O Barroco no Brasil - 7 As ordens religiosas trouxeram seus próprios artistas, cuidando de cons-truir igrejas e conventos na orla marítima, os primeiros a serem levantados. Os jesuítas construíram em Lisboa a Igreja de São Roque; nessa construção trabalhou o irmão Francisco Dias, arquiteto que veio depois missão para a Bahia. É eviden-te que aqui exerceu suas aptidões, colaborando na construção das igrejas que foram barrocas, pois este estilo era o usado em Portugal.
Os membros das ordens eram constantemente removidos da metrópole para a colônia e vice-versa, já que então, como hoje, não tinham estabilidade nos cargos ocupados, ocorrendo freqüentes mudanças. Nestas ordens havia profes-sos de vários países; em geral elementos de escol, muitos deles artistas ou bons artesãos. Como não podia deixar de ser, somente poderia empregar aqui técnicas aprendidas na Europa. Usaram na arquitetura e na pintura, assim como em artes menores, tais como talha, a imaginária e a ouriversaria, o estilo barroco, que avassalava os centros artísticos do velho mundo.
A princípio as construções foram provisórias e precárias, como que apenas ocupando o lugar das futuras igrejas; foram construídas com as possibilidades locais, com a intenção de fazê-las depois definitivas. Usava-se a taipa de pilão, salvo nas construções da orla marítima, onde a pedra e a cal tiveram larga apli-cação. Nas regiões interioranas, a partir de São Paulo, depois em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, a taipa de pilão ou o adobe foram empregados com exclu-sividade. Por isso, muitas edificações de terra tiveram uma vida limitada, ruindo pelo desgaste do tempo e pela incúria dos paroquianos. Em São Paulo, pouquís-simas são as construções coloniais residuais, estas mesmas já reconstruções do século XVIII. Nada resta das que foram feitas anteriormente.
O Brasil-colônia não tinha economia própria. Tudo girava em torno das relações com a Metrópole. Os que aqui enriqueciam viviam num ambiente res-trito, sem maiores aspirações ao luxo e às relações sociais. O luxo de então existia em função da corte portuguesa e, mais propriamente, em Lisboa; mais tarde, após a vinda da família real, o Rio de Janeiro monopolizou e concentrou toda a vida social do país até o começo do século XX. Nossos ancestrais tiveram, sem dúvida, vida farta, em vivendas aprazíveis mas sem luxo, rodeados pelas facili-dades criadas pela presença de escravos. Não tiveram estímulo criador para a vida social, que os levasse a construir palácios com requintes artísticos. Estes, se existiram, foram exceção, pois toda a arquitetura erudita esteve monopolizada pela Igreja e, em muito menor escala, pelas construções governamentais, sobretudo cadeias, ou seja, o poder judiciário essencial numa economia de usura, onde o controle do fisco era o principal objetivo da Metrópole, sempre ávida do açúcar e do ouro do Brasil. As manifestações artísticas dos três primeiros séculos após a descoberta cingiram-se às construções religiosas. Estas tiveram como modelo as da Metrópole; pelo seu número, tiveram que ser criadas com cambian-tes que proporcionassem oportunidades aos artistas imigrados e, depois, aos da terra. A arquitetura colonial é simples; constituíram mesmo um característico geral do nosso barroco a simplicidade do exterior das igrejas e a suntuosidade do seu interior. Esta discordância tem sua explicação nas dificuldades a serem supe-radas na construção de elementos ornamentais nas fachadas e exteriores das igrejas, quando a colônia não contava com os recursos humanos e materiais, sobretudo a pedra, para as embelezar. Entretanto, havia facilidades para a decoração do interior, com a abundância de madeiras próprias para a talha e de ouro para a sua douração. Nas contruções da Bahia usava-se pedra importada de Portugal, trazida com o lastro dos navios que vinham buscar nosso açúcar e nossa madeira. O Igreja da Conceição da Praia é, toda ela, construída em pedra portuguesa. A palavra pedra lavrada, raramente encontrada, tem uma belíssima exceção na fachada da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, também em Salvador. Na orla marítima, por causa da maior facilidade de materiais, encontra-se a pedra dos cantos, nas soleiras e vergas de portas e janelas, mas sem o lavor que se vê nas construções de conventos e igrejas portuguesas a partir da época manuelina.
Página: 1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10
<<Principal>>