O Barroco no Brasil - 8 A pedra era escassa no interior da colônia e, mesmo que não o fosse, seu transporte seria penosíssimo, ainda que tivesse sido lavrada, o que não ocorreu com freqüência.
A ausência de pedras na construção dos alicerces e das paredes externas contribuiu para a ruína da grande maioria das construções coloniais, todas precárias. Terra socada poderia resistir às intempéries se protegida contra a umidade. Os templos abandonados tiveram seu primeiro desgaste na cobertura, então como hoje o ponto fraco de toda construção relegada ao abandono. A umi-dade, penetrando nas paredes feitas de terra, leva fatalmente à perda de resistên-cia e ao desmoronamento.
A pedra apareceu nas construções coloniais em Minas Gerais, com o emprego da pedra sabão e do itacolomito, já no fim do século XVIII. A pedra sabão, um silicato macio, permitiu magníficas composições artísticas nas fachadas, nos púlpitos, nas pias batismais e nos lavabos de sacristia. Mas só foi empregada onde encontrada - em Ouro Preto, Mariana e Congonhas.
Na maioria da igrejas, a madeira fez as vezes da pedra. Os esteios e bal-drames de braúna e aroeira são os que garantem, ainda hoje, a estabilidade das igrejas existentes em todo o nosso longuíquo interior. Graças à existência dessas madeiras duríssimas e resistentes ao desgaste do tempo, foi possível a construção de grandes templos que perduram até os nossos dias. Basta citar alguns exemplos, como a Igreja Matriz de Pirenópolis (antiga Meia Ponte), em Goiás, e a Igreja Matriz de Santo Antônio, em Paracatu, Minas Gerais.
Por isso, salvo exceções, o aspecto externo de nossas igrejas coloniais é simples e sem enfeites decorativos, o que levou ao conceito de ser pobre o bar-roco do exterior de nossas contruções religiosas, em contraste com a riqueza do interior.
Pela carência de recursos amplos, decorria largo espaço de tempo entre o início da obra e seu acabamento final. As condições econômicas podiam sofrer oscilações que levavam a acelerar ou retardar a construção. Nesta condições tão instáveis da nossa vida colonial, compreende-se que fosse intenso o afã de levan-tar o edifício, já que, uma vez coberto o templo, o trabalho de acabamento era compatível com o culto divino iniciado de imediato, com a montagem do primeiro altar provisório e o sepultamento em solo consagrado. Compreende-se que houvesse pressa no levantar o arabouço da igreja. Recursos nem sempre abundantes, aliados à ânsia de ver o templo levantado, não davam margem a maiores preocupações arquitetônicas, sobretudo nos distantes núcleos de popu-lação, em geral tão errantes como o próprio ouro que se buscava. Templos monumentais pela proporção, mas de fachadas lisas, sem enfeites, esta a regra da nossa arquitetura religiosa colonial. Valia apenas o porte da construção, com sua fachada de frontão com arremates barrocos, sobretudo volutas, ladeada por uma ou, mais comumente, duas torres.
Mas o Brasil sempre foi o paraíso das madeiras, além de ser uma colônia e depois um país escravista. Madeira e mão-de-obra baratas, portanto, foram a chave da suntuosidade do interior de nossos templos. O que faltou para o exte-rior, sobrou para o interior, a partir da monumental porta: a madeira. O que os portugueses faziam com a pedra lavrada, em composições incríveis, que demandavam hábeis artesãos especializados, se veio fazer no Brasil-colônia com a talha em madeira. Esta era abundante, fácil de trabalhar e obediente ao cinzel do escravo-artesão. Observando-se o interior das nossas igrejas barrocas, vê-se a abundância de talha em cedro recamada de folhas de ouro, o que é característicos do barroco brasileiro. Os artistas que para aqui vieram seguiram os usos da terra, arregimentando logo entre a numerosa população escrava e a marginalizada dos mulatos aqueles a quem ensinaram o ofício de entalhadores e que executavam o grosso do trabalho, permitindo que se ornasse o interior dos templos com a hoje tão admirada talha dourada. A feliz associação da abundância de madeira ade-quada, geralmente o macio cedro que era refratário ao cupim (sabe-se hoje que por 100 anos, apenas) ou de madeiras duras como o jacarandá e o vinhático, com o trabalho do escravo-artesão orientado pelo artista adventício e depois autóctone, permitiu a perpetuação do barroco no Brasil.
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