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RADIOGRAFIA DO PODER DOS GRÃO-MESTRES



Autor: Irmão HÉRCULE SPOLADORE: Loja de Pesquisas Maçônicas “Brasil”





“ DE TODAS AS PAIXÕES QUE AGITAM A SOCIEDADE, MAIS FUNESTA E SANGUINÁRIA É A AMBIÇÃO DO PODER”

(Gonçalves de Magalhães)



Já se foi o tempo nostálgico da Maçonaria Operativa, em que não haviam Potências Maçônicas. Haviam Maçons Livres em Lojas Livres, e nem sequer existiam Veneráveis. Existia o cargo de Mestre da Loja, que era oferecido ao operário mais capaz, mais humano, mais competente, mais versado nas Artes da Construção e desta forma ele era assim o responsável por aquela Loja. Também, não existiam os famosos landmarques e as corporações tinham cunho religioso, mais especificamente, o católico. Considerando-se a atual forma de liderança dentro da Ordem, desde que foram criadas as Potências, e mais modernamente em regime tido e decantado como democrático que não o é em realidade, entende-se tecnicamente, que o poder temporal de um Grão-Mestre, emane do conteúdo legal de uma constituição daquela Potência, e do resultado de uma eleição onde ele seja sufragado pelas urnas, como eleito, e diplomado por um Tribunal Eleitoral. Eis aí a origem material do poder maçônico no que se refere ao primeiro mandatário de uma Potência. As constituições das mais variadas e inúmeras Potências que existem no mundo diferem de forma irrelevante quanto ao poder que é conferido aos Grão-Mestres. Elas tem mais ou menos a mesma redação, e esse poder é quase absoluto no papel. Porem, se um Grão-Mestre entender, e para isso ele terá que ter uma sensibilidade muito especial, a Maçonaria não é um país, não é uma empresa comercial que gera empregos, não remunera os seus adeptos pelos seus serviços, não é uma religião com dogmas, e que nenhum Maçom depende dela para viver, ou seja ele poderá deixar a Ordem no momento em que bem entender e lhe convier. Ela é antes de mais nada, uma escola de vida, com um profundo teor filosófico mais voltada para o Maçom em si e dentro dela nada se consegue, impondo, perseguindo, ou alterando os caminhos já traçados, porque o relacionamento humano na Ordem é diferente, ele é especial, extrapola os raciocínios aplicados aos paradigmas aplicados à outras organizações. O poder de um Grão-Mestre deriva mais de seu carisma, personalidade, bondade, empatia, compreensão, enfim de uma série de qualidades que caracterizam um homem sábio e um verdadeiro líder tendo ainda a perspicácia de saber que estará liderando outros lideres.

Onde quer que haja uma Potência haverá um Sereníssimo, um Poderoso, ou até como algumas Potências assim os chamam de Soberano ou Eminente, o qual deverá ser obedecido e respeitado como tal. No Brasil onde existe até Grão-Mestre de Grão-Mestres, se computarmos as inúmeras Potências da Maçonaria Tradicional e as Mistas, contaremos cerca de 70 (setenta) Grão-Mestres no momento, dirigindo suas jurisdições. Várias perguntas nos ocorrem quando, assustados, deparamos com este elevado número de líderes que dirigem a Maçonaria brasileira. Por exemplo: Como são estes seres que estão exercendo este poder? Foram todos eleitos normalmente? Eleições livres? Eram as melhores opções para seu grêmio? Como se comportaram com relação aos seus adversários durante o período eleitoral? São todos dignos do poder em que foram investidos? Representam realmente as suas Obediências? O poder, uma vez empossados subiu-lhes à cabeça? Embriagou-os? São liberais e democratas ou são autocratas? O seu povo maçônico está satisfeito com o seu desempenho? São inventores de procedimentos ritualísticos, atropelam os poderes executivos, legislativos e judiciários, perseguem seus oponentes? Governam por decreto ou pela vontade do povo maçônico? Lideram pela humildade e pelo coração ou são prepotentes e tiranos?

Se por um lado, considerarmos este alto número de mandatários existem aqueles que no momento de sua escolha eram as melhores opções, e uma vez eleitos e empossados se tornaram ainda melhores, se caracterizando por serem magnânimos, compreensivos, bons políticos, verdadeiros Pais, bondosos, tolerantes sem ser permissivos, por serem bons ritualistas, por conhecerem a história da Ordem, dos ritos, respeitando-os em toda a sua essência, e também por conhecerem a Constituição de sua Potência sem macula-la e sem passar por cima dela. A estes rendemos nossas homenagens e nossa admiração, porque se superaram, entenderam que a sua missão, é mais humana, mais fraterna que penalizadora tornando-se desta forma mais bons. Estes homens, além de sábios, as vezes são tão úteis para a Ordem, por serem lideres natos que o seu próprio povo os reelegem, sem que os mesmos queiram que isso aconteça.

