O Barroco no Brasil - 3

        O barroco nasceu, pode-se dizer, com o Brasil, pois enquanto no século XVI, o da Descoberta, se implantava à luz trágica das fogueiras a nova ordem religiosa na Europa, iniciávamos nossa colonização, a princípio deficitária e, já no fim do século, pujante, com a implantação da cana-de-açúcar, a montagem dos numerosos engenhos na orla marítima e a acumulação de recursos que permitiram as disponibilidades para a construção e decoração das igrejas.
        No século XVII acentua-se o comércio do açúcar a tal ponto que desperta a cobiça das nações européias; daí as invasões holandesa e francesa.
        Ainda que o barroco não tivesse tido ampla execução no Brasil senão a partir do fim do século XVII, o acontecimento se deveu antes ao atraso da colônia do que à falta de ardor religioso. Não se pode separar o dinheiro da suntuosidade, pois, ainda que haja a intenção de uma homenagem condigna a Deus em templos ricos, somente com a presença de recursos abundantes foi possível dar execução aos planos existentes. A beleza deslumbrante dos templos barrocos da Itália e da Península Ibérica estava quase sempre presente na memória dos nossos primeiros religiosos; esperavam apenas o aparecimento de recursos para a sua efetiva execução.
        Na vigência do barroco houve profundas alterações da economia dos povos em relação à Idade Média. No século XVI surgiram as grandes cidades com seu poderio econômico, o intenso comércio, a navegação e as grandes descobertas. Com novas terras dominadas pelos europeus, inicia-se a sua explo-ração, sendo logo buscados o ouro e a prata tão carentes no velho mundo. Depois da era romana, e por toda a Idade Média, pouco de acrescentou às quantidades de ouro na Europa. As minas da Transilvânia e do norte da África eram as minguadas fontes do metal tão cobiçado. Falando-se em descobertas de novos mundos, o ouro sempre foi a ambição dos reinantes e vassalos e a mola mestra para a conquista dos mares.
        Com as novas descobertas, sonhava-se com a abundância de ouro para o alívio da situação de permanentes dívidas em que se debatiam os reinos europeus. A euforia da descoberta da América por Colombo foi logo em seguida do travo amargo da decepção: os navios voltavam, não pejados de ouro e prata, e sim de índios. Dessa decepção segue-se o empenho com que a Espanha envidou esforços para a busca do ouro, afinal descoberto na Colômbia e no fantástico tesouro dos Astecas, no México, e dos Incas, no Peru. O ouro assim obtido não constituiu, porém, fluxo regular; ao contrário, esgotava-se rapidamente o que se rapinava à custa de expedientes e de violência das reservas em objetos de adorno e de culto, acumuladas por séculos pelas civilizações pré-colombianas da América.
        Foi somente com a descoberta das minas de prata do Peru que a Espanha obteve um fluxo regular de riquezas, o que tornou o nome "Peru" lendário como sinônimo de opulência.
        Com a extensão da navegação portuguesa para a costa da África, no caminho para as Índias, obteve Portugal ao mesmo tempo de D. Manuel, no século XVI, ouro da Guiné e mercadorias de grande valor na época - as famosas especiarias das Índias, que também carrearam para o pequeno reino ibérico considerável riqueza.
        A conseqüência destes fatos foi o advento, na Espanha primeiramente e em Portugal depois, de um considerável surto artístico, corolário das riquezas recebidas de além-mar. Na Espanha surgiu o exuberante barroco caracterizado pelo estilo plateresco. Já em Portugal, ao mesmo tempo de D. Manuel, floresceu o conhecido estilo manuelino.
        Enquanto a Espanha prosseguia no surto artístico proporcionado pelas riquezas do eldorado peruano, Portugal estacionava pelo declínio do comércio com as Índias, agora, com a concorrência de outras nações, sobretudo a Holanda. Mesmo assim, o barroco em Portugal já era usado nas construções de igrejas, mas num compasso de espera, sempre almejando o eldorado brasileiro. Não se conformavam os governantes portugueses com o fato de no Brasil não existir a prata tão abundante e tão invejada do Peru. Afirmavam inutilmente os governantes de então "ao seu monarca que as verdadeiras minas do Brasil eram os canaviais e as plantas da essência de Braza". Grande verdade, pois o açúcar veio a proporcionar três vezes mais riquezas do que todo o ouro aqui minerado. Mas era o metal, a prata sobretudo, que obcecava os portugueses, numa porfiria pertinaz e impositiva.
        Prata, entretanto, jamais foi descoberta no Brasil; nossa fonte do metal branco foram sempre as trocas com os espanhóis, sobretudo em Buenos Aires e, geralmente, sob o sigilo do contrabando. No mais, usava-se fundir moedas espanholas de prata, certamente obtidas no intenso comércio da época.
        A prata não foi encontrada, mas Portugal virou-se numa ansiedade, agora pelo ouro, que não se cansavam os governantes de incentivar os brasileiros que seguiam em busca do índio para escravizá-lo, sob a capa de uma piedosa intenção de salvar suas almas selvagens. Honrarias e recompensas de toda ordem eram oferecidas em nome de El Rei, aguçando a ambição dos rudes povoados de São Paulo e espicaçando-se nas marchas atrás de selvagem cada vez mais vasqueiro e distante, mas sempre com a atenção voltada para a prata e, senão ela, pelo menos o ouro.

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