 O
Mostrengo
Sossega, cora��o!
Tudo o que fa�o ou medito
Sorriso aud�vel das folhas
Autopsicografia
Amamos sempre no que temos
HETER�NIMOS
ALBERTO CAEIRO
RICARDO REIS
�LVARO DE CAMPOS
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O MOSTRENGO
O mostrengo que est� no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou tr�s vezes,
Voou tr�s vezes a chiar,
E disse: �Quem � que ousou entrar
Nas minhas cavernas que n�o desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?�
E o homem do leme disse, tremendo:
�El-Rei D. Jo�o Segundo!�
�De quem s�o as velas onde me ro�o?
De quem as quilhas que vejo e ou�o?�
Disse o mostrengo, e rodou tr�s vezes,
Tr�s vezes rodou imundo e grosso.
�Quem vem poder o que s� eu posso,
Que moro onde nunca ningu�m me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?�
E o homem do leme tremeu, e disse:
�El-Rei D. Jo�o Segundo!�
Tr�s vezes do leme as m�os ergueu,
Tr�s vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer tr�s vezes:
�Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que � teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. Jo�o Segundo!�
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Sossega, cora��o!
Sossega, cora��o! N�o desesperes!
Talvez um dia, para al�m dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Ent�o, livre de falsas nostalgias,
Atingir�s a perfei��o de seres.
Mas pobre sonho o que s� quer n�o t�-lo!
Pobre esperen�a a de existir somente!
Como quem passa a m�o pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o conceb�-lo!
Sossega, cora��o, contudo! Dorme!
O sossego n�o quer raz�o nem causa.
Quer s� a noite pl�cida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
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Tudo o que fa�o ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada � verdade.
Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que fa�o!
Minha alma � l�dica e rica,
E eu sou um mar de sarga�o ---
Um mar onde b�iam lentos
Fragmentos de um mar de al�m...
Vontades ou pensamentos?
N�o o sei e sei-o bem.
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Sorriso aud�vel das folhas
N�o �s mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro � que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
Ri e olha de repente
Para fins de n�o olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo � vento e disfar�ar.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde n�o olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se n�o conversou
Isto acaba ou come�ou?
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AUTOPSICOGRAFIA
O poeta � um fingidor.
Finge t�o completamente
Que chega a fingir que � dor
A dor que deveras sente.
E os que l�em o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
N�o as duas que ele teve,
Mas s� a que eles n�o t�m.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a raz�o,
Esse comboio de corda
Que se chama cora��o.
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Amamos sempre no que temos
O que n�o temos quando amamos.
O barco para, largo os remos
E, um a outro, as m�os nos damos.
A quem dou as m�os?
A Outra.
Teus beijos s�o de mel de boca,
S�o os que sempre pensei dar,
E agora a minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem � a boca?
Da outra.
Os remos j� cairam na agua,
O barco faz o que a �gua quer.
Meus bra�os vingam minha m�goa
No abra�o que enfim podem ter.
Quem abra�o?
A Outra.
Bem sei, �s bela, �s quem desejei...
N�o deixe a vida que eu deseje
Mais que o que pode ser teu beijo
O poder ser eu que te beije.
Beijo, e em quem penso?
Na Outra.
Os remos v�o perdidos j�,
O barco vai n�o sei para onde.
Que fresco o teu sorriso est�,
Ah, meu amor, e o que ele esconde!
Que � do sorriso
Da Outra?
Ah, talvez mortos ambos n�s,
Num outro rio sem lugar
Em outro barco outra vez s�s
Possamos n�s recome�ar
Que talvez sejas
A Outra.
Mas n�o, nem onde essa paisagem
� sob eterna luz eterna
Te acharei mais que algu�m na viagem
Que amei com ansiedade terna
Por ser parecida
Com a Outra.
Ah, por ora, idos remos e rumo,
D�-me as m�os, a boca, o teu ser.
fa�amos desta hora um resumo
Do que n�o poderemos ser.
Nesta hora, a �nica,
S� a Outra."

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