O Barroco no Brasil - 6

        Com a vinda para o Brasil da família real, em 1808, começou o chamariz da Corte, com os recursos eventuais dirigindo-se para a capital. Estabelece-se aos poucos a decadência, não só econômica mas também social, dos centros de mineração. A situação se acentua com a independência, que efetiva a hipertrofia do Rio de Janeiro por todo o Império e a primeiro década da República. O barroco perdeu seu clima, suas condições psicológicas e sócio-econômicas de desenvolvimento. O brasileiro caiu então na dura realidade que muitas décadas antes já estava estabelecida na metrópole, após o terremoto de Lisboa.
        Implanta-se aqui também o neoclassicismo, que traduziu a pobreza e a necessidade de esquecer o luxo faustoso do ciclo do ouro. O século XIX o acolhe, o que se poderia interpretar como uma defesa psicológica contra a angústia da parcimônia imposta pelo esgotamento do ouro.
        O barroco passou então a ser difamado, sendo tido como uma arte decadente, de mau gosto, feia. A idéia de coisa decadente, de aberração, andou tanto tempo associada à noção da arte barroca, que, ainda hoje, muita gente só admira tais obras por condescendência, quase por favor.
        O clima, a atmosfera e o espírito próprios do barroco estavam superados no plano da religião, do absolutismo e da economia. É pois natural que as novas gerações, empenhadas em lutar pela sobrevivência, já sem o ouro e com maior número de bocas pelo crescimento demográfico, só pudessem demonstrar desprezo pelo "mau gosto" de seus ancestrais. No Brasil, muita coisa caiu em ruínas pelo abandono e muito mais foi destruído friamente por conta do falso conceito contra o barroco na época. As exigências da urbanização e a valorização territorial das cidades contribuíram com o ouro tanto de razões. O que restou, e é muito deve-se, no interior do país, à decadência e ao abandono das povoações, tendo o acervo artístico se preservado por si mesmo. Nas cidades da costa, as ordens religiosas, conservadoras, mativeram incólumes seus monumentos co-loniais, mais por espírito conservador do que por ciência.
        Neste século as gerações modernas, sem mágoas ou inveja, podem dar o devido valor ao surto barroco. Talvez porque com o enorme progresso atual nossa atmosfera sócio-econômica seja, de certo modo, equivalente em explosão criadora à época do barroco.
        Na história de algumas igrejas, que documentos encontrados permitiram reconstruir, com a de São Francisco de Assis e a de Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto, assim como a da Capela da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco, em São Paulo, podem seguir cronologicamente todos os detalhes da contrução. Os assentamentos dos livros das irmandades são documentos de grande valor; por eles se observa a seqüência de acontecimentos que ocorreram por várias décadas. Verifica-se então que o clima do Brasil-colônia não mudou enquanto desaparecia o barroco na Europa. Aqui acentuava-se gradativamente a penúria, mas a devoção, o poder real e o ouro continuaram existindo até quase o advento da Independência.
        O barroco foi o testemunho da euforia maravilhosa do ouro que se acabava com rapidez.
        Com o fim do ouro, foi-se o rei de Portugal e tudo o que lembrava a insaciável Metrópole (Portugal). Estávamos pobres, mas com que era nosso. Não tínhamos o ouro, mas pelo menos o berço onde ele existira: a terra era nossa. Aceitar o barro-co como algo extraordinário e digno de ser admirado e preservado era pedir muito ao homem pobre pobre e carente que vegetava nas lembranças dos faustos auríferos. Restava negar que tivesse havido ouro, toda a mirabolante riqueza não passara de um fogo-fátuo: o barroco foi desprezado e esquecido.
        O Brasil-colônia foi uma imagem refletida da Metrópole. O que aqui se fez foi sempre uma reprodução sem originalidade específica dos usos e costumes portugueses. Com a mesma religião controladora administrada pelas poderosas ordens religiosas, os portugueses que emigraram para a colônia ou os dirigentes que para aqui vieram mantiveram por séculos o clima religioso cheio de devo-ção, temores e preocupações pela incógnita do outro mundo. Obedeciam aos preceitos religiosos impostos com a arma da excomunhão, cuja ameaça os padres usaram e abusaram para manter o domínio sobre a população. Deste controle não escapava a própria coroa portuguesa, seja pelo mesmo temor religioso comum a todos, seja pelo próprio interesse político com o útil e prático binômio igreja-estado, o poder eclesiástico e o poder real agindo sincronicamente. Daí, no século XVII, as referências testamentárias incluírem sempre "às justiças reais e eclesiásticas".

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