O Barroco no Brasil - 5 Pelos estudos já realizados sobre nossas principais igrejas barrocas, verifica-se que algumas suntuosas construções jesuítas, beneditinas, franciscanas e carmelitas datam do século XVII. São os marcos iniciais das igrejas das ordens religiosas nas cidades principais da orla marítima. Outras são da primeira metade do século XVIII.
Mas, dadas as condições da época para a obtenção de recursos destinados às construções, houve um lapso muito grande, décadas sucessivas, entre o início e o fim de uma construção. Acresce que se filia com freqüência a época de uma igreja à sua instituição primeira, muitas vezes como uma simples capela. Também, pela precariedade das técnicas de construção, geralmente de taipa de pilão, as igrejas ruíam com facilidade, ocasionando sucessivas reconstruções que não são levadas em conta, ficando a data de construção inicial como época da atual.
Mas para o barroco religioso a decoração interna, o acabamento da igreja, é realmente o fato de maior importância. A talha dourada dos retábulos e, às vezes, de toda igreja ficava forçosamente para o fim, e este acabamento é justamente o que, em boa parte, se realizou na segunda metade do século XVIII.
Lembra-se a esse respeito que em São Paulo as igrejas coloniais ruíram ou foram demolidas por ameaçarem ruína. A igreja de São Bento teve sua ermida inicial em 1610 e a atual, feita neste século, foi a 4º construída no mesmo local. A anterior, do clássico estilo colonial, com uma torre foi demolida em 1910.
A Igreja de São Francisco de Assis, de Ouro Preto, considerada a jóia da arquitetura barroca de Minas Gerais, foi iniciada em 1756 e teve "construção rápida", mas seu acabamento interno - os altares laterais - só foi terminado na República, em 1890.
O curioso é que quando já se acentuava a decadência econômica da colônia mais se incrementavam as construções e o acabamento do interior das igrejas. Mas neste sentido importa assinalar que o ouro não acabou de repente. Foi escasseando aos poucos; pela escassez se incrementavam as buscas e se apuraram os métodos de extração e, por isso, muito ouro se extraiu por todo o século XVIII, entretanto pelo XIX, até 1820.
A decadência da mineração foi tumultuada pela pressão do fisco português que causava, pela sua ganância, alterações sociais agudas, com queixas e lamentações sobre a situação reinante das minas. Com a diminuição da produção, os humildes e os fracos eram os primeiros a perder seu sustento, daí a miséria crescente.
Tem-se que admitir que à euforia da magnificente mineração da primeira metade do século XVIII seguiu-se o desânimo, causado pela realidade da queda da produção, com maior pobreza e até mesmo miséria. Mas a riqueza nas mãos dos grandes continuou farta e é esta riqueza que importa para se compreender a obtenção de fundos para as construções das igrejas.
É sabido que mais da metade do ouro minerado foi contrabandeado. O que quer dizer que a coroa portuguesa não partilhou, sob as mais variadas formas, dos tributos desse ouro. O metal passou das catas para as mãos de quem o entesourou ou gastou e, com muita probabilidade, foi com esse ouro que se construíram as igrejas; o ouro arrebatado ao fisco e, por isso mesmo, mais fácil de veicular para esmolas. A euforia e a abundância que foram contemporâneas do barroco haviam já acabado em Portugal, enquanto no Brasil o conúbio entre a riqueza e o barroco teve campo fértil por mais de 50 a 60 anos. Aleijadinho e Ataíde, os dois maiores artistas barrocos de Minas, trabalharam justamente no fim do século XVIII e começo de XIX. É evidente para nós que sua atuação artís-tica, sobretudo no acabamento das igrejas, já que Ataíde era pintor e Aleijadinho além de construtor era escultor e entalhador, só poderia ter livre curso onde os recursos em ouro não faltassem. É o que se pode verificar na minuciosa história da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto.
O barroco no Serro e em Diamantina é ainda mais recente. Com a descoberta do diamante no Brasil, em 1729, Portugal viu-se em súbito como o maior produtor do mundo e teve que se precaver contra as alterações de preços no mercado internacional. As providências que tomou foram brutais e desumanas: delimitou e bloqueou a zona diamantífera, controlando a população livre e a escrava para limitar a extração, visando manter altos os preços internacionais do precioso carbono. Proibiu ou regulou o tráfego de nossos garimpeiros e aboliu drasticamente a mineração de ouro que eventualmente existia, como existe ainda hoje, nas terras diamantíferas. Com ausência de liberdade e uma economia estrangulada pela Coroa, as obras barrocas dessa zona só apareceram quando afrouxaram as garras do fisco e se estabeleceu uma atmosfera propícia para as manifestações do espírito barroco reinante no resto do Brasil. Compreende-se, assim, a diferença, em tempo de amplitude, entre as igrejas de Diamantina e as de Ouro Preto, o que constitui um exemplo entre muitos outros.
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