É porem com tristeza quando aqueles Maçons mais maduros, mais livres, sem compromisso com a política de seu Grão-Mestre, conhecedores a fundo da situação de sua Potência, e que sabem que o Conhecimento e a obrigação de manter nossa Ordem intacta é muito maior que o poder temporal de seus Grão-Mestres, pois os poderes do Conhecimento poderão ser transmitidos e divididos com quer seja, sendo que ninguém os tirará de si, começam a perceber que o líder não era bem aquele modelo que se esperava dele, ou por incompetência, ou porque o poder tomou conta de sua mente. Sentem o fato, e se sentem impotentes para, pelo menos no início protestar, pois quando isso acontece, já foram tomadas todas as providências camufladas em forma de atos ou decretos para abortar todo e qualquer movimento de protesto, ou de vozes livres que se levantam, afogando desta forma os pensamentos e a liberdade especialmente dos livres pensadores democráticos, que um dia acreditaram no seu Grão-Mestre. “Quereis conhecer um homem? Dai-lhe o poder e o conhecerás”. Começarão as perseguições para quem não “rezar pela cartilha” dos mesmos, começarão as mudanças, as alterações nocivas e grosseiras nos rituais, inventando-se procedimentos ritualísticos, que não fazem parte daquele rito, desrespeito e agressão aos ritos minoritários adotados pela Potência, perseguição aos que começarem a levantar-se contra opressão, enfim, uma série de alterações sem razão de ser, passam a ser a Verdade daqueles Grão-Mestres. O povo maçônico estarrecido, triste, impotente terá que se subjugar, em parte por sua própria culpa, já que não percebe que a nossa Ordem é no final de um raciocínio lógico e coerente, uma conspiração contra si própria, pois se rende a pequenas divindades, aceitando-as, sem discuti-las, desviando assim por comodidade, o olhar da própria Realidade. E, o poder destas mentes despóticas advém justamente por não aplicarmos uma das armas que a Maçonaria tanto nos ensina, a eficiência da Dialética bem como o direito que as próprias constituições conferem aos seus Irmãos, que aliás a maioria dos Maçons desconhecem.

Basta que se observe com neutralidade o mecanismo do processo em que o poder toma conta da mente de um Chefe. No caso da Ordem ele não para a fim de analisar e entender que ele está e não é o Grão-Mestre. É um cargo eletivo. Ele passa. Ele está Grão-Mestre e, ainda diríamos pejorativamente, de plantão. Será um dia substituído A Ordem fica e ele se irá. Se, o Irmão que ocupa este cargo, não for bom, não for humilde, seguro de si, justo, ele não terá uma segunda chance de sê-lo. O poder as vezes inebria aquele que se julga te-lo com as prerrogativas que as constituições maçônicas aparentemente lhe conferem. Não se enganem, as constituições são apenas modelos, são muito mais referenciais que absolutistas conforme estão no papel. O verdadeiro poder está no coração e não somente na razão, muito embora terá que haver um equilíbrio entre ambos. Não se pode esquecer, que a nossa vida é muito breve. O Grão-Mestre não poderá esquecer que é um mortal. Deve portanto, não perder um minuto sequer de sua vida, aproveitar qualquer momento para ser bom Bom ser Sábio e não envolver-se em situações pessoais e se achar que é o Messias, que é o Soberano, que é o Salvador da Ordem. Ele deverá se submeter a uma autocrítica diária e constante. Ele não poderá esquecer que é o dirigente de todos, mesmo daqueles Irmãos que ele não gosta, ou que reciprocamente não gostam dele. Deverá confiar nos seus secretários, auxiliares e colaboradores não lhes tirando a autoridade que lhes foi dada. Se ele esquecer disso tudo porque a vaidade, a ganância, a sede de poder forem maior que ele, pobre Potência, a sua, durante aquela gestão, ou gestões, porque este tipo psicológico de mandatário gosta de se perpetuar até quando for possível e quando não puder mais, então deixar títeres em seu lugar e continuar dirigindo a sua Potência por trás dos bastidores.

Uma vez estabelecidos e fortalecidos os grilhões, ele desfrutará do poder que tanto almejou. Funcionando juntamente com seus lacaios ou seguidores fanáticos, alguns, até inocentes úteis que são aqueles que gostam e sempre gostaram de estar ao lado ou ao redor do poder, para desfrutar de suas benesses tal qual as hienas e chacais que esperam os restos das carcaças que os leões deixam para trás, reinarão até quando puderem para festejarem o sabor de uma falsa liderança, e de um poder nocivo. Esta é uma da razões pelas quais esvaziam-se as Lojas. e também uma das razões pelas quais muitos honrados Irmãos se afastam da Ordem.

