O Barroco no Brasil - 4 O resultado desse trabalho dos paulistas, depois apelidados de bandeirantes, foi a descoberta das minas de ouro de Cataguases, depois Minas Gerais, em 1697, de Cuiabá em 1719 e de Goiás, em 1727.
Estava finalmente Portugal na posse do verdadeiro eldorado, que eclipsou, pela sua abundância, a riqueza da América espanhola.
O ouro do Brasil provocou a primeira corrida do ouro no mundo ocidental, que só teria segundo no ouro da Califórnia, em 1847, seguido logo depois, 1851 pelo da Austrália. No último quartel do século XIX sucedem-se novas descobertas na África do Sul e no Alaska, ao mesmo tempo que surge o processo de mineração de ouro com o ácido cianídrico (1887), possibilitando, até nossos tempos, uma grande extração do metal contido no minério. Mas a quantidade comparativamente pequena do século XVIII foi enorme para a época, pois, como visto, foi o primeiro grande fluxo de ouro puro que a Europa recebeu.
O ouro brasileiro, como o das demais partes da América colonial, foi de aluvião e por isso se esgotou com relativa rapidez.
Nosso ouro se exauriu no decurso de um século. Acredita-se que até 1760 o fluxo abundante da extração se manteve, iniciando-se, após essa data, a decadência.
O ouro criou, lá como aqui, um estado psicológico de euforia, uma negação da realidade: sendo o ouro um aluvião, teria forçosamente existência efêmera. Tão onipotente se sentiu Portugal, que assinou com a Inglaterra o famoso e infeliz Tratato de Methuen, já no início do século XVIII. Esse tratado foi negociado com Portugal pelo agente inglês John Methuen, em 1703. Por este acordo comercial, Portugal, que era auto-suficiente em manufaturas, aboliu os embargos para a importação dos tecidos ingleses; a Inglaterra, em contrapartida, concedeu aos vinhos portugueses uma redução de 1/3 dos impostos aduaneiros pagos pelos vinhos franceses. O efeito desse tratado foi nefasto para a economia de Portugal, que passou a ser um mero agente nas transações de produtos manufaturados ingleses com o ouro da colônia, pois a presença dos tecidos ingleses, melhores e mais baratos, matou no nascedouro, toda a incipiente indústria lusa. O ouro bruto brasileiro chegou a entrar em Londres, em certas épocas, no ritmo, em dinheiro, de 50.000 libras por semana. Este ouro contribuiu decisivamente para o êxito da revolução industrial da Inglaterra e garantiu mesmo a vitória dos ingleses na guerra napoleônica.
Em compensação, "tornou Portugal e o Brasil dependentes da Inglaterra, que vestia até os escravos que mineravam ouro e extraíam diamantes. Em síntese, significou para Portugal a renúncia a todo o desenvolvimento manufatureiro e implicou em transferir para a Inglaterra o impulso dinâmico criado pela produção aurífera do Brasil.
Portugal, vivendo às expensas do ouro, e depois, dos diamantes brasilei-ros, teve que pressionar constantemente, lançando mão de todas as artimanhas fiscais para aumentar, ou, pelo menos, manter suas entradas que, juntamente com o vinho e o açúcar, eram suas principais fontes de riqueza.
D. João V reinou de 1706 a 1750 e usufruiu e esbanjou ouro do Brasil, sem falar da riqueza proporcionada pelo açúcar, fumo e madeiras. Com ele, teve Portugal sua época áurea; durante o reinado imperou também em sua plenitude o barroco que, com características próprias, foi chamado de estilo D. João V. Por coincidência, a morte do monarca se dá ao mesmo tempo do início do declínio da mineração, da destruição de Lisboa pelo terremoto de 1755 e do início das dificuldades, com a diminuição dos recursos, enfrentadas vigorosamente pela ação de Pombal, ministro autoritário de D. José I.
Pombal, com sua energia e poder absoluto, apertou ao máximo o mecanismo do fisco metropolitano, provocando acentuado desajuste e inquie-tação na colônia. A conseqüência principal foi a insurreição mineira em 1789, precedida, em 1759, da expulsão dos jesuítas, já em si um fenômeno sócio-político que indicava a intranqüilidade na colônia portuguesa.
O barroco no Brasil sobreviveu por mais de 60 anos ao europeu, pois Aleijadinho trabalhou em suas geniais produções até 1814, ano de sua morte. O término da Igreja São Francisco de Assis, de Ouro Preto, alcançou mesmo a república. O barroco nacional se desenvolveu num clima próprio, tanto que continuava florescente quando em terras da Europa, já estava, havia muito, superado. O atraso cultural da colônia, distante e alheia aos acontecimentos artísticos da Europa é uma explicação plausível para esta sobrevivência.
Relata-se e discute-se teorias do barroco e sua relação com o barroco brasileiro. O barroco é explicado pela evolução fatal da Renascença, inde-pendente de conexões com os fenômenos sociais e econômicos porventura existentes. O barroco é uma fatalidade evolutiva do Renascimento, um desenvolvimento formal, independente de condições materiais. Não somente o barroco histórico do século XVII é necessariamente um estilo tardio, mas todos os estilos se transformam, em suas últimas fases, em barroco, porque as formas características do barroco não são mais em suma do que a conseqüência da transformação imanente perpétua que se efetua nas formas, uma vez criadas. Esta teoria não se encaixa no barroco brasileiro, que sabemos ser totalmente dependente, primeiro de Portugal e, depois, das injunções político-religiosas, assim como sociais, da vida colonial.
De maneira geral, pode-se afirmar sem exagero que as construções barrocas no interior do Brasil se concentram na zona da mineração do ouro em Minas Gerais e em Goiás e que lá foram levantadas, em sua maioria, na metade do século XVIII.
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