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BARÃO DO SERRO AZUL
Hércule Spoladore
19/11/1993
Ildefonso Pereira Correia nasceu em Paranaguá no dia 06/08/1845. Era filho do Maçom Comendador Manoel Francisco Corrêa Júnior, fundador da primeira Loja Maçônica do Paraná, a Loja União Paranaguense, criada em 08/06/1837.
Nasceu numa época em que seu ilustre pai havia caído em desgraça junto ao Imperador, porque havia impresso e distribuído folhetos onde pregava idéias de emancipação da então 3.ª, depois 5.ª Comarca de São Paulo( atualmente após pesquisas, era a 10ª Comarca)
Aos 12 anos Ildefonso fica órfão. Em Paranaguá estudou as primeiras letras, seguindo depois para São Paulo e Rio de Janeiro. Completou o curso de Humanidades no Colégio Fraze, em Nova Friburgo, Estado do Rio de Janeiro.
Por orientação de seu irmão Pedro de Alcântara, Ildefonso ficou durante cinco anos em Montevidéu e Buenos Aires, onde adquiriu a prática industrial e comercial, conhecendo melhor os mercados locais, que eram os maiores consumidores de erva mate brasileira.
Com a suspensão da importação da erva mate paraguaia, em função da Guerra do Paraguai, aventou-se a possibilidade de incrementar ainda mais os negócios naqueles mercados agora totalmente abertos.
Ildefonso continuava assim a obra de seu pai que era proprietário de engenhos de erva mate.
Em 1868 volta a Paranaguá, passando a ser o responsável pelo escritório de seu irmão.
Em 1869 é proposto na Loja Perseverança de Paranaguá. Na sessão de 23/03/1869 foi marcada a sua iniciação. Todavia, não podemos saber a data exata, porque em 1922 um incêndio destruiu o belo Templo daquela Loja, inclusive todos os livros de atas, menos o primeiro, que por sinal não estava no interior do prédio. Entretanto, sua iniciação é fato concreto, como cita o Irmão Dario Nogueira dos Santos, um dos primeiros historiadores maçônicos paranaenses.
Em 04/12/1872, casa-se com sua prima Maria José Correia ( apelidada Coca), que futuramente, já baronesa, viria pertencer à primeira Loja de Adoção (feminina) que existiu no Paraná, fundada no ano de 1901 com o título distintivo de Filhas de Acácias. O casal teve três filhos.
Em 1872 estabeleceu por conta própria uma casa de comissões, montando em seguida o seu primeiro engenho de erva mate, em Antonina, contando com a colaboração do seu grande amigo e Irmão David Antônio da Silva Carneiro ( iniciado na Loja Perseverança em 10/10/1867), começando a fabricação e exportação da centenária marca de mate Ildefonso, que até a presente data ainda existe.
Ildefonso Pereira Correia pertencia a uma ilustre família de abastados proprietários e chefes políticos da época. Seu irmão Manoel Francisco Correia foi senador do Império em 1877 e ministro do Exterior em 1873. Seu tio era o famoso Visconde de Nácar ( Manoel Antônio Guimarães).
Das suas irmãs, Maria Bárbara casou-se com o Maçom Agostinho Ermelino de Leão, que por três vezes foi vice-governador da Província, assumindo a governadoria interinamente; Francisca casou-se com o Maçom Comendador Antônio Alves de Araújo, que igualmente exerceu a vice-governadoria, também tendo exercido o cargo de governador interino; e Eufozina, que casou-se com o Maçom Cândido Ferreira de Abreu.
Ildefonso possuía uma grande biblioteca em sua mansão, onde os grandes filósofos tinham seus espaços sagrados e eram lidos por ele com avidez.
Desta forma com sua cultura e pertencendo a uma família rica de negociantes e políticos, teve condições de se tornar líder, rico, respeitado e ainda tinha como dom um raro tino comercial.
Os êxitos nos negócios levaram-no a conhecer os Estados Unidos e Europa, onde as marcas de suas ervas ganharam muitas medalhas de distinção e muitos primeiros prêmios em quase todas as exposições de mundo.
Introduziu melhorias técnicas bastantes avançadas em seus engenhos de mate, entre elas a máquina a vapor. O seu espírito empresarial e o progresso tecnológico fez com que o Paraná industrializasse a erva mate de maneira bastante competitiva e com grande qualidade. E teve um grande aliado, um desses inventores que aparecem um em cada meio século, o engenheiro naval paranaense Francisco Camargo Pinto, que era um gênio. Seus inventos aplicados à indústria do mate e a visão comercial de Ildefonso tornaram o mate paranaense o melhor do mundo na época. Ildefonso era dono de vários engenhos no Paraná. O seu padrão de trabalho fez com que seus concorrentes também melhorassem tecnicamente.
Observando que as reservas florestais paranaenses tinham imensas possibilidades econômicas, Ildefonso tornou-se também um grande exportador de madeira. Foi dono de muitas serrarias, sendo esta atividade a segunda em importância na sua vida.
Em 1878 Ildefonso mudou-se para Curitiba. Construiu uma mansão na rua do Serrito (hoje Carlos Cavalcante), conhecida como o Solar do Barão. Diz-se que nesta mansão realizavam-se sessões Maçônicas.
Em 1880, a 21 de maio, Curitiba recebeu a visita do casal imperial, que vinha ao Paraná tratar da construção da Estrada de Ferro Curitiba - Paranaguá e para inaugurar a Santa Casa de Misericórdia, outra obra de maçons paranaenses.
