CAMÕES E AS AMADAS
Dos amores de outros poetas ficou notícia bastante para servir de pasto à curiosidade dos leitores. Dos amores de Camões - que entretanto já deram matéria para muitos livros, desde sérias tentativas de investigação biográfica a maviosos poemas e romances - dos amores de Camões ficou apenas, e isso é o que importa, uma poesia surpreendentemente viva e cálida, apesar das convenções e modelos a que obedece.
Se percorrermos as fontes documentais, e até mesmo as primeiras biografias, não encontramos uma só mulher definida e concreta. Mariz alude a "uns amores que dizem tomou no Paço". E é tudo.
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Num soneto pastoril, Camões fez intervir como protagonista da pequena história de amores pastoris uma "Natércia" e um "Liso".
Ninguém se lembrara ainda de baptizar a Laura do nosso Petrarca. Mariz falara de "uns amores no Paço". A lírica repetia protestos de amor eterno, chorava ausências forçadas, ora lamentava rigores da amada ora aludia à sua partilha de lágrimas. E os biográfos ardiam! Quem era aquela dama do Paço pela qual o Poeta fora desterrado ("dizem...")?
Ora no meio do século XVII, um comentarista fanático e talentoso, Faria de Sousa, relia pela centésima vez a lírica de Camões à procura de indícios que lhe permitissem conhecer melhor o "homem" que o "poeta" ocultava. Faria e Sousa já anos antes afirmara, repetindo o "diz-se", dos amores no Paço, que quem fosse aquela dama, "no consta". Mas eis que dá com o soneto de "Natércia e Liso". E faz-se luz no seu espírito, ao desvendar os anagramas: "Liso, Lois" (a ortografia era ondeante) "Natércia, Caterina". Era das raras páginas da lírica em que o nome do Poeta, mascarado embora, figurava. Daí, porventura a certeza logo proclamada de que ali estava a chave do mistério. Mas ai, era um engano: o mistério começava, não acabava ali.
As Catarinas abundavam naqueles anos, enxameavam como hoje as Paulas e Cristinas. E nem a achega do apelido adiantava alguma coisa. Porque Catarinas de Ataíde havia nada menos de três, só no Paço da Rainha! (Fora uma quarta, filha do conde de Castanheira, que afinal não era Catarina). Uma das três (ou todas, como já alguém aventou) pode ter sido amada. Enfim, rios de tinta correram em vão, e Catarina de Ataíde, um lindo nome, entrou na lenda, arreolada pelos seus cabelos de oiro, sorrindo tristemente ao amante proscrito, e morrendo, morrendo de puro amor em 1556, já quando ele, na Índia, chorava a dureza do exílio.