O Barroco no Brasil - 1

        O barroco no Brasil é um tema que atrai o estudioso de nosso passado e está longe de ter sido suficientemente explorado em todos os seus ângulos. Foi esquecido, abandonado e dilapidado. Hoje, volta-se o interesse publico para este remanescente da nossa era colonial. Agora se percebe o alcance da incúria a que foram relegados os monumentos artísticos coloniais, vêm eles sendo estudados sob os mais variados aspectos, numa ânsia de revalorizar nosso patrimônio cultural dos três primeiros séculos após a Descoberta.
        Mas não seria justo carregar demasiado nas recriminações porquanto razões houve, que conviria analisar e estudar, tanto para o descuido como para a revivescência do interesse pelo barroco.
        O barroco testemunha a nossa primitiva arrancada colonial proporcionada pela riqueza criada com a produção de açúcar, fumo e madeiras nos séculos XVI, XVII, XVIII, e com o predomínio da mineração do ouro durante todo o século XVIII e principio do XIX . Após uma estagnação que durou século e meio, reinicia-se agora a arrancada com novo surto, definitivo e em crescente ascensão, que de novo estimula o ânimo e o entusiasmo de nosso povo.
        A arte barroca, no Brasil, vem sendo estudada com afinco, com as construções religiosas da orla marítima e de Minas Gerais. Mas existem manifestações de arte barroca menos exuberantes, modestas mesmo, em Goiás, Mato Grosso, São Paulo e, na costa sul, até o Rio Grande do Sul. Tais construções, embora sem o brilho e a magnificência das de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, foram expressões artísticas que ocorreram no século XVIII, tendo forçosamente alguma representação barroca, já que este estilo era o reinante na época.
        Existem várias questões a serem feitas para o entendimento do que representou o barroco e como ele foi implantado no Brasil-colônia:
        O que é o barroco? Como chegamos a esta expressão artística? Por que sua manifestação é quase totalmente religiosa? Quais os acontecimentos ocorridos no mundo ocidental relacionados com o barroco durante os dois séculos de sua predominância? Qual a razão de sua decadência? Por que foi esquecido e desprezado? Quais os elementos de nossa história que influíram na construção religiosa barroca? E finalmente, o mais importante: quais os elementos psicológicos que motivaram as grandiosas ou modestas criações da arte religiosa barroca?
        A resposta a estas questões permitirá o desenvolvimento de um esboço histórico do barroco no Brasil. Este bem compreendido, como um todo, consegue-se perquirir o que, na época, se passou na alma de nossos ancestrais para proporcionar fundos que permitissem tão abundante construção de igrejas barrocas. Estas, hoje redescobertas, causam admiração, encorajando-nos a preservar o que restou de todo este acervo de nossa cultura.
        O barroco, longe de ser uma arte em decadência, como se acreditava até o fim do século XIX, revelou-se aos olhos dos que o estudaram sob um novo enfoque, como manifestação surpreendente de arte criadora, original e consentanêa com a evolução do mundo ocidental dos séculos XVII e XVIII. Deve-se a Wolfflin esta reviravolta sobre o conceito do barroco. Este estudioso suíço publicou em 1.888, quando tinha apenas 24 anos de idade, um livro intitulado "Renascença e Barroco". Esta obra pioneira desencadeou a febre do conhecimento barroco, que passou a atrair a atenção dos estudiosos de História da Arte em todo o mundo. Desses estudos veio o interesse nacional pelas nossas construções barrocas que se revelaram de inestimável valor artístico.
        Para melhor compreensão do fenômeno artístico entre nós, convém situa-lo no contexto da evolução das manifestações de arte no mundo ocidental. Assim, poderemos compreender melhor as implicações psicológicas responsáveis pelo seu desenvolvimento em nosso meio.