O casal Ildefonso e Maria José foi notado pelo Imperador Dom Pedro II e daí a poucos meses o futuro barão seria condecorado com a Ordem da Rosa, precisamente em 31/08/1880. Nestas alturas já era comendador.
Em 1881 foi um dos fundadores do Clube Curitibano e seu primeiro presidente.
Ingressou na política e pertencia ao Partido Conservador. Foi Deputado Provincial por várias vezes, sempre desempenhando o cargo com muita desenvoltura.
Foi governador e assumiu o cargo de governador interino no período de 30/06/1888 a 04/08/1888, tornando-se o 25º governador da Província do Paraná.
Em 1884, quando em visita à Curitiba, a Princesa Isabel e o Conde DEu hospedaram-se na residência do Comendador Ildefonso.
Foi um dos maiores abolicionistas do Paraná. Comprava a alforria de escravos.
Pertenceu a uma Sociedade Secreta de pessoas importantes, a maioria Maçons, chamada Ultimatum, que entre outras atividades, seqüestrava escravos e os enviava para países do Prata, ou para Santos. Esta sociedade seqüestrava escravos do próprio Visconde de Nácar, tio de Ildefonso. Os viscondes eram perseguidos de Republicanos e Escravocratas Convictos.
Em 08/08/1888 o Comendador Ildefonso foi tornado, por decreto imperial, Barão do Serro Azul. Seu retorno do Rio de Janeiro, onde fora receber o título, ocasionou uma das maiores festas que Curitiba assistiu no século passado.
Em 1889 funda o Banco Mercantil e Industrial do Paraná. Em 1890 funda a Associação Comercial do Paraná.
A Proclamação da República veio surpreendê-lo num momento em que já tinha superado as aspirações políticas e pregava abertamente a união de todos os partidos e todos os paranaenses. Muito respeitado por todos, até adversários políticos vinham pedir seus conselhos. Aliás, após o golpe de estado que redundou na república, segundo ele a melhor solução para o Paraná, seria a união de todos. Assim pensando, afastou-se da política partidária.
Após a Proclamação da República, o Brasil passou por um longo período muito agitado: tentativa de golpe do Maçom Deodoro; assume o governo o Maçom Floriano; revolta da Armada no Rio de Janeiro, combinada com o movimento federalista do sul, onde os Maçons Júlio de Castilhas e Conselheiro Gaspar Martins eram inimigos de morte.
No Paraná igual rivalidade existiam entre os Maçons Generoso Marques e Vicente Machado. O Barão ficou à parte desta disputa.
Vem a Revolução Federalista. O General Gumercindo Saraiva, com seus bombachudos, invadem o Paraná, via Santa Catarina. Vicente Machado, então vice-governador do Paraná em exercício, foge para Itararé. Gumercindo exige dinheiro, ameaçando saquear Curitiba. O Barão do Serro Azul, para salvar Curitiba, levanta um empréstimo de guerra da Associação Comercial. Seu grande pecado, no entender de Floriano.
Parecia que a Revolução Federalista seria vencedora. O Coronel Carneiro, Maçom, resiste por 26 dias na gloriosa Lapa, tempo mais que suficiente para Floriano se reorganizar. Os gaúchos voltam para o Rio Grande . Vicente Machado e o exército legalista, ou florianista, voltam à Curitiba. Perseguições a todos os considerados colaboracionistas. Prisões em massa, fuzilamentos e degolas.
O Barão não quis fugir. Estava tudo preparado. Julgou-se inocente e salvador de Curitiba. Estava pronto a responder perante um conselho. Mas não era bem isso o que os seguidores de Floriano queriam. O Barão foi inicialmente detido em sua própria residência, depois recolhido ao quartel e posto incomunicável.
No dia 20/05/1894 uma escolta vinda do Rio de Janeiro, faz embarcar num trem seis pessoas considerados inimigas da República. Deles, três eram maçons: o Barão do Serro Azul, José Lourenço Schleder ( Loja Apóstolo da Caridade) e Prisciliano da Silva Corrêa, primo do Barão (Loja Perseverança). Era um Domingo da Trindade à noite.
Na altura do quilômetro 65 da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, a composição freia bruscamente. Seis pessoas são fuziladas barbaramente.
O Barão, que não era um federalista, seu primo sim, morre estupidamente, vítima de uma luta fratricida, numa das revoluções consideradas as mais violenta de toda a América Latina, pelas atrocidades cometidas por ambos os lados.
Consideramos Floriano o Consolidador da República e de fato o foi. Se assim não tivesse acontecido, o Brasil hoje seria retalhado por inúmeras republiquetas.
Mas ele deve muito ao Paraná e a Santa Catarina. Deve por sua crueldade e pelo que permitiu que se fizesse contra os paranaenses: fuzilamentos e degolas sem julgamento, estupro de mulheres na frente de seus filhos e maridos, enfim, a guerra mais suja possível, de ambas as partes.
O Barão não merecia o fim que teve. Não foi julgado. Era a seu tempo o homem mais importante e mais respeitado do Paraná. E teve a coragem de não fugir, como o fizeram os chefes maragatos paranaenses, pois acreditava que havia salvo Curitiba do saque prometido pelos federalistas e que Floriano haveria de compreender este seu procedimento. Enganou-se...
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