O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal,
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa
Poema XX de O Guardador de Rebanhos
Escrito entre 1911-12
Publicado em Atena nº 4, Janeiro de 1925
Poemas de Alberto Caeiro
Obras Completas de Fernando Pessoa - volume III
Edições Ática, Lisboa, Outubro de 1963
Coordenação de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor
Exemplares disponíveis nas bibliotecas municipais
- Reprodução não oficial -
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