Augusto Gil

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Balada da Neve

Sextilhas a um Menino Jesus de �vora

O Passeio de Santo Ant�nio

Toada para as M�es acalentarem os Filhos

Joaninha

A Can��o das Perdidas

Balada da Neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Ser� chuva? Ser� gente?
Gente n�o �, certamente
e a chuva n�o bate assim.

� talvez a ventania:
mas h� pouco, h� poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com t�o estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
N�o � chuva, n�o � gente,
nem � vento com certeza.

Fui ver. A neve ca�a
do azul cinzento do c�u,
branca e leve, branca e fria...
- H� quanto tempo a n�o via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a atrav�s da vidra�a.
P�s tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e tra�a
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avan�a,
e noto, por entre os mais,
os tra�os miniaturais
duns pezitos de crian�a...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda v�-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque n�o podia ergu�-los!...

Que quem j� � pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crian�as, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turba��o
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu cora��o.


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Sextilhas a um Menino Jesus de �vora

Num convento solit�rio
De �vora, cidade clara,
Claro celeiro de p�o,
Existe uma imagem rara,
Obra dum imagin�rio
Dos tempos que j� l� v�o…

� um Menino Jesus,
De bochechinha brunida
Cor de ma�� camoesa,
Mas no seu rosto transluz
Uma express�o dolorida
Que enche a gente de tristeza…

De tant�ssimas imagens,
Nenhuma vi que mais prenda,
Que maior ternura expanda,
Com suas cal�as de renda,
Seu vestido de ramagens,
- E coroa posta � banda…

Gordo, n�dio, bem trajado,
Deveria ser feliz,
Deveria estar sorrindo;
Mas o seu olhar magoado,
T�o magoado, t�o lindo,
Que n�o o �, bem no diz…

Se n�o fosse por ser Deus
E o seu poder infinito
Ter sempre que demonstrar
C� na terra e l� nos c�us,
Estenderia o beicito
- E desatava a chorar!…

Corre o tempo descuidado,
Passa uma hora, outra hora,
Atr�s desta outras se v�o,
E, quem o v�, encantado,
Sem se poder ir embora
Numa perp�tua atrac��o…

Eu entrei com o sol a pino.
Pouco depois da chegada
(Pouco a mim me pareceu)
Deixei de ver o Menino…
N�o era a vista cansada,
- Foi a noite que desceu…

Mesmo assim l� ficaria,
Absorto em muda prece
De quem mal sabe rezar,
Se o sacrist�o n�o viesse,
Com rodas de Senhoria,
Dizer-me que ia fechar…

Pudesse t�-lo trazido
E n�o fosse eu rico, apenas,
De fantasias, de esp'ran�as,
Punha-o num nicho florido
Por sobre as camas pequenas
Dum hospital de crian�as…

Dum hospital modelar
Sustentado por meus bens,
Entre olaias e roseiras,
Cheio de sol, cheio de ar,
E em que as boas enfermeiras
- Seriam as pr�prias m�es…

A mais ampla enfermaria
Desse escolhido local
De bondade e sofrimento
- Era o fundo natural
da funda melancolia
do Menino do convento…

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O Passeio de Santo Ant�nio

Sa�ra Santo Ant�nio do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um c�ndido serm�o sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino serm�o piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite pl�cida baixando…

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com �rvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma l�gua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver t�o longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resigna��o de quem � santo…

O luar, um luar clar�ssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do c�u,
P�s-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de �gua murmurante
Juntava o seu murm�rio ao dos pinhais.
Os rouxin�is ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De bra�o dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o cora��o no peito.

Sem suspeitarem de que algu�m os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, por�m, ouviu e disse:
- � Frei Ant�nio, o que foi aquilo?…

O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- N�o sei o que fosse. Eu c� n�o ouvi nada…

Uma risada l�mpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei Ant�nio? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. � um passarinho.

- Tu n�o est�s com a cabe�a boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo Ant�nio de Lisboa
Calou-se embara�ado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta sa�da redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
…Queixo-me � sua m�e, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
S�o horas…

E abalaram pr� convento.


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Toada Para as M�es Acalentarem os Filhos

� Desgra�a! Vai-te embora,
Que esta linda criancinha
Andou no meu ventre e agora
Trago-a nos bra�os. � minha!…

Do ber�o, segue-me os passos;
Onde eu vou, seus olhos v�o…
E quando a aperto nos bra�os
- Abra�o o meu cora��o.