        Num renovado exemplo do "sir transit gloria mundi", o barroco, testemunho dos desvarios da fortuna colonial, era substituído pela sobriedade; por isso mesmo foi condenado como arte decadente e de mau gosto; julgamento que mal disfarçava a decepção e a inveja das gerações subsequentes pela opulência imaginária dos ancestrais que testemunharam, viveram e sofreram, na exaltação e na miséria, o ciclo do ouro no Brasil-colônia .
        A configuração sócio-ecônomica do Brasil colonial foi propícia ao desenvolvimento do barroco ligado à religião católica. Existem, entretanto, construções civis com as características do barroco, sobretudo cadeias, fortes e chafarizes e algumas moradias das autoridades da coroa ou potentados da época, sem falar nos inúmeros detalhes arquitetônicos de residências em cidades mais prósperas, tais como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Ouro Preto.
        Para análise das reações emocionais ligadas às construções barrocas, vamos nos cingir às igrejas . Estas constituem a grande maioria destas construções e têm em comum a intenção religiosa, adequada ao nosso estudo. O barroco nas construções civis é a representação do estilo vigente na época, subordinado aos recursos da metrópole ou dos cidadãos. A análise das reações psicológicas que determinaram estas construções teria que ser a análise da riqueza de cada um e das usuais conseqüências das relações humanas em comunidade - vaidade, ostentação, competição, inveja; estas levaram ao esforço de execução de requintes arquitetônicos em beneficio de construções mais vistosas e confortáveis, que se destacaram do comum das moradias simples, mais consentanêas com as condições frugais da vida ambiente.
        A palavra "Barroco" era usada pelos portugueses para designar as pérolas naturais de forma bizarra, irregulares, diferentes da conhecidas pérolas esféricas.
        A arte barroca é também conhecida como o "estilo da Contra-Reforma", já que se aparecimento coincide com o período da efervescência religiosa que deu origem ao Concílio de Trento, em 1545.
        O barroco é o característico de um largo período da história do mundo ocidental durante o qual surgiram tantos estilos diversos quantos foram os grupos sociais que produziram obras de arte. Este conceito de Hauser esclarece o significado de vários qualificativos do barroco, tais como plateresco, jesuítico ou estilo D. João V e rococó, que são manifestações específicas de determinadas épocas, todas dentro do conceito geral do barroco.
        O barroco exprime o imponderável, visando ao infinito, pois nem os tetos das igrejas limitam o espaço, quando decorados com pinturas que os projetam para as nuvens, representando a assunção da Virgem, a ascensão do Senhor ou a corte celeste.
        Esta imponderabilidade tem seu complemento nos elementos de sustentação que se multiplicam graciosamente, sem nada sustentar; nos arcos que se curvam e torcem como se fossem maleáveis; na pintura com iluminação artificial e de caráter ilusionista; enfim, um mundo plástico criado com o objetivo de enaltecer o Altíssimo, numa glória e exaltação religiosas que bem indicam a reação da contra-reforma dentro de uma religião necessitada de renovação saneadora.
        Mas afinal, o que é o barroco? E como é representado artisticamente?
        Ele foi a expressão artística de 200 anos de atividades construtivas, e sua manifestação teve que representar as emoções dos povos e das civilizações da época. O barroco, na sua expressão religiosa, tem o característico geral de uma aspiração ao infinito. É suntuoso, porque assim exalta a glória de Deus; é redundante, porque reforça a expressão dessa glória; é cheio de formas esvoaçantes, que exprimem a espiritualização da fé. Dentro dessa aspiração, manifestou-se com riqueza espantosa onde houve recursos, sobretudo o ouro que amparava suas pretensões; e foi modesto, pobrezinho, humilde onde, mesmo a míngua de recursos, deixou sua marca nesta ou naquela composição que exprimiu tudo o que a veneração modesta do fiel pôde oferecer a seu Deus. São todas expressões do barroco, com cambiantes ligadas à situação social das comunidades. Se o suntuoso representa o barroco na sua plenitude áurea, o modesto exprime o mesmo barroco que, por sua vez, é a sua linguagem de fé.

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