O Barroco no Brasil - 2 O Brasil, sendo colônia riquíssima pela cultura e comércio do açúcar e pela mineração, teria que produzir um barroco rico na sua representação máxima, em talha polimorfa recamada do mais fino ouro brasileiro. Aí estão as construções de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Por exemplo as igrejas barrocas com sua arquitetura imponente, com volutas imensas, cornijas, janelas, portadas com linhas características onde predominam a curva e a simetria de ornatos. O encanto das torres com suas cúpulas esféricas, e às vezes sobrepostas, e suas pináculas.
Em meio a esse turbilhão de formas de sustentação e de enfeites, anjos, cariátides, pelicanos e grifos completam o conjunto como chamas esvoaçantes de ouro, que exaltam a efígie de Cristo e dos santos de sua corte celestial. Entre os altares, quadros a óleo ou talha decorativa, num movimento contínuo, envolvendo os fiéis que, olhando para cima, vêem o próprio céu no além representado no forro pintado: a porta celestial para o infinito, para a companhia dos anjos, da Virgem, dos apóstolos e do próprio Deus.
Em contraposição, temos que reconhecer que nem sempre o Barroco no Brasil foi assim representado, pois houve regiões onde as condições sócio-econômicas determinaram outros tipos de construções. Nelas, teve expressão modesta, sem ouro; a talha ambiciosa na sua pobreza, manifesta-se em algumas colunas salomônicas, em raras volutas simétricas, em linhas curvas, numa ou outra folha de acanto, em raros e grosseiros anjos. O intuito na fé foi o mesmo, os recursos é que foram mínimos. Havia abundância de ouro bruto; mas faltavam artistas e material adequado que permitisse uma representação consentanêa com o desejo do clero. A diferença é tão grande que se poderia negar o espírito barroco no ambiente do pobre, o que não é nem justo nem verdadeiro.
Aí estão, em rápidas linhas, os dois pólos do barroco como o vemos no Brasil. Nesta faixa, oscilando entre o maior e o menor, podemos observar as manifestações de arte religiosa do nosso período colonial. Tal constatação faz supor uma profunda influência dos acontecimentos sócio-econômicos no seu desenvolvimento.
Na idade média a população católica predominou numa população constituída por senhores e servos; os sentimentos supersticiosos e a feitiçaria criaram condições propícias para o predomínio do clero.
Nos séculos XV e XVI o mundo como que acorda da estagnação multise-cular, surgindo a Renascença. Há um extraordinário surto de progresso no comércio, com o advento das repúblicas da península itálica, cuja atividade no comércio exterior e no manejo do dinheiro trouxe considerável riqueza à Europa. O comércio marítimo, veneziano e genovês, trouxe ainda a ânsia das descobertas, resultando na descoberta do caminho marítimo para as Índias, da América e do Brasil. Descobertas, terras exóticas e riquezas foram uma seqüência lógica e a conseqüência foi o enriquecimento cada vez maior da Europa, que perdeu a tranqüilidade da parcimônia da Idade Média para passar para a agitação política, corolário das riquezas geradoras de ambições e lutas. Surge então o domínio das grandes casas reinantes: o absolutismo que exprime o poder único e pessoal, indiscutível e divino dos reis. O Papa, com a igreja católica dominante, tinha já considerável poder temporal.
Esta seqüência mostra como o barroco, independentemente das razões artísticas que o tenham condicionado, estava com o campo fecundado para seu pleno desenvolvimento, Até o começo do século XIX, o ambiente religioso foi de vigilância e terror causados pela Inquisição com seus autos de fé, suas perseguições injustas, onde se misturavam à verdadeira crença, os conceitos supersticiosos e a satisfação de interesses econômicos e políticos escusos, sempre na atmosfera sombria dos tribunais secretos e da terrível luz das fogueiras.
Com uma religião assim representada às massas não se podia facilitar, e foi essa, em parte, uma razão para o aparecimento das mais efusivas manifes-tações de fé que dominaram por dois séculos a atitude devocional do povo.
Em nosso meio colonial a Inquisição foi antes uma ameaça do que uma prática habitual. Houve devassas esporádicas e visitações do Santo Ofício no século XVI, mas não se chegou a queimar ninguém. Nem por isso ela foi menos temida, pois os colonos, todos portugueses, sabiam das terríveis incursões em Portugal.
Embora não se tenha havido suplícios em fogueiras, não deixou o povo de ficar alerta e temeroso, pois, muitas vezes encontrava-se atividade inquisitorial. Parece-nos evidente que no inconsciente dos homens desse tempo a ligação com os pais, no caso, representados pela Igreja e por Deus, assim punidores e severos, teria que determinar uma atitude de defesa psicológica contra os conhecidos e comentados horrores das punições pela inobservância dos preceitos da igreja. Havia o profundo e natural sentimento religioso do povo; a ostentação desse sen-timento por palavras e obras poderia ser, porém, conseqüência da pressão exercida pelo poder eclesiástico.
Nesta atmosfera nasceu, cresceu e atingiu seu ápice o barroco no Brasil.
Como decorrência da Contra-Reforma religiosa, o que os protestantes condenavam e aboliram foi retomado e exaltado do lado católico. Os primeiros pugnavam pela simplicidade dos templos, negavam a santidade da Virgem e dos Santos. A Contra-Reforma reagiu, reforçou o conceito da Imaculada Conceição e enalteceu o papel de seus santos e mártires, incentivando a representação iconográfica. Fez mais, promoveu a pompa nas cerimônias religiosas com templos suntuosos, numa exaltação a Deus e aos inumeráveis santos.
A Companhia de Jesus logo se engajou nesta nova orientação, tendo sido a primeira a empregar a arquitetura suntuosa do barroco. Ao mesmo tempo, lançou-se na luta pela catequese, estando seus membros entre os primeiros a chegar à nova colônia, o Brasil. Logo depois chegaram várias outras ordens religiosas, todas com o mesmo afã de catequese e difusão da fé. O mesmo espírito reinante da Europa desde o Concílio de Trento as imbuía, sendo, portanto, fácil compreender o porquê das grandes construções religiosas, da suntuosidade dos templos, e sobretudo, da quase completa exclusividade da ligação do luxo então existente com o tema religioso.
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