Quando o seu choro receio,
Embalo-a, fa�o que aceite
A alegria do meu seio
Na brancura do meu leite…

E quando assim n�o descansa,
Que tristezas me consomem!
- Mas antes chore em crian�a
Que depois, quando for homem…

Se ao d�-lo ao mundo sofri
Tormentos, �nsias mortais,
Desgra�a, vai-te de aqui,
O que pretendes tu mais!?

Bate as asas, mas ao voares
N�o me apagues esta estrelha.
Se algu�m de aqui precisares,
- Aqui me tens, em vez dela.

Tocam � ave-marias.
Foi-se o sol. N�o vem a lua.
Luzinha que me alumias,
Que sorte ser� a tua?…

Riquezas tenhas t�o grandes,
E tal bondade tamb�m,
Que ao redor donde tu andes
N�o fique pobre ningu�m.

Que a todos chegue a ventura:
Toda a boca tenha p�o,
Toda a nudez cobertura,
Toda a dor, consola��o…

Mas se o oiro � mau caminho,
- Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.

Iremos por esses montes
Altos e azuis como os c�us…
Que onde h� frutos e onde h� fontes,
- Est� a mesa de Deus!

E, quando a neve cair
E as seivas adormecerem,
Iremos ent�o pedir…
(Aceitar o que nos derem!)

Andaremos � merc�
Dos g�nios bons e dos falso,
L�guas e l�guas a p�,
Rotinhos, magros, descal�os…

E onde houver urzes e tojos,
Pedras que rasgam a pele,
Porei o corpo de rojos
- Passar�s por cima dele!

Dorme, dorme, meu menino,
Foi-se o sol. Nasceu a lua.
Qual ser� o teu destino?
Que sorte ser� a tua?…

Se um crime tens de fazer,
Antes fique vago um trono,
Antes um pal�cio a arder,
Do que uma enxada sem dono…

Se, por�m, no teu destino,
H� t�o cruentos sinais,
Dorme, dorme, meu menino,
- N�o tornes a acordar mais!…


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Joaninha


Descanse de quando em quando…
Passar assim toda a tarde
Sempre bordando, bordando,
Sem que um momento desista,
At� faz pena! N�o lhe arde
Nem se lhe perturba a vista?…

Descanse de quando em quando…
Erga os olhos do bordado
E veja quem vai passando.
O trabalho alegra a gente,
Mas assim, t�o aturado,
- N�o lhe faz bem, certamente;

Erga a carinha tranquila,
Erga esse rosto t�o lindo
E veja os mo�os da vila
A passarem por aqui,
Uns descendo, outros subindo.
- E todos de olhos em si…

Descanse de quando em quando
E veja se escolhe algum;
J� � tempo de ir pensando
Em casar. N�o � assim?…
Se n�o lhe agrada nenhum,
- Diga se gosta de mim.

Desde os come�os do Outono
Que eu a trago no sentido,
N�o como, n�o tenho sono,
Tudo me d� rala��o.
Quer-me para seu marido?
- Diga que sim ou que n�o…


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A Can��o das Perdidas

I

Quem por amor se perdeu
N�o chore, n�o tenha pena.
Uma das santas do c�u
- � Maria Madalena…

II

Minha m�o foi o que eu sou.
Eu sou o que tantas s�o.
Que triste heran�a te dou,
Filha do meu cora��o!

III

Meu pai foi para o degredo,
Era eu inda pequena.
Se n�o morresse t�o cedo,
Morria agora - de pena…

IV

E h� no mundo que afronte
Uma mulher quando cai!
Nasce �gua limpa na fonte,
Quem a suja � quem l� vai…

V

Aquele que me roubou
A virtude de donzela
Se outra honra lhe n�o dou,
- �… porque s� tive aquela!

VI

N�s temos o mesmo fado,
� fonte de �gua cantante:
Que te quer, p�ra um bocado,
Quem n�o quer, passa adiante…

VII

O meu amor, por am�-lo,
P�s-me o peito numa chaga:
Deu-me facadas. Deix�-lo.
Mas ao menos n�o me paga!

VIII

Nem toda a �gua do mar
Por estes olhos chorada,
Daria bem a mostrar
O que eu sou de desgra�ada!

IX

Como querem ver contente
Este pa�s desgra�ado,
Se d�o s� livros � gente
Nas escolas do pecado…

X

Dormia o meu cora��o
Cansado de fingimento.
Bateste-me, e vai ent�o
Acordou nesse momento…

XI

Se aquilo que a gente sente,
C� dentro, tivesse voz,
Muita gente… toda a gente
Teria pena de n�s!

UP

 

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