  O Ano da Morte de Ricardo Reis



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quando o certo certo foi ter chovido tanto que está o Cais do Sodré  »  alagado, dá a água pelo joelho daquele que por necessidade atravessa de um lado para o outro, descalço e arregaçado até às virilhas  » , levando às costas na passagem do vau uma senhora idosa, bem mais leve que a saca de feijão entre a carroça e o armázem.


e se é verdade que na ocasião se faz o ladrão, também se pode fazer a revolução, como esta de ter ousado Lídia assomar à janela por trás de Ricardo Reis  »  »  e com ele rir igualitariamente do espectáculo que a ambos divertia  » 


Ricardo Reis se finge distraído, no quarto, a folhear, sem ler, The god of the labyrinth  » , obra já citada


Sobe Ricardo Reis a Rua do Alecrim  » , mal saiu do hotel logo o fez parar um vestígio doutras eras, um capitel coríntio, uma ara votiva, um cipo funerário, que ideia, essas coisas, se ainda as há em Lisboa, oculta-as a terra movida por aterros ou causas naturais, aqui é sómente uma pedra rectangular, embutida e cravada num murete  »  que dá para a Rua Nova do Carvalho  »  » , dizendo em letra de ornamento, Clínica de Enfermidades de los Ojos y Quirúrgicas, e mais sobriamente, Fundada por A. Mascaró em 1870  »  » 


Meditam-se estas contradições enquanto se vai subindo a Rua do Alecrim  » , pelas calhas dos eléctricos ainda correm regueirinhos de água


Ricardo Reis para diante da estátua de Eça de Queirós  »  », ou Queiroz, por cabal respeito da ortografia que o dono do nome usou.......Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia  » 


É instrutivo o passeio, ainda agora contemplámos o Eça e já podemos observar o Camões  » , a este não se lembraram de por-lhe versos no pedestal, e se um pusessem qual poriam, Aqui, com grave dor, com triste acento  » 


subir o que falta da Rua da Misericórdia  »  que já foi do Mundo  »  »


Eis o antigo Largo de S. Roque  » 


e a igreja do mesmo santo  » 


aquele a quem um cão foi lamber as feridas da peste  » 


dentro desta famosa igreja é que está a Capela de S. João Baptista  »  » 


haja vista o convento de Mafra  »  »  » 


e outrossim o Aqueduto das Águas Livres  » 


Eis também, na diagonal de dois quiosques que vendem tabaco, lotaria e aguardentes, a marmórea memória  »  mandada implantar pela colónia italiana por ocasião do himeneu  »  do rei D. Luís  » , tradutor de Shakespeare, e D. Maria Pia de Sabóia  » , filha de Verdi, isto é, de Vittorio Emmanuele re d'Italia


Este bairro é castiço, alto de nome e situação  » , baixo de costumes, alternam os ramos de louro às portas da tabernas  » com mulheres de meia-porta


está também por aí a tanger uma guitarra, onde seja não o sabe Ricardo Reis, que se abrigou neste portal, ao princípio da Travessa da Água da Flor  » 


foi de pouca dura este aguaceiro, bateu forte, mas passou, pingam os beirais e as varandas, as roupas estendidas  »  escorrem


Ricardo Reis atravessa o jardim  » , vai olhar a cidade, o castelo com as suas muralhas derrubadas, o casario a cair pelas encostas  » .


é como ter posto o zé-povinho do [Bordalo  »] a fazer um toma  » ao Apolo  »   do Belvedere  » 


portão do que foi Convento de S. Pedro de Alcântara  »


painel de azulejos onde se representa S. Francisco de Assis  »   »  , il poverello, pobre diabo em tradução livre, extático e ajoelhado, recebendo os estigmas


porta de um antigo convento, em Lisboa  » , não em Wittenberg  » 


Ricardo Reis rebusca na memória fragmentos de versos que já levam vinte anos de feitos, como o tempo passa, Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia como tu, Nem mais nem menos és, mas outro deus  » , Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo, Mas cuida não procures usurpar o que aos outros é devido, Nós homens nos façamos unidos pelos deuses  » , são estas as palavras que vai murmurando enquanto segue pela Rua de D. Pedro V  » 


A Ricardo Reis distraiu-o também da pergunta que a si próprio fizera ter chegado à Praça do Rio de Janeiro, que foi do Príncipe Real e quiçá o torne a ser um dia  »  » , quem viver verá.


agora vai descer a Rua do Século  » 


há grupos que passam, todos que descendo vão, gente pobre, alguns mais parecem pedintes, famílias inteiras, com os velhos atrás, a arrastar a perna, o coração a rasto, as crianças puxadas aos repelões pelas mães  » 


no próximo cotovelo da rua, onde há um palácio com palmeiras no pátio  » , parece a Arábia Feliz


Diante de Ricardo reis aparece uma multidão negra que enche a rua em toda a largura  »


Ricardo Reis alcançou o meio da rua, está defronte da entrada do grande prédio do jornal O Século  » , o de maior expansão e circulação, a multidão alarga-se, mais folgada, pela meia-laranja que com ele entesta


À entrada estão dois polícias  » 


É o bodo  » do Século


Ricardo Reis subiu a rampa da Calçada dos Caetanos  » 


Ricardo Reis atravessou o Bairro Alto, descendo pela Rua do Norte  »  chegou ao Camões  » , era como se estivesse dentro de um labirinto que o conduzisse sempre ao mesmo lugar, a este bronze afidalgado e espadachim, espécie de D'Artagnan premiado com uma coroa de louros  » 


porém não virá daí a fama, sim de ter alguma vez escrito, Nel mezzo del camin di nostra vita  »  , ou Menina e moça me levaram da casa de meus pais  »  , ou, En um lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme  »  , para não cair uma vez mais na tentação de repetir, ainda que muito a propósito, As armas e os barões assinalados  »  , perdoadas nos sejam as repetições, Arma virunque cano


Entretanto Ricardo Reis almoçara, entrou em duas livrarias  »  , hesitou à porta do Tivoli  » se iria ver o filme Gosto de Todas as Mulheres, com Jean Kiepura


é o réveillon, ou réveillon  »  


Ricardo Reis jantou acolitado por um único criado  » , e com o maître decorativamente colocado ao fundo  »


Não esperava Ricardo Reis que á sobremesa lhe pusessem na frente uma fatia larga de bolo-rei  »  »  , são estas atenções que fazem de cada cliente um amigo, embora no episódio tenha saído a fava


que ao menos eu vá ao Rossio ver o relógio da estação central  »  


Ricardo Reis desceu o Chiado  »  » e a Rua do Carmo  »  


Para os lados do Teatro Nacional  » , o Rossio está cheio


Da Rua do Primeiro de Dezembro  »  um grupo de rapazes avança batendo com tampas de panela, tchim, tchim, e outros apitam, estridentes


lá está D. Sebastião no seu nicho da frontaria  » 


Pela Rua do Ouro  »  abaixo o chão está juncado de detritos


sentado no sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente apesar de não o ver há tanto anos, e não pensou que fosse acontecimento irregular estar ali à sua espera Fernando Pessoa  »  »


Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de outra  » 


Você continua monárquico, Contínuo, Sem rei, Pode-se ser monárquico e não querer um rei  » , É esse o seu caso, É, Boa contradição


vim por aí fora desde os Prazeres  » 


Pela Rua do Alecrim afastava-se Fernando Pessoa. Os carris luziam, ainda paralelos.  » 



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ÍNDICE REMISSIVO

1 pp. 7-28 (C. Leitores)
pp. 11-30 (Caminho)
»
2pp. 29-53 (C. Leitores)
pp. 31-53 (Caminho)
»
3pp. 55-83 (C. Leitores)
pp. 55-80 (Caminho)
»
4pp. 85-100 (C. Leitores)
pp. 81-95 (Caminho)
»
5pp. 101-121 (C. Leitores)
pp. 97-115 (Caminho)
»
6pp. 123-142 (C. Leitores)
pp. 117-135 (Caminho)
»
7pp. 143-169 (C. Leitores)
pp. 137-160 (Caminho)
»
8pp. 171-193 (C. Leitores)
pp. 161-181 (Caminho)
9pp. 195-216 (C. Leitores)
pp. 183-202 (Caminho)
10pp. 217-238 (C. Leitores)
pp. 203-222 (Caminho)
11pp. 239-260 (C. Leitores)
pp. 223-242 (Caminho)
12pp. 261-284 (C. Leitores)
pp. 243-264 (Caminho)
13pp. 285-307 (C. Leitores)
pp. 265-285 (Caminho)
14pp. 309-337 (C. Leitores)
pp. 287-312 (Caminho)
15pp. 339-362 (C. Leitores)
pp. 313-334 (Caminho)
16pp. 363-385 (C. Leitores)
pp. 335-355 (Caminho)
17pp. 387-408 (C. Leitores)
pp. 357-376 (Caminho)
18pp. 409-426 (C. Leitores)
pp. 377-393 (Caminho)
19pp. 427-440 (C. Leitores)
pp. 395-407 (Caminho)





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