Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que aos outros deuses que te precederam
      Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.
No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupar,
      Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.
Teu vulto triste e comovido sobre
A stéril dor da humanidade antiga
      Sim, nova pulcritude
Trouxe ao Panteão incerto.
Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
      Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,
E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
      Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
      Panteão que preside
      A nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
      Trouxe algo que faltava
      Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
      Vai enxugar o pranto
      Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, stultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
      Das presenças maiores
      Ou parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
      Supersticiosos leigos
      Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
      Cada vez maior força
      Plo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
      Nós homens nos façamos
      Unidos pelos deuses
9 de Outubro de 1916
Odes, de Ricardo Reis (selecção)  »