O Barroco no Brasil - 10 O negro atuou no desenvolvimento do barroco no Brasil. Enquanto Portugal recebia o ouro e o diamante puro e límpido em tão grande quantidade, esbanjando-o ao capricho do monarca e doa validos da corte, aqui, na realidade da luta pela extração, esse tesouro era manchado pelo suor e pelo sangue de escravos. A fome, a luta fratricida, os assassínios foram moeda corrente nas zonas de mineração. O tratamento dado aos escravos, desde sua captura na África até sua venda nos mercados da costa, foi estigmatizado pela pena de inúmeros escritores e poetas. A ambição do homem branco, que não podia prescindir do trabalho escravo para a colonização do Novo Mundo, levou-o a negar a condição humana do indígena e do negro, que eram tratados como obje-tos ou como animais.
Ainda que se atribua aos brasileiros um melhor tratamento de seus escravos do que o dispensado pelos espanhóis e ingleses, tal conceito se aplica ao século XIX, no ciclo do café. Mas nos séculos anteriores o negro foi explorado ao máximo, sob a pressão da necessidade de uma produção maior de açúcar e de uma extração crescente de ouro e diamantes.
Ainda que o ciclo do açúcar tenha criado condições favoráveis ao desabrochar do barroco nas cidades da costa, o ouro, tão abundante em todo o século XVIII, desvariou a imaginação de nossa devota população e desencadeou, na única via livre de controle econômico - as igrejas - a possibilidade de um desenvolvimento artístico sem paralelo em toda a nossa História.
O ouro brasileiro influiu nas relações econômicas de toda a Europa de longa data sensibilizada com o êxito das Descobertas e de seus resultados mirabolantes, proporcionados pelo comércio com as Índias - trabalho de portugueses e holandeses e pela exploração da América espanhola, no que ela representou em ouro e prata para a Espanha. Tardou, mas veio com uma abundância que excedeu as perspectivas logo ampliadas com a descoberta de diamantes, um acréscimo brilhante às toneladas do metal extraídas no Brasil.
Tamanho foi o alvoroço causado pela descoberta do ouro no Brasil, que São Paulo se esvaziou de seus homens e escravos. Portugal se sentiu ameaçado pelo êxodo de sua população masculina para a colônia, e D. João V decretou leis limitando esta imigração. As tripulações dos navios desertavam em massa, o mesmo fazendo os soldados das guarnições fronteiriças; muitos padres abandonaram suas paróquias e chegaram a constituir focos de perturbação nas minas pela sua conduta desregrada, embora usufruindo da condição de sacer-dotes. Numerosos artistas e artesãos faziam parte dessa migração e imigração anônima, ocasionando deficit de mão-de-obra em todos os centros habitados da orla marítima. Com seus senhores seguiam os escravos negros, em cujas costas recaiu o peso dos esforços pela apuração do ouro descoberto. Esvaziaram-se as lavouras canavieiras e esgotaram-se nos mercados os escravos, que atingiram preços jamais alcançados. O custo de vida subiu vertiginosamente, até em São Paulo, capitania que vegetava numa economia agrícola miserável e sem expor-tação. Para esta multidão de mineradores nada mais chegava: boiadas das vacarias do sul passavam por Curitiba, em demanda dos centros de mineração; todos os gêneros produzidos em São Paulo eram pouco para a remessa para as minas, onde alcançavam preços astronômicos, da Bahia, pela via interiorana do rio São Francisco, afluíam boiadas e gêneros de toda sorte, apesar dos esforços da Coroa portuguesa para cercear este comércio. Porque, por onde vinham gêneros alimentícios, saía o ouro contrabandeado, em quantidades maiores do que o apurado diante das autoridades fiscais.
Poder-se-ia definir o mundo da mineração dos últimos anos do século XVII e das primeiras décadas do século XVIII como um conglomerado de entes humanos, senhores e escravos sem escrúpulos e sem leis, lutando pelo fim que a todos reunia: a obtenção do ouro.
A conseqüência desse estado de constante convulsão social, num meio primitivo de acentuada crença religiosa e com elevada criminalidade, teria que se uma só: a procura de Deus. Por várias razões se chega à necessidade de Deus: a gratidão pelas mercês recebidas - sucesso na mineração do ouro -, a recuperação da saúde, o livramento de perigos e a culpa como expiação de ofensas a seus semelhantes; e já vimos que não houve falta de oportunidade para a prática de todos os crimes contra semelhantes brancos e pretos escravos.
Página: 1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10
<<Principal>> <<O Homem Barroco>>