Miguel Torga

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Miguel Torga


Segredo

A Terra

Livro de Horas


Segredo

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem l� dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que fa�a o pino
A voar...



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A Terra

Tamb�m eu quero abrir-te e semear
Um gr�o de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,

Tudo a enterrar centeio,
E s�o horas de eu p�r a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanh�
Sem fronteiras nem dono,
H� de existir a praga da milh�,
A vol�pia do sono
Da papoula vermelha e tempor�,
E o alegre abandono
De uma cigarra v�.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Ser� gra�a e limite
Do pend�o que levante
A f� que a tua for�a ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
� um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na cria��o!
Seja fecunda a vessada,
Seja � tona do ch�o,
Nada fecundas, nada,
Que eu n�o fermente tamb�m de inspira��o!

E por isso te rasgo de magia
E te lan�o nos bra�os a colheita
Que h�s de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de n�s dois.

Terra, minha mulher!
Um amor � o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas n�o concebe
Uma bolota que n�o d� carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
�gua que a manh� bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha can��o!
Ode de p�lo a p�lo erguida
Pela beleza que n�o sabe a p�o
Mas ao gosto da vida!

 

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Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que v�o em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que s�o tr�s,
E dos pecados mortais
Que s�o sete,
Quando a terra n�o repete
Que s�o mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras l�cidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andan�as
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, � mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter ra�zes no ch�o
Desta minha condi��o.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo ca�do
Do tal c�u que Deus governa;
De ser o monstro sa�do
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

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