Manuel Maria Barbosa du Bocage

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Retrato pr�prio

Magro, de olhos azuis, car�o moreno,
Bem servido de p�s, me�o na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e n�o pequeno.

Incapaz de assistir num s� terreno,
Mais propenso ao furor do que � ternura;
Bebendo em n�veas m�os por ta�a escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de mo�as mil) num s� momento,
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Sa�ram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

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Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Raz�o, me tens curado?
Qu�o f�cil de um estado a outro estado
O mortal sem querer � conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que at� regia a m�o do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe � vedado,
Depois com ferros vis se v� cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da exist�ncia � morte!

Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;
� lei da natureza, � lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.

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Meu ser evaporei na luta insana

Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paix�es que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! m�sero eu sonhava
Em mim quasi imortal a ess�ncia humana!

De que in�meros s�is a mente ufana
Exist�ncia falaz me n�o dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, s�cios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si n�o coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos

Deus, � Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver n�o soube.

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J� Bocage n�o sou!... � cova escura

J� Bocage n�o sou!... � cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos c�us ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conhe�o agora j� qu�o v� figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da raz�o seguisse, pura!

Eu me arrependo; a l�ngua quase fria
Brade em alto preg�o � mocidade,
Que atr�s do som fant�stico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente �mpia,
Rasga meus versos, cr� na eternidade.

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L� quando em mim perder a humanidade

L� quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que n�o fazem falta,
Verbi-gratia - o te�logo, o peralta,
Algum duque, ou marqu�s, ou conde, ou frade:

N�o quero funeral comunidade,
Que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarr�es, gente de malta,
Eu tamb�m vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epit�fio m�o piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou a vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu, sem ter dinheiro." .

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Cam�es, grande Cam�es, qu�o semelhante

Cam�es, grande Cam�es, qu�o semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacr�lego gigante.

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da pen�ria cruel no horror me vejo.
Como tu, gostos v�os, que em v�o desejo,
Tamb�m carpindo estou, saudoso amante.

Lud�brio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao C�u, pela certeza
De que s� terei paz na sepultura.

Modelo meu tu �s, mas . . . oh, tristeza! . . .
Se te imito nos transes da Ventura,
N�o te imito nos dons da Natureza.

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� tran�as de que Amor pris�es me tece,

� tran�as de que Amor pris�es me tece,
� m�os de neve, que regeis meu fado!
� tesouro! � mist�rio! � par sagrado,
Onde o menino al�gero adormece!

� ledos olhos, cuja luz parece
T�nue raio de sol! � gesto amado,
De rosas e a�ucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

� l�bios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulc�ssimos favores
Talvez o pr�prio J�piter suspira!

� perfei��es! � dons encantadores!
De quem sois? Sois de V�nus? - � mentira;
Sois de Mar�lia, sois dos meus amores. .

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J� sobre o coche de �bano estrelado

J� sobre o coche de �bano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo sil�ncio me rodeia
Neste deserto bosque, � luz vedado!

Jaz entre as folhas Z�firo abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, �s trevas acostumado.

S� eu velo, s� eu, pedindo � Sorte
Que o fio com que est� minh'alma presa
� vil mat�ria l�nguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No sil�ncio total da Natureza. .

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� retrato da Morte! � Noite amiga,

� retrato da Morte! � Noite amiga,
Por cuja escurid�o suspiro h� tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secret�ria antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
D�-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E v�s, � cortes�os da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu cora��o de horrores.

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Apenas vi do dia a luz brilhante

Apenas vi do dia a luz brilhante
L� de T�bal(1) no emp�rio celebrado,
Em sangu�neo car�cter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros(2) a morte devorante
Me roubou, terna m�e, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irm�os e do pai me p�s distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da p�tria, longe da ventura,
Minhas faces com l�grimas inundo.

E enquanto insana multid�o procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura. .

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Sobre estas duras

Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me est�o negras paix�es n'alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas.

Raz�o feroz, o cora��o me indagas,
De meus erros e sombra esclarecendo,
E v�s nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas �nsias venenosas chagas.

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objectos de horror co'a ideia eu corro,
Solto gemidos, l�grimas derramo.

Raz�o, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me n�o amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro. .

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O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela m�o da Desventura,
Pela ba�a Tristeza envenenados:

Vede a luz, n�o busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-�o com ternura os desgra�ados:

N�o vos inspire, � versos, cobardia
Da s�tira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis t�o pouco,
Que n�o pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

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Incultas produ��es da mocidade

Incultas produ��es da mocidade
Exponho a vossos olhos, � leitores:
Vede-as com m�goa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e n�o louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, l�grimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta dura��o de seus favores:

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja apar�ncia
Indique festival contentamento,

Crede, � mortais, que foram com viol�ncia
Escritos pela m�o do Fingimento,
Cantados pela voz da Depend�ncia.

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� C�us! Que sinto n'alma!

� C�us! Que sinto n'alma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida, me desfaz o alento!

Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: "A que se exp�e quem n�o receia
Contemplar Ursulina um s� momento!

"Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e cum tiro
Puni tua sacr�lega loucura:

"De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
� tua linda ingrata algum suspiro."

UP

Bocage


Retrato pr�prio

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Meu ser evaporei na luta insana

J� Bocage n�o sou!... � cova escura

L� quando em mim perder a humanidade

Cam�es, grande Cam�es, qu�o semelhante

� tran�as de que Amor pris�es me tece,

J� sobre o coche de �bano estrelado

� retrato da Morte! � Noite amiga,

Apenas vi do dia a luz brilhante

Sobre estas duras

O autor aos seus versos

 

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