Zeladores da Ordem, verdadeiros guardiões, geralmente livres pensadores de elite, são aqueles Irmãos que primeiro percebem os primeiros sintomas da opressão, já que a maioria dos membros de uma Obediência aceita passivamente tudo o que lhes é impingido não querendo pensar, não querendo estudar, não lendo nada a respeito da Ordem, porem entulhando os “fundões” dos templos onde se realizam os banquetes após as sessões que lhes são mais importantes, tudo em nome de uma pseudo fraternidade, a fraternidade do copo e do colesterol. Os Maçons de bom senso e suficientemente Homens, têm a coragem de denunciar a farsa, mas correm o risco de serem eliminados. É uma luta que só o tempo e as idéias acabarão por vencer. Afinal, assim tem sido a história da própria humanidade. As idéias sadias e transparentes prevalecerão sobre as atitudes dos déspotas, os quais, é apenas uma questão de tempo, pois sempre acabarão por serem vítimas da própria peçonha. Porem, até que sejam destruídos, muito sofrimento darão ao seu povo.

Assim a humanidade que antes do Humanismo e do Iluminismo, estava em completa escuridão, foi agraciada por estes movimentos que acabaram por aclarar as mentes e através de suas idéias liberais trouxeram novas luzes para o nosso mundo onde os reflexos até hoje se fazem sentir. Porem, mesmo com este avanço social, o Homem é um ser animalesco a tal ponto de as repúblicas que substituíram as monarquias ainda não se assumiram como tal, permitindo que ainda hoje hajam autocratas , tiranos e falsos lideres. Talvez Konrad Lorenz tivesse razão quando afirmava que a agressividade humana é uma herança genética do seu passado animal e não o fruto do meio em que ele vive. Se de fato ele está certo, por maiores que tenham sido as conquistas sociais do nosso planeta, não adiantarão de nada, porque as guerras e os tiranos seriam parte desta própria humanidade e seriam, portanto, inevitáveis. Preferimos acreditar que Lorenz esteja errado, e aceitar que as mudanças, as metamorfoses as distorções sejam creditadas a fatores sócio-ambientais e pessoais e a um irresistível impulso de poder com desvio de comportamento por parte dos lideres impostos ou autoimpostos. Existem vários tipos de líderes, o Dominador que quer dirigir a sua instituição sozinho, sem consultar ninguém, e sem respeitar a opinião dos demais, tomando ou manipulando todas as decisões, penalizando os prováveis infratores, sendo o dono da Verdade; o Apático é o que “deixa fazer”, torna-se passivo, não assume responsabilidades, é inseguro, não sabe determinar tarefas aos seus colaboradores, causa grandes confusões e insegurança ao grupo. Existe o líder Democrático que é aquele que tem a humildade de tomar suas decisões consultando os seus companheiros, sabendo tirar uma média de das opiniões, quando dá autoridade a um dos seus auxiliares, não passa por cima dela, sabe distribuir e dividir, sabe respeitar. Sua habilidade maior não está em ditar ordens, mas sim em educar, estimular e dirigir de tal maneira que, ele acaba conseguindo a cooperação voluntária das pessoas. Este é o tipo do verdadeiro Líder que a Maçonaria necessita e que sabemos existirem muitos Grão-Mestres com esta qualidade positiva. Felizmente é a maioria.

Tomando-se como referência o que vem a ser um líder e entendendo-se que Maçonaria deveria ser mas não é constituída só de lideres pois infelizmente muitos Irmãos não preenchem esta condição, não que sejam nocivos á Ordem, não que sejam Irmãos menos favorecidos pela formação intelectual, são apenas humildes, bons, sabem ouvir, sabem discernir, porem esperam muito dos líderes natos e carismáticos. Mas, o que fazer o povo maçônico, quando um líder nestas condições tem desvio de comportamento, talvez pelo sindrôme de poder, talvez por problemas pessoais, ou sabe-se lá porque, de um liberal conhecido, um democrata convicto ele se transforma num autocrata e passa agir despoticamente como até então não o fizera? Aí será o caos, será a desestruturação de tudo o que ele havia até então realizado de bom, e neste momento acontecerá o fenômeno da perda de credibilidade, do abandono, do repúdio e todos decantarão as qualidades de um novo líder que por certo surgirá. É a Lei da renovação.

O ser humano é de fato, interessante. O homem é um ser gregário. Ele necessita da presença de seus semelhantes para poder sobreviver. Entretanto, o relacionamento humano é muito complexo. Ao mesmo tempo em que ele apedreja, poderá afagar. Parece que existe milhões de homens dentro de um só. Nossa mente é povoada de fantasmas de nós mesmos. Somos vicissitudinários. Mudamos sempre. O equilíbrio positivo, entre as coisas más que poderíamos criar, e as coisas boas que deveremos realizar é que faz as diferenças. O Bem, dentro da Ética e da Moral deverá sempre predominar sobre as tentações do Mal que existe em cada um de nós. Um Grão-Mestre deverá sempre se pautar por esta grande Verdade.



MEMENTO MORI.

MEMENTO PULVIS ES ET IN PULVEREM REVERTERIS




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