Alexandre O'Neil

Adolfo Sim�es M�ller ] [ Alexandre O'Neil ] Almeida Garrett ] Ant�nio Gede�o ] Augusto Gil ] Bocage ] Bulh�o Pato ] Cam�es ] Fernando Pessoa ] Florbela Espanca ] Guerra Junqueiro ] Jo�o de Deus ] M�rio de S�-Carneiro ] Miguel Torga ] Ra�l de Carvalho ] Sebasti�o da Gama ]

Gaivota


Se uma gaivota viesse
trazer-me o c�u de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse c�u onde o olhar
� uma asa que n�o voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito cora��o
no meu peito bateria,
meu amor na tua m�o,
nessa m�o onde cabia
perfeito o meu cora��o.

Se um portugu�s marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enla�asse.

Que perfeito cora��o
no meu peito bateria,
meu amor na tua m�o,
nessa m�o onde cabia
perfeito o meu cora��o.

Se ao dizer adeus � vida
as aves todas do c�u,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era s� teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito cora��o
no meu peito morreria,
meu amor na tua m�o,
nessa m�o onde perfeito
bateu o meu cora��o.


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Se uma gaivota viesse...

Gaivota

H� Palavras que nos beijam

Fala

Poema pouco original do Medo

"Albertina" ou "O inseto-insulto" ou
"O quotidiano recebido como mosca"

A Meu Favor



H� palavras que nos beijam


H� palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperan�a,
De imenso amor, de esperan�a louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No m�rmore distra�do
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite � mais forte,
Ao sil�ncio dos amantes
Abra�ados contra a morte.

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Fala

Fala a s�rio e fala no gozo
F�-la pela calada e fala claro
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao cora��o
Falinhas mansas ou palavr�o
Fala � mi�da mas f�-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua m�e
Fala franc�s fala b�u-b�u
Fala fininho e fala grosso
Desentulha a garganta levanta o pesco�o
Fala como se falar fosse andar
Fala com eleg�ncia - muito e devagar.

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Poema Pouco Original do Medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambul�ncias
e o luxo blindado
de alguns autom�veis
Vai ter olhos onde ningu�m o veja
m�ozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos n�o s� nas paredes
mas tamb�m no ch�o
no teto
no murm�rio dos esgotos
e talvez at� (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na �pera
sess�es cont�nuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
confer�ncias v�rias
congressos muitos
�timos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
her�is
(o medo vai ter her�is!)
costureiras reais e irreais
oper�rios
(assim assim)
escritur�rios
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
pa�ses
suspeitas como toda a gente
muit�ssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que � justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

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"Albertina" ou "O inseto-insulto" ou
"O quotidiano recebido como mosca"


O poeta est� s�, completamente s�.
Do nariz vai tirando alguns minutos
De abstra��o, alguns minutos
Do nariz para o ch�o
Ou colados sob o tampo da mesa
Onde o poeta � todo cotovelos
E espera um minuto de beleza.
Mas o poeta � aos novelos;
Mas o poeta j� n�o tem a certeza
De segurar a musa, aquela
que tantas vezes, arrastou pelos cabelos...
A mosca Albertina, que ele domesticava,
Vem agora ao papel, como um inseto-insulto,
Mas fingindo que o poeta a esperava ...

Quase mulher e muito mosca,
Albertina quer o poeta para si,
Quer sem versos o poeta.
Por isso fica, mosca-mulher, por ali...

— Albertina!, deixa-me em paz, consente
Que eu falhe neste papel t�o branco e insolente
Onde belo e ausente um verso eu sei que est�!

— Albertina! eu quero um verso que n�o h�!...

Conjugal, provocante, moreno e azulado,
O inseto levanta, revoluteia, desce
E, em lugar do verso que n�o aparece,
No papel se demora como um insulto alado.

E o poeta sai de ch�fre, por uns tempos desalmado ...

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A Meu Favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de �dio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo ref�gio acima do murm�rio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recome�a.

UP

